Início          Edição atual          Edições anteriores          Blog          Corpo editorial          Normas para publicação          Quem somos?          Contato         

 

O comedor de salivas

Conto de Bruno Galindo Gonçalves

 A janela do consultório está aberta outra vez. Maldita insistência. E os cinco minutos de atraso. O doutor faz questão. Os curativos descolam da boca. Doutor me deixa esperando no corredor aberto do matadouro de desesperos. Bem envernizado. Lá fora a cidade. São Paulo ainda é uma cidade, não é? Por mais que não pareça. Parece mais selva, dizem de acerto. (Pós ou pré?) Apocalíptica, fica evidente, quando recusa etiquetas aos bichos do mato. Como eu. Estes bichos empolados da cidade que me olham torto. Pensam que são pavões, coitados. Coitados! E o doutor não chega nunca. Deve estar lá no calabouço que chama de escritório tragando o charuto pra morrer uma morte elegante, câncer no pulmão, doença dos gênios da década. Traga como um doente e solta como um búfalo.   Deve fumar em cigarrilhas ainda por cima. Porque a pompa destes tipos de bicho não existe sem antes um quê de breguice, de charme distinto. Nó no estômago. Como me enjoa este cheiro de verniz da sala de espera.

  Ao fundo do corredor habita a secretária. Roendo as unhas como quem come metal.  Quando se é assim, mais criatura que gente, não há quem (ou seria o que?) atravesse em segredo, diante de nós, detalhes animalescos. Nós, estas criaturas estranhas em forma de gente. Reconhecemos uns aos outros. Umas às outras. De certo que é solteira a secretária. Gosta de falar banalidades ao mundo porque assim faz das suas próprias menos intragáveis, quase não incômodas. A secretária é um bicho sagaz.  Queria eu ser como ela. Mas sou metade cão, disse o doutor dia desses. Com tendências a ignorar qualquer darwinismo. A secretária é bem-te-vi. Deve ser um bem-te-vi a secretária. Não tem cara de que vai, nas noites, sedenta buscar por algo além de água doce, ligeira ao despistar encruzilhadas, bonita, confesso, mas tão rápida que invisível. Invisível nesta camisa marrom que usa quase todos os dias em que venho.    Devem ser várias camisas marrons. Deve ser norma do doutor, combinar a secretária com o restante do ambiente em mogno. Borboleta seria óbvio demais para a secretária. Não explica a ansiedade do roer de unhas, desse comer as unhas, melhor dizendo, tão afobado. Por natureza parece ter as duplas cores de um bem-te-vi. É preciso olhar com calma pra notar o verde-neon que leva em si, escondido sob este marrom desbotado aos olhos nus. O doutor está mais atrasado que o habitual. Antes a secretária soubesse que as unhas são a única parte imortal de nós, criaturas estranhas. Por isso deixei de comer as minhas; deixarei aos herdeiros que não terei. A parte de mim que agora mastigo é outra.

  Desde que comecei a ver o doutor mudei de instinto forçosamente, passando assim ao gradativo ato de morder meus próprios lábios. De comer e mastigar meus próprios lábios. Estes mesmos que não mordem outros, não beijam ossos, não chupam peles. Inúteis, sequer fumam como os lábios em cinza do doutor. Inúteis, os meus, como só eles, ao menos se contorcem ao atrito quando os caninos lhes irrompem e abrem ao transbordamento de qualquer coisa. De um sangue que escorre bem devagarzinho.    Manifesta-se assim a parte mais solitária de minha própria criatura. Esta mesma, de pele em mogno que nem o sol de horas fornece às outras. Mogno como o que adorna a sala de espera na qual me camuflo.

  O doutor surge no corredor. Manco, acinzentado, bicho estranhíssimo, meio búfalo, meio calvo, nada humano. Porém, confesso: a mais íntima das criaturas com quem tenho habitado ultimamente. Segundo ele, eu, meio cão porque rosno e careço ao mesmo tempo. Com trato talvez um dia vire lobo, chacal. Um coiote compenetrado, quem sabe. Mas doutor já afirmou de início: jamais desfrutarei a inexistência tranqüila das tartarugas centenárias que jogam dominó e pão aos ninhos nos bancos das praças.

Doutor chega.

 Pode entrar.

  Conversaremos sobre a semana. Como sempre. Sofri, nesta, de um novo desejo incontrolável.

 Me tirou sono, fome, depois largou na cama em posição fetal, doutor.

 Sei.

  Peço encarecidamente que feche a cortina. O sol me atrapalha a vista. A sala escurece, a luminária compensa. E antes que doutor comece o protocolo, me antecipo e quase cuspo a aflição.

 Não quero mais ser meio cão, doutor. Nem lobo, nem chacal, nem coiote.

 Quero ser raposa, Doutor.

  Bonita raposa, de porte médio talvez, que ande elegante, esquecida do mundo. Que rastreie armadilhas e dias antes se esquive.

 Quero ser raposa como raposa era Clarissa, doutor.

Ele acende um cigarro. E ri. Maldito.

 Prossiga, diz ele.

 Quero ser raposa como Clarissa era. É.

  Raposa rara, pelugem em nada laranja, em tudo tons pretos. Negros e miméticos, já que Clarissa era criatura noturna, acima de tudo. Notívaga por instinto. Raposa por vaidade. Porque ser gata seria obvio demais para Clarissa. Pernas finas, corpo suspenso entre pescoço e clavículas; andava em flutuação, me levava junto.

 Assim foi que me tirou lá debaixo, do lar das criaturas metade ovelhas metade gente, doutor.

 Uhum.

  Metrô às seis e meia. Ela, pela segunda vez no mês, surge raposa raríssima desde o princípio. Coincidências de selva cosmopolita. A única vantagem da cidade grande. Eu, à época ovelha raquítica, avisto raposa sentada no ponto de escape da paisagem, soterrada pelas inúmeras ovelhas. Amontoado de meias ovelhas. Lá, distante, focada como só as raposas num livro que nunca li. Dilema. Como eu, ovelha, ovelhinha mesmo, me aproximaria da raposa, criatura que na cadeia alimentar figura certamente como minha predadora. O fato é que à época trazia em mim muito de burro também.   Chego afoito, sento quase ao lado, a um assento de distância pra não entregar tão descarado o interesse. Olho ridículo, com o canto dos olhos. Raposa ali, imóvel, elegante, minimalista. Busco detalhes, preservando a camuflagem. Noto rapidamente que raposa tem a mania de sempre morder o lábio quando no livro vira uma página.   Talvez uma aflição inconsciente por saber que cada página adiante no livro é um passo de volta ao mundo. Temos algo em comum. Tínhamos. Curiosamente. Antes estes trilhos tivessem mais trinta quilômetros. Mas não. Preciso desmontar a camuflagem. Respiro tosco como toda ovelha em parto. Preparo-me. Mas antes (ah, antes!), raposa me interpela. Olha pra mim. Olhar pétreo, grandes íris de raposa.

 Oi.

  Sorrio como todo homem meio ovelha. Besta. Animal, de fato.

 Oi.

 Já leu?

 Não.

 Tem nome?

 O livro?

 Você.

 Tenho.

  Ela ri. Lindíssima. Se apresenta.

 Clarissa.

 Oi.

 Oi.

  Não disse meu nome. Meio ovelha, meio Burro, prova-se aqui. Preciso ir atrás dela. Mas como fazer sem soar bizarro? Os de minha espécie em nada ajudam. Já fui um deles, confesso. Mas talvez raposa tenha me reconhecido ovelha negra. Raposa? Clarissa. Talvez tenha me reconhecido ovelha negra. Talvez. Arrisco.

O doutor cria ao seu redor uma neblina com o charuto. Mistério empolado prova-se aqui.

 Pra que ser raposa? Te dou um meio cão e te faço ainda um projeto de lobo, e me conta agora aflições por querer ser raposa.

 Não sei doutor.

 Quem é Clarissa?

 Não sei mais doutor.

 Quanto tempo tem isso?

 Dez...

Meses?

Anos.

