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Do livro desfeito e outras descontinuidades

Coletânea de poemas de Fabíola Weykamp

XVIII

tudo em volta
tem cheiro de espera
aquele cinzeiro
vidro verde
da minha memória
aindaguarda as cinzas
de cigarro da tua volta
tudo aqui imóvel e tu que não me chegas
nunca
a cama desfeita o cachecol preto e verde
sem pescoço frio para aquecer
a loção pós-barba que não me lembro do nome
o cigarro amarelado morrendo
na ponta da pia do banheiro
evocando o contorno da tua mandíbula gasta
de tanto ranger os dentes ao me chamar de mimosa
a mandíbula cercada por pretos pelos
delicados da tua genética afro-alemã-judia
conflituosa na memória da minha guerra perdida
o chiclete de hortelã para disfarçar
o vício da ponta dos teus dedos amarelados
a cicatriz da tua nuca nua
a panela de arroz caída na cozinha
da minha avó negra que não conheci
e o som da queda re/luzia sempre
no silêncio da tua narrativa assoviada
e eu não me lembro sequer da cor das tuas angústias
tão vivas no movimento de pressa das tuas narinas
ao encher de ar o pulmão em pedaços
na tentativa de que a vida não se acabasse
ali não antes sem nem um cigarro aceso entre
os dedos tão gelados e agora já tão sem cor alguma
a fumaça anfitriã de toda espera
no corredor da maternidade
nas noites frias no campo coturno e cansaço
a fumaça anfitriã do que não se pode poupar
o acesso venoso frouxo diante a tua resistência
o excesso de vida que faltava viver
o excesso de felicidade o excesso de dor
o acesso à porta que daqui não vejo
não sei o que tem atrás
não entendo porque a minha chave não gira
o meu grito mudo ninguém responde nem zombam
da minha fraqueza
a minha revolta congelada naquele corredor
tão pálido quanto eu na hora em que
a porta se fechou a minha frente
e quem dizia alguma coisa
e quem estava ali
cada uma sozinha no espaço imenso
do vazio da tua presença
aquela coisa que cerra a garganta
cerra o punho
cerra a janela a cortina
ninguém mais sai
até quando tudo isso ainda fica?

* * *

XXI

ainda outono no sul
do brasil oito graus
eu sem chá em casa
só lágrimas cobrindo
a cama prenuncio de um
longo e úmido inverno
no caixa do supermercado
os olhos já roxos
de tanto chorar inchados
a cara destruída do belfort
depois de perder o cinturão
o rapaz no caixa olho esbugalhado
a pergunta cotidiana
precisa de mais alguma coisa, senhora?
o choro compulsivo derramado
sobre o chá de camomila
melissa e erva doce
bastou para entender que eu precisa
que o que eu queria estava
há três horas rodadas no asfalto
quente de distância dos meus braços
entregues à sorte desse amor
atirado num colchão-de-casal novinho
coberto por articulações sinapses
abalos sísmicos e espectrogramas
da fonologia que tanto nos costurou
o amor longitudinal e bordado
que ainda temos
mas que, alofonicamente, avisa que os tempos são outros
eu cá cacofônica sibilando na corda bamba
da tua ausência empírica
assume ou some, gerativista!
e sumiu

* * *

XXVI

ligo a televisão
única companhia
nessa casa muda
família passando manteiga
no pão comercial
das ilusões monocromáticas
da minha dor estanque
entre a cama e o não

* * *

XXI

de repente
significar não
significa nada mesmo

e a vida é tocada
feito vento
que uma hora cessa

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Fabíola Weykamp

Segundo o poeta Marcelo Martins, Fabíola Weykamp é poeta, faz telepatia com cães (Otto e, agora Tom Jobim confