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algo como um vazio no coração do que eles achavam que estava acontecendo

Poema avulso de Arthur Bugelli

I.
no sono infantil
que embalava o mundo
perderam os detalhes pequenos
minúsculos
que davam dignidade
aos momentos de pouca aparência
e substância suspeita

quem sabe a vida seria sonhar
se apenas narrássemos a história
de um outro alguém

quem me dera o primeiro homem
tivesse desenhado um olho fechado
ao invés de um mamute

talvez assim teríamos
algo do que nos orgulhar

II.
na infância, ouvi que o gosto da carne
e do arroz
e do feijão
estava ali por causa do alho
que colocavam ao cozinhar
minhas jantas e almoços
comecei a acreditar então
que apenas com alho
o gosto se revelava
e que sua função essencial
e de maior importância
era conferir sabor
ao que tivesse tamanha
qualidade
e imaginava nas confeitarias
destacamentos de operários
raspando alho nos chocolates
e nos caroços das frutas
um alho ressecado
e que minha mãe, ou meu pai
ou qualquer outra autoridade
colocava alho em minha boca
enquanto dormia
para evitar que jamais acordasse
sem ter um pouco do gosto do ar
no dia que vinha
hoje o alho
tem um único gosto
era bom ter absolutos
 

III.
o mundo não é o mesmo
daquele que construí quando acreditei
saber que nada me reservava
a margem dos anos

as sombras, persistentes
mantem-se firmes nos cantos
obscuros e obtusos
mas perceberam que já não tem mais lugar
nas grandes e largas planícies
aonde estavam os lugares
que verdejam os dias
a seguir

os espaços vagos
e desguarnecidos
continuam ocos e largos
mas agora não tem mais ares
de definitivos
e aguardam apenas
a ocupação com algo ainda
inimaginável

as noites loucas
com o suor escorrendo o peito
e os olhares melancólicos dirigidos
a um horizonte que se esconde
atrás de tantos temores
ainda vem na solidão dos dedos batendo
na ponta das palavras
mas agora cumprem a promessa
de serem apenas isso:
algumas noites

a Palavra permanece vazia
e o verbo já morreu a tempos
mas já não sei mais quando isso aconteceu
nem o porquê um dia isso importou

e o azul se expandiu e se rasgou
nas memórias
como os significados escondidos
no silêncio que intercala
olhares e sorrisos
a um mês o mundo não é o mesmo
e jamais matar uma vida inteira
foi tão bom

 

IV.
com apenas mais alguns segundos
sobrando
diga-me ao menos
que no inferno
o sofrimento é certo
e não essa dúvida
de uma felicidade cerceada
por olhos agitados
e mãos trêmulas
na calada dos anos

 

V.
a confusão que vem
junto com as marés de sombra
das noites chuvosas
torna o mundo tão desproporcional
que por alguns momentos
torna-se belo
de maneira
pouco crível
mas fiel

 

VI.
vive-se bem entre um dia e outro
come-se fartamente
sorrisos ao chegar da conta
pensamentos claros
um tanto quanto retilíneos
e sapatos com as pontas limpas
até que um dia
a vida se assemelha
a mais uma crônica escrita nos detalhes
e se percebe que tudo foi ao inferno
e o que há a se fazer
é gargalhar a risada
dos loucos
até a próxima estação
do trem

 

VII.
entre um aplauso
e outro
prefiro manter o som
dentro
e esperar o trovão
estourar

 

VIII.
talvez nas figuras trágicas
exista algo da saúde ingênua
que é natural às crianças solitárias
e aos sujeitos desesperados
por fazer entender o que sentem
com símbolos tão vulgares

nos espelhos todos
os reflexos criam imagens
do que pensamos um dia existir
e acabaram por se tornar reais
de tanta impaciência e teimosia
em impor devaneios
à realidade dos dias frios
perdidos em alguma imagem banal
recheada de conotações religiosas
aos cultos de nos pensarmos
como significados

se a infância morreu
gritando
em alguma cela enferrujada
para lá dos mares do tempo
talvez venha a reencarnar
na sua imagem imponente
que vem tomando aos poucos
a totalidade das cansadas metáforas
que povoam os olhos
marejados

não seria imbecil
considerar que a ansiedade
que povoa o silêncio da noite
viria da falta de fotografias antigas
no céu?

ainda que seja,
a familiaridade
daquele grande vazio
fala muito mais
do que essa autoconsciência
que já passou de ridícula
a assustadora

com todos os profetas enterrados
consegui me atirar em você por completo
e o absoluto me consumiu como sempre sonhei

hoje meu verbo morreu
ou talvez tenha sido ontem
não tenho certeza

 

IX.
das maiores dúvidas
da vida
:
o farol verde-e-vermelho
aceso inteiro
os números
da loteria
e aquele seu olhar
de curiosidade misturada
com o retrato
do mundo
 

X.
os sonhos todos
que povoavam a escuridão
fugiram em debandada
talvez para onde
possam deixar de ser
ficções honestas
para virarem meias-verdades
ou memórias
reconfortantes

no quarto
a realidade fica
como a única imagem
que distrai a mente
da solidão das coisas pequenas
e do senso comum das tragédias
sem nada no meio
para servir
como conforto

talvez a vida seja não sonhar
mas se perder em pesadelos
que de invisíveis
são agora pouco vistos
mas já habituais

os olhos fechados,
apenas a irrelevância
do que pode vir a ser
e mais um gosto estranho
que se mistura com as cores vivas
e acaba por formar
aquela vez em que brincamos
no jardim de árvores
tombadas

os olhos abertos,
apenas os sonhos
ausentes

 

XI.
mesmo nos dias de fôlego
o suor vem
e as paredes jamais deixam
de encobrir todo o resto

mesmo nos dias de trégua
os olhares furtivos
roubam alguns momentos
em que tudo o que existe
são as sobras
do dia anterior
ou uma frase
que mata

e ainda assim
esses dias
tão raros e esquisitos
continuam melhores
do que todo o resto

 

XII.
algum dia qualquer
essa fúria torna-se
uma beleza encantada
enlatada
preenchendo os espaços
abandonados
que trouxeram de volta
a futilidade de criar
sons
vindos do nada

e a importância vital
das questões desagradáveis
de contorno borrado
que misturam-se com o cenário
irá tomar o sangue
por água
e as feridas deixadas para trás
por marcas
de nascença

nesse dia qualquer
morre
sem significado
algum

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Arthur Bugelli

Arthur Lungov Bugelli, paulistano nascido em 4 de julho de 1996, é aluno da graduação da Faculdade de Direito da USP e coautor do extinto blog literário independente Não Julgue O Blog Pelo Nome, aonde descobriu irmãos e engatinhou na escrita. Também já foi publicado na revista Carcará, produção literária da Academia de Letraz, da Faculdade de Direito. É poeta viciado em prosa, baterista que vacila no jazz e pedestre fascinado pelas madrugadas da Avenida Paulista. Nas horas livres, vive. Nas ocupadas, escreve. No meio tempo lê. Café sem açúcar e pudim de leite, por favor. A conta trás depois.

Contato do autor

albugelli@uol.com.br

 

 

 

   

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