  Quem foi Clarissa? Talvez seja esta a pergunta mais precisa. Não? O doutor é criatura perspicaz, confesso. Sábio neste olhar de búfalo. Deve roncar como um. Coitados dos que dormem com ele. Coitados! Clarissa foi a raposa que me matou nos dias de ovelha. Foi ela. E só ela. Lambeu, mordeu, comeu, mastigou. Depois cuspiu todinho. Não que quisesse. Mas cuspiu pra fora de si, ruminante, me fez outro, embora, assim, dolorosamente. Doutor puxa um caderninho de anotações. Não sei se escreve o que digo ou se faz a lista de compras do mês. Búfalo intempestivo, larga sozinho no consultório o cãozinho caduco mais uma vez. Caduco mais uma vez. Falo sozinho. Mais. Uma. Vez.

  No caminho Clarissa me conta que habita bibliotecas. Futura professora. Raposa independente, sem bando, dada às filosofias e alguma ciência social. Ela me guia no caminho e eu, ovelhinha, vou seguindo. Os caminhos de raposa são tão mais interessantes. Chegamos ao ponto. Ela espera pelo ônibus.

           Vai pra onde?

  Pra onde você quiser, por favor, por favor!

           Não sei. E você?

           Pra casa.

           – Hm

  “Mora onde?” seria invasivo demais, intrusivo demais, apegado em excesso. Clarissa assim, tão solícita, formidável raposa, alterando minha vida de ovelha tão subitamente. Não posso assustá-la. Não quero assustá-la. Não pos...o ônibus chega.   Ela diz alguma coisa, mas esqueço. Memorizo apenas o que raposa Clarissa diz em seguida.

           Quer sair amanhã?

  Um bar legal na rua tal. Meu assentimento com a cabeça grita mais que minha resposta. Mas me contenho.

             Que horas?

             – Às sete.

             Ok.

             Marcado.

  Passo o dia seguinte pensando em como tornar mais charmosos os pêlos gastos de ovelha. Tento. Não sei se acerto. Às sete nos encontramos.  Como é linda Clarissa. Tão raposa. Rara. Pra mim, ao menos.

             Oi

             – Oi

             Vamos?

             Sim.

             – Ok.

             Legal.

  No caminho raposa me conta da vida, da mãe, do irmão mais novo, dos futuros. Eu, ainda ovelhinha, retruco pragmático. Estudo. Trabalho. Sobrevivo.

            Sou chatíssimo.

Ela ri. Lindíssima.

            Veremos.

  Chegamos ao bar e Clarissa parece saber desde sempre que naquele ambiente, daquele instante em diante, sou quatro vezes mais ovelhinha. Sem trato com neons selvagens, bebidas amargas, lugares contentes. Ela então me pega no braço e arrasta, gentilmente. Se antes raposa revelara-se Clarissa, ali, o efeito é inverso, o instinto se exalta, raposa dança num balé de graves imergida por completo de Clarissa. Ela vai. Me solta. E me chama.

             Vem.

             – Hm...

  Vem logo ovelhinha, é o que raposa pensa. Eu me afasto um tempo e vejo como o ambiente parece abrir espaço pra dança de raposa. Clarissa. Raposa. Clarissa.

             Se você não vem vou aí

             Eu tô b...

  Beijo. Súbito. Ovelha fraca. Apago ali, alguns segundos. Só não desmaio por bom senso. Raposa me morde os lábios. Clarissa me sorri aberto. A pele escura contrasta com os dentes à luz negra. Lindíssima. Luz negra. Por isso linda. Raposa. Por isso Clarissa. Por isso mistério. Clarissa. Por isso raposa. Eu, ovelha. Por isso dela. Naquela noite e nas outras tantas que viriam, sob neon, lençóis e sóis. Na selva que nos criou tão diferentes e juntou de pronto acaso.

  O doutor anota mesmo o que digo.

             Olha, por aproximação com os instintos de raposa o máximo que consigo é fazer de você um rusky. Não é lobo, nem raposa, mas deve servir. Melhor que cão.

             Rusky é aquele cachorro de neve?

             É.

             – Hm.

             Siberiano.

             Sei.

             Aliás, por que não me disse antes que teve essa fase ovelha? Isso explica muito.

             Não sei

             – A questão é que no seu caso pra ser um rusky nossos encontros durariam mais três ou quatro meses.

             É muito

             Ainda pretende mudar de cidade?

             Sim.

             Quanto tempo?

             – Um mês

             Como ficamos?

             – Vem junto?

  Ele ri. E acende outro charuto. Maldito.

             Posso te encaminhar aos remédios.

