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Sem luz

Conto de Baruc Carvalho Martins

Enquanto afastava o fogo de uma pequena coivara, Heleno Ferreira da Silva descobriu que não poderia mais ver. A fumaça que avançava pelo mato seco cintilava em seus olhos miúdos. E ardia. Nuvenzinhas vagavam entre os arbustos sem pressa. O céu estava tão próximo que dava pra sentir o gosto. De fato, era o fim de um inverno que nunca veio.

Também não conheceu multidão. Vivendo entre o dia quente e a noite fria no sertãozinho de Cruz das Almas, tão distante do resto da Bahia quanto de sua própria cidade-sede, Adustina, seu número de conhecidos não chegava a cem. Até hoje, ao longo de seus quase 60 anos de vida, só fez dois amigos. Manuel de Joãozinho Migué e Tereza de Seu Niponuceno. O primeiro, depois de uma gripe desgraçada, morreu ainda novo, por volta dos 35; a segunda, perdeu o marido de infarto. Heleno conheceu os dois, ainda pequenos, numa novena. Era o batizado do irmão mais novo de Tereza e ela, toda séria, franzia a testa para os dizeres do padre. Nesse dia, Manuel estava numa barraquinha junto com Heleno vendendo doces. Tereza aproveitou a conversa dos dois para roubar uma maria-mole. Logo em seguida, saiu correndo. Quando foram capturá-la, jogou o primeiro flerte: “Se vocês pegare isso de mim, eu grito”. E emendou: “Vamo por aqui que dá tempo de voltá pros fogos”.

A casa de Tereza está afastada a uns 100 metros da casa de Seu Heleno. Ela é a sua vizinha mais próxima. Todas as segundas, quartas e sextas, Tereza compra há mais de 15 anos na bodega do amigo uma Tubaina de laranja e alguns salgados para os netos.

Na terça-feira seguinte a descoberta de Heleno, dois dias antes de seu aniversário, Tereza lhe fez uma visita rápida. Era estranho estar ali, mas ele já desconfiava o motivo. Tereza se preparou para falar e, antes mesmo que pudesse dizer qualquer coisa, Heleno lhe entregou uma Tubaina de coca. Um silêncio cortou inadvertidamente os dois.

            – Vai contar ou não?

Coçou os olhos. Queria disfarçar: “Foi só um cisco”. Em vão. Tereza já conhecia os tiques, o ritmo da voz e a finura da pele de Heleno quando mentia.

– Vamo, conta. Eu não vou sair daqui. Conta.

Já percebendo que qualquer mentira seria facilmente percebida, tremeu um pouco os braços e disse numa velocidade que dificilmente seria entendida por uma pessoa pouco atenta:

– Tô ficando cego.

Estava tudo clareando e escurecendo. “O mundo acinzou pra mim”, disse. Tereza não deixou falar muito. Apontou para um calendário pregado na parede sem reboco e deu o ultimato: “Tá vendo aquele dia ali? Vou embora pra São Paulo. Eu e todo mundo de casa. Vai todo mundo. Até lá, eu acho que te devo alguma coisa e queria que você pensasse.”

Heleno riu.

“Eu já disse: quero te dar alguma coisa. Por tudo”, inquiriu Tereza aos olhos do amigo. Um retorno que, a bem da verdade, logo não seria mais possível.

Ele não sabia mais o que dizer. Na verdade, jamais tinha pensado em nada pra ganhar. Sua vida sempre foi de perdas. Fato era que não queria pedir algo simples. Tereza sempre esteve dez passos a sua frente e uma fraquejada no pedido implicaria numa desmoralização total daquele homem diante dos olhos da amiga de infância.

No fim das contas, decidiu pedir algo impossível. Algo tão grotesco e inalcançável que teria certeza que a única resposta que Tereza iria lhe dar seria a de um grande deboche. E Heleno ansiava por isso. Já estava tão convicto de que a estranheza do pedido faria ela dar um pulo e cair de costas que, antes mesmo de falar, não conseguiu conter as gargalhadas. E riu tanto que Tereza teve pena.

Foi aí que, decidido, lançou o seu último desejo em luz:

– Queria ver a neve antes de cegar.

Tereza não riu. Nem fez cara de surpresa. “Pode ser”, respondeu secamente. Heleno não acreditou. Sabia que era impossível para ela. “Isso só tem nos Estados Unido”, gritou. “Apois agora vai ter aqui”, Tereza o engoliu. E foi embora.

No dia seguinte, Tereza não voltou. Uma angústia tomou de assalto o corpo esguio de Heleno. A casa de dois cômodos anexada a um pequeno salão não era mais suficiente para alegrar as pequenas manhãs. Sentiu necessidade da presença dos filhos que nunca teve. Cada reflexo do vidro das cachaças marcado por mãos firmes trazia uma memória que queria esquecer.

Mas Tereza ainda não voltou. E nem voltaria nas semanas seguintes. Certamente a pressa em organizar a bodega aliviaria um pouco essas dores que começava a ter. Vez ou outra uma neblina no canto do olho se somava a uma escuridão que não sabia definir. “Não é preto nem branco, às veiz é meio azul”, esforçava-se. O seu ouvido aguçado foi subutilizado nestes dias. Queria aproveitar os instantes finais com a luz.

Até que, às onze da noite de uma quinta-feira, ele pôs os pés para fora de casa. A sandália de couro estava apertando demais os dedos da frente. Já não conseguia enxergar a fivela e foi tateando para tirar a correia. Em seguida, espraiou os pés no chão, sentiu um gelinho bom correr a espinha e caminhou. A cada passo voltava o receio pela porta aberta. Mas não ligava tanto. O colorido do mundo estava sendo apagado.

Em seu último ímpeto, levantou a cabeça em direção ao céu. A lua sumia em seus olhos amendoados. E sobre uma camada alva que se condensava em sua íris, dançava pequenos pontinhos brancos. O toque dessa brancura na pele se convertia em lágrimas. Era frio. Esqueceu completamente da porta. Por um momento, sorriu. Parecia que o sereno da noite tinha atingido a sua última forma. Abriu a boca pensando ser possível engolir essas criaturinhas que se desmanchavam pelo ar. No primeiro toque na língua, o susto: “É doce”. Pôde sentir cada poro se enrijecendo ao passo em que ouvia o grito das rasga-mortalhas cruzar o céu. Algumas mãos o carregavam por trás, tentando dar consolo a seu corpo cansado. No seu ouvido, uma voz aquecia o peito: “Vamo por aqui que dá tempo de voltá pros fogos.”

E, desaparecendo entre a névoa e as algarobeiras, Heleno Ferreira da Silva ficou cego. Mas não estava triste. Pois do céu, lembra, caíam marias-moles. 

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Baruc Carvalho Martins

Baruc Carvalho Martins é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e graduando em Letras pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É também roteirista, montador e diretor dos documentários “Poço Verde – A Terra das Algarobeiras” (2014) e “A vida que não cabe” (2015). Gosta de povoar o sonho das pessoas com histórias, com narrativas e possibilidades para a própria vida. Não sabe bem quando se apaixonou por essa arte de escrever. Até porque, desde pequeno, escreve, e, desde então, existe.

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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