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Micromundo macrolivro

Coletânea de poemas de Ellen Maria

Preâmbulo
(Sobre margens desbordadas)
Mergulho
mas nado de peito
Me debruço
mas durmo de lado
nos teus poemas
molhados
sono lentos
Um retrato do meu tempo
esparramado.

 

Prefácio
(o encontro)
Vinte e uma horas de leitura
de um prefácio
que faz desconfiar
que este será o melhor livro
de poesia
da minha biblioteca.

 

Introdução
(O fio da história)
A faca que corta
o instante da fome
é a mesma que separa
as sobras
da carne crua
da saciedade do presente.

Já foi lavada
afiada
e repousa
seca
no gaveteiro.

Não anseia
pelo próximo uso.
Espera
a chegada da estação
das frutas maduras
que derretem na mão.

Quando eu penso que posso me machucar
É que estou apaixonada de novo.

 

Primeiro capítulo
(Whats up)
O relógio é digital e luminoso
na tela do smarthphone
mas o tic TAC
não vem do voo
das borboletas no estômago
Eu sinto fome
e o tempo para
ouvir o bater das asas
você atende
diz que está chegando
depois chega
depois
sacia
e o tempo para
começar outra vez
...
E tudo perde a hora
Chamadas perdidas
Hoje só estamos para nós.

 

Segundo capítulo
(entre sombras)
Ninguém me conhece
quando aviso aos meus medos que eles não existem
e saio a assoviar canções antigas em becos escuros
em noites escuras e chuvosas
cheios de bruxas soltas
Ninguém me conhece
fecho os olhos
e depois abro e dou risada
de todas elas
quando eu digo séria
o olho brilha à pergunta e já sei a resposta
porque fui eu quem dá a resposta fazendo a pergunta
quer ser meu namorado?
Vejo um filme de terror sozinha
ele dorme ao meu lado
se esse tapete da sala falasse
ele diria que não houve noite mais longa
juntos aos poucos vou reconhecendo
o que me define
entre luzes da TV e essas pausas
no sono que suspende diálogos entre bandida e mocinho
e vice-versa
cinema, música, literatura
as coisas vão muito bem
e um beijo do herói homem aranha faz esquecer
que não tenho mais controle.

 

Terceiro capítulo
(para os segundos)
in media res
você se deforma
esquenta meu rosto
as pernas se enrijecem
as mãos formigam
ao mesmo tempo calmas
os pelos do braço se arrepiam
me incha, úmida e abro a boca
encharcadas minhas costas
com chuvas que brotam da cabeça
capotam na curva
me aperto e relaxo
em frequência RPM
suo também pelos olhos
os fecho para que não fujam
tetas flechas
faço uma involuntária torção de dedos
sou uma poça errante
uma pedra que derrete
mordo os lábios
estou
até que esqueço
e retorno
ao lençol freático.

 

Quarto capítulo
(uma cena)
Você analisa o poema sentado sobre a cama
como quem faz um ditado
Tece um discurso sobre a originalidade sintática
A potência dos últimos versos
O léxico, que léxico!
Seus olhos pendem desde a página do livro
a algum lugar entre minha boca e nariz
Escuto sua voz atentamente
como um aluno recém alfabetizado
Escrevo a imagem primeiro com meus olhos
e sem que você se dê conta
os fecho pausadamente
A cada ponto final deste texto
penso que eles se desfalecerão
alguns anos antes ou depois
desse poema
dessa memória.

 

Quinto capítulo
(ocaso íntimo)
Quando chega a estação dos cheiros
É tempo de decifrar enigmas
Às vezes um nariz não basta
Às vezes é mais que suficiente
E das flores da noite
Corto o talo e broto
No vaso da sala
Para contagiar a casa de respostas incontestáveis
Pétalas caídas em manhãs seguintes.

 

Quarta capa
(La excusa ou natureza)
E eu fico
forçada
a partir
sempre
depois
que alguém me pede
pra ficar
Nasci no mar destinada
a morrer na praia

(como quase todos
Os caiçaras
não somos muito de fugir
do barco).

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Ellen Maria

Ellen Maria Vasconcellos tem 28 anos, é formada em Letras na USP, e atualmente cursa o mestrado investigando literatura argentina contemporânea, cinema e televisão. Trabalha com preparação, revisão e tradução de textos. Já vendeu livros e deu aulas de espanhol e português para estrangeiros. Seu livro de poemas "Chacharitas & Gambuzinos" acabou de ser publicado bilíngue pela editora Patuá. Publicou poemas em quatro antologias pela Andross Editora, e em três antologias pela Editora Annablume, e na antologia Frontera, publicada pela Lagrullita Cartonera, no Chile. Também já marcou presença em revistas digitais e impressas, como Mallarmargens, RelevO, El humo, Ombligo e Zunái. Suas traduções saíram nas revistas Saúva e Qorpus. Acredita em fantasmas e desconfia dos vivos. Enxerga muito bem, mas às vezes fecha os olhos. Não tem o coração de pedra. Escreve assiduamente em seu blog.

Blog da autora

ritepramim.blogspot.com

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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