             Antidepressivos?

             Sim. Seria rusky na metade dos dias, mas na outra voltaria a ser ovelha, provavelmente. Ao menos diminuiria essa ansiedade nervosa que te faz morder os lábios.

                Não sei.

  Sim, doutor além de búfalo é antiético. Absolutamente. Talvez por seu consultório ter contrato privilegiado com os financiadores do laboratório. Os representantes vendem em troca do aluguel de angústias gerenciado pelo doutor. Mas é a única criatura com quem habito hoje. Não há outras. Não há. É exatamente este o ônus de negociar instintos. De mudar de habitat e vir parar nesta selva. Doutor espera resposta.

             Não sei, Clarissa.

             – Por quê?

             E se seus pais chegarem? Seu irmão?

  Ovelhinha me sentia atraído, mas amedrontado com a proposta de raposa. Nunca havia tido uma raposa na vida. Sou ovelhinha, Clarissa. Penso. Não falo. Respiro, tonto como ovelha dopada. Trôpega. Sigo.

             Tá, te encontro amanhã.

             – Não precisa ter medo.

             Eu sei.

  Eu acho que sei. Passo o dia seguinte receoso, dormindo, ruminando. Os pais de Clarissa vão a um aniversário. O irmão está na vizinha. Será este o momento de libertação à selva pra que raposa se mostre raposa ainda mais? Não. Não será.

  Clarissa me recebe com um abraço. Acalma a ovelhinha no colo, faz carinho, beija o beijo que afasta abandonos pra só depois, então, trazer pra si os instintos. Clarissa me investiga e calmamente encontra ali, perdido, no meio de tudo, um lobo filhote. Como só ela poderia. Raposa é de toda sutileza, na pele, nos gestos, em todo desenho de corpo. Clarissa, nua, oferece os poros, os bicos, os dentes num só enlace. Instinto mútuo, agora. Ali, não sou uma ovelha. Não sou uma ovelha. Clarissa é mais que raposa.  Clarissa é tantas que nem sei. Morde os lábios outra vez. E outra. Desperta, ali, o vício. Retira solidão entre dentes e lábios. Qualquer alma solitária precisará um dia de algum dente que lhe corte os lábios. Qualquer alma solitária que não tenha pra si os dentes de outra boca ao menos um dia tentará romper a solidão usando os dentes da própria. Clarissa sorri raposa, ferocidade delicada, dedicada, completa.

             Eu também já tinha te visto no metrô.

  Sim, raposa havia me reconhecido ovelha negra.

  A secretária entra na sala.

              Sua esposa no telefone, Doutor.

              Já volto.

  Vou à janela e pela fresta da cortina olho mais uma vez a cidade. Um mês apenas e vou embora, vou pra lá ser criatura em outro lugar, no interior do interior. Apenas? Um mês é muito. Uma eternidade. Como sou obvio. Mas preciso. Esta cidade machuca na carne, nos ossos, nos nasce criaturas antes mesmo de sermos gente. Eleja qual bicho quer ser e tente sobreviver, é o que marca esta flora. Maldita. Não tenho mais idade pra isso. Daqui a vinte serei quinquagenário e cá me vejo ainda discutindo abstrações com o doutor búfalo. Tentando ver se nasce Clarissa no meio da sala. Tentando ver se brota. Mas Clarissa não é planta, é raposa.

              Voltei.

              Hm.

              Aproveitei e trouxe umas bulas.

              Uhum.

              Pensou no assunto?

              Não quero.

              Não?

              – Não.

              Uhum.

              – Nem remédios nem mais sessões.

  Clarissa diz que precisa ir embora. Ironicamente no único pôr-do-sol que me dei ao trabalho de olhar na vida, a memória que fica é a de raposa chorando enquanto relata o impasse, me abre aventura. Clarissa precisa ir embora. Raposa, de fato. O sol na pele escura faz Clarissa emoldurara num tom de preto alaranjado. Como é linda Clarissa.

              – Meu intercâmbio saiu.

              Pra onde?

              Califórnia.

              Filosofia?

              Uhum.

  Raposa chora. E ri. Raposa em rumo no metrô agora é Clarissa nos rumos da Califórnia. Terra da raposa cinzenta, que é de pêlos escuros e alaranjados como Clarissa é agora. Exatamente como Clarissa é agora.

