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Lenora

Conto de Cristiane Tavares

I. Pensar por escrito
Para Lenora, ser letra é imprimir-se e também apagar-se. Entregar-se aos olhos do outro, receber grifos e riscos: rasura. Doar sentido para quem lê e às suas histórias se misturar. Ali crescer, descansar ou diluir, nunca se sabe. Na página branca permanecer sem ilusão de eternidade - traças e fungos hão de engolir.

“A letra marca o papel e, mesmo quando apagada, deixa rastros. Se outra se sobrepõe, ela ainda está lá: marca d’água”, ela pensa. Desce rapidamente até a cozinha e antes de preparar o café, liga o computador. A tela branca conserva a letra deletada na seta que retorna. Se for útil, fixa a mutabilidade de sua existência de letra nas versões.doc. Lenora abre a última delas e relê, enquanto a água ferve para o café. Antes mesmo de lavar o rosto, escovar os dentes e o cabelo, mira-se no espelho da tela.

Um outro tipo de permanência ela gosta de sonhar com pretensão descabida: como letra, eternizar-se na memória do outro. Para isso, ser corpo. Materializar o contato. Penetrar e provocar tremor. Um tremor que não só balance e volte ao mesmo ponto, mas movimente e tire do lugar. Excita-a a ideia de convidar o outro a percorrê-la com os olhos de cima a baixo, de um lado a outro, de trás para a frente, pontuando ou não, “como preferir”.

Quando está no banho e ao dirigir Lenora pensa por escrito. Às vezes, isso também lhe acontece logo que acorda, quando, ainda sonolenta, pisa com as pálpebras o chão do dia que nasce. Ultimamente, esse tipo de pensamento tem aparecido também sob a forma de saudade. “No início, nosso amor era letra digitada lado a lado, olhos nos caracteres”, lembra Lenora. Letra acumulada, guardando por meses o segredo do amor para, então, virar ideograma tatuado no corpo, ansiando a tão improvável perenidade dos afetos.

“Esse amor quebrou minha casca com firmeza e delicadeza deixando-me nua, olhando-me com desejo puro, mas não ingênuo.” Foi assim que seu pensamento por escrito traduziu a vontade de que aquele olhar a acompanhasse para o resto da vida. “O para sempre só pode morar dentro de nós”. Lembrou de um verso de Adélia Prado: “é dentro de nós que eles refulgem como ouro”. A poeta mineira referia-se ao sentimento de orfandade, que dá título ao poema, mas sobre esse assunto Lenora agora prefere calar. “A ilusão de um pertencimento sem fim”, continuou pensando por escrito.

O bom de pensar assim é que a forma não se fixa de modo concreto, vulnerável a constantes retoques. O espaço que as palavras ocupam quando se pensa por escrito é real e flutuante ao mesmo tempo: escapa a qualquer tentativa de reparo. Quando se vê, já foi. “Lembrar não é tocar. Essa fenda tênue erotiza”, pensa Lenora, sem ponto final

II. Embalados pelo choro da casa
Uma noite dessas acordou com estranho ruído no quarto. O filho, que dividia a cama com ela, logo pulou para o seu colo. Surpreenderam-se em plena madrugada com gotas incessantes pingando das extremidades do guarda-roupas. Não chovia, mas havia água acumulada na laje. Água acumulada de outras chuvas. Água que todo o sol de verão não dera conta de secar. Água, água, água... Naquela madrugada, Lenora e seu filho dormiram abraçados, embalados pelo choro da casa.

A água estragou boa parte do que havia no maleiro, revirou o que estava guardado, forçando os olhos a ver, sob forte odor de mofo, algumas pérolas que permaneceram intactas: um embrulho de presente com sapatinhos de bebê, guardado há anos. Embora cheirasse bolor, não fora afetado pelo estrago da água. Estranho reencontro aquele em meio a tantas perdas. Também sobre isso Lenora prefere calar. Não pensou duas vezes: lá se foi o presente precoce. O guarda-roupas parou temporariamente de pingar.

III. Ainda a água
Semanas depois, Lenora e o filho foram conhecer as nascentes do cerrado. Flutuar de mãos dadas nas águas cristalinas. Descobrir o mundo submerso de vegetação exuberante. Tocar os peixes. Descer junto ao escuro da gruta sem poder mergulhar no lago azul, cujas profundezas guardam fósseis adormecidos. Penetrar mistérios. Respeitar o silêncio. Responder novamente as perguntas do filho e rever a validade das respostas. Na viagem de volta, rumo ao aeroporto, avistar campos sem fim: pasto, soja, seriemas. O que é e o que pode ser. Como os lápis de cor espalhados sobre a cama, que o menino fez virar valentes cavaleiros.

É com água que o filho planta vida na paisagem concreta do quintal. Os quadrados coloridos da cerâmica que forra o chão se veem frequentemente inundados pela mira torta do menino, regando as plantas e vendo brotar as sementes. De tudo o que come, guarda os caroços. Num ritual, lava, deixa secar ao sol e depois afunda na terra úmida de uma floreira estreita. Os olhos vigiam, até serem surpreendidos pelo verde. Os vasinhos fazem fila no canto da parede, protegidos dos chutes a gol que disputam o quintal.

Lenora aprende o filho com água nos olhos. A visão anuviada pelo choro a faz ver melhor. O menino espicha feito trepadeira. Procura o alto, de onde certamente veio. E puxa sua mão para olhar a lua e as estrelas e fazer pedidos. Filho parindo mãe.

Na manhã fria de um sábado de sol, Lenora sente a falta do filho na primeira flor de manacá que se abre no pé cheio de botões. Novamente, Adélia: “queria dizer-lhes é que somos eternos, eu, Ofélia e os manacás.”

IV. Pisando bordas com pés escorregadios
“Os livros nunca estiveram empilhados como agora. De novembro pra cá, as pilhas só aumentaram”. Antes o peso viesse apenas dos livros empilhados e fora de lugar. Deslocada estava ela, Lenora. Pisando bordas com pés escorregadios. Espremida sob holofotes. Laçada pelo silêncio alheio que condena, sentenciara o próprio amor.

A poda da árvore em frente à casa clareou por demais a entrada. Escancarou as portas fechadas por trás da copa robusta. Os fios protegidos e a eletricidade pretensamente contida. O caminhão levou galhos, folhas, cascas. O canto dos pássaros foi para mais longe. As distâncias cresceram. O silêncio e o frio no quarto aumentaram.

É lá para fora que vai sempre que o coração aperta. Deita-se na cama, fecha os olhos e voa. Como numa tela de Chagal, sobrevoa as casinhas lá embaixo e vê o dia anoitecer do alto. Atravessa o tempo. É também ali, na cama, que os olhos escorrem e ela volta à posição fetal. Encolhe-se. Vira letra minúscula, com traço trêmulo. Inscreve-se carimbo no lençol, quase sempre tinta forte. “Na cortina, quero cor suave”. Deitar-se em chão firme e avistar transparências. Fazer dos pés, asas.

V. O amor tece imperecível colo
O colchão é colo para o corpo pesado e o papel para as letras maltraçadas. Lenora sempre as acolhe, por pior que seja o estado em que as encontre. No seu colo adormece o filho, depois de ouvir uma versão de “João e Maria” com final feliz. Adormece pedindo que lhe conte outra história, dessa vez uma “de verdade, de quando você era criança”. Lenora resiste. Não quer falar novamente sobre sua infância, deseja que durma logo, pois está exausta e nesta noite fria sabe que não terá colo.

Pousa sua mão como concha na cabeça do filho e logo vê o seu desejo atendido: a respiração se altera, o corpo aquece, ele dorme.

Cuidadosamente, Lenora retira sua mão e descansa a cabeça dele no travesseiro. Cobre-o com camadas de edredon e percorre com a mão o seu corpo crescido. Retira-se silenciosamente da cama e quando calça os chinelos para sair do quarto na ponta dos pés, ouve um inesperado “boa noite, mamãe”. Emociona-se e responde: “boa noite, filho, a mamãe te ama”. Depois de alguns segundos, ouve um murmúrio, novamente surpresa: “eu também”. O amor pronunciado no escuro tece imperecível colo.

VI. No corpo mora o que já foi e o que virá
“Revisitar-me é, necessariamente, reescrever-me”. Por vezes, é preciso deixar a página em branco para preenchê-la com o pulso que lateja em diferentes pontos do corpo. Levá-lo ao limite da aceleração e tornar a provocar, para melhor tê-lo.

No corpo mora o que já foi e o que virá. Raiz e semente. Nele vive também o que é: o agora, hoje presente. Carrega e descarrega, feito bateria de brinquedo de criança. “O controle, quase sempre remoto, insistentemente a me iludir.”

VII. O menino e a andorinha gigante
Da janela do avião o pôr-do-sol ilumina a cena feita de nuvens: o menino, montado em seu boizinho, encontra a andorinha gigante. Ele a contempla. Olhinhos brilhantes diante do imenso alado. Os dois navegam por mar azul e rosado. O sol vai se despedindo, deixando o céu carregado de nuvens. A cena escurece e a cortina se fecha para os olhos de Lenora. Sonhou seu filho, Quixote com olhos de lança.

 

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Cristiane Tavares

Nasci em São Paulo, numa madrugada fria de outono. Preferia ter nascido mineira, entre montanhas, ou em algum canto à beira-mar. Com o tempo, descobri que posso nascer também entre letras, espaços em branco e leituras. Todas as noites leio histórias para o meu filho. As palavras ajudam a gente a sonhar.

Livros:

Aos olhos do mar, MOVPalavras, 2015.

Quintais, Salesiana, 2007.

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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