              Tudo b...

  Beijo súbito. Ela me morde os lábios a última vez. Prometo que não volto a ser ovelhinha, Clarissa. Prometo, penso. Não falo.  

              – Boa Viagem.

  Três manhãs depois raposa entra no avião. Olha pela janelinha toda a natureza que se oferta ao desbravar da raposa mais bonita. Clarissa.

              – Quero ser gente, doutor, como faz?

              – Ah, isso é difícil.

              – Muito?

              – Eu mesmo sigo tentando.

              – Mesmo?

              – Muito.

              – Vou tentar também.

              – A escolha é sua

                 É nossa última sessão então?

              – Acho que é

              – Hm

              – Um abraço?

              – Não posso.

              – Não?

              – Por ética.

              – E fumar pode?

  Doutor ri.

              – Abrace a secretária se quiser.

  Maldito.

  Saio do consultório e ando pelo corredor. Calmamente. Embrulha o estômago o cheiro de verniz. Revejo a secretária. Chego perto. Mas não abraço.

              – Paula.

              – Sim?

              – Promete usar uma camisa verde amanhã?

              – Hã?

              – Verde bem chamativo.

                 – É piada?

              – Já reparou nos bem-te-vis?

              – Quê?

              – Promete?

              – Prometo?

  Duas semanas depois meu ônibus chega à rodoviária. Ribeirão. Dali é mais meia hora de estrada até em casa. Por vezes tenho a impressão de ver raposa passeando pelo acostamento. Mas aqui raposa não existe. Clarissa lá se foi perdida em alguma estrada de asfalto. Às vezes vem perdida em outra, entre meu tórax e meu umbigo, diagnosticaria. Chego à casa de minha mãe. Ecôo as palmas. Sai ela, tartaruga em paz como ela só, de dentro do casco. Casinha. Betina. Ela abre o portão. Abraça.

              – Quanto tempo meu filho.

              – Pois é.

              – Vai ficar quanto tempo?

              – Não sei.

              – Que é isso na boca?

              – Machucado do sol.

  São mordidas dos meus próprios dentes, mãe. Estou machucado, mãe. Aqui, por dentro, por fora. Ficando velho e machucado. Ainda. Penso. Mas não falo. Ainda.

              – Hm. Tá tudo bem?

              – Tá.

              – Ainda gosta de café?

              – Faz tempo que não tomo.

              – Você vivia me pedindo café.

              – Uhum.

              – Eu passo um novo. Quer?

              – Muito.

  Tomo o café, sacio vontade, quase mergulho. Pra voltar a ser gente talvez o segredo seja retomar velhos vícios, doutor. Vícios são atestados de mortalidade. Saber da mortalidade é o princípio básico que separa gente de bicho. O vício do doutor é o cigarro. O meu é o café. É o café. Sentado à janela do interior, enquanto o concreto da cidade lá fora não chega de avalanches pra exterminar meu habitat original. Espero que nunca chegue. Ao menos não enquanto, aqui, e só aqui, desaprendo a ser bicho pra voltar a ser gente. 

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Bruno Galindo Gonçalves

Bruno é um dos poucos mandaquienses vivos com menos de 60 anos. Há 20 anos em São Paulo, prepara-se agora para um pouso em tropeços por Recife. Cursou um ano bastante confuso de letras na faculdade mas desistiu quando verso e prosa viraram ciência de almanaque. Recém estudante de museologia, vai se perdendo todo bêbado entre literatura, cinema e outros terapeutas. Por ora escreve, humildemente, pra fechar e abrir gavetas, um dia quem sabe compreenda frestas, janelas, portas e portais. Tem problema grave com olhar espelhos, por isso atende às palavras - são meio amorfas -.Se indispõe com quem trata escrita como artigo de grife. Mas também não quer salvar o mundo. Heroísmo deixa a qualquer semântica empolada. Cedo aprendeu que existem grandes livros de apenas trinta páginas. Traz heterônimos de mesmo nome.

Site do autor

doquesemove.blogspot.com.br

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

A revista

Edições anteriores

Blog

Corpo editorial

Nossos artistas

Autores (breve)

Colabore com a Raimundo

Normas para publicação

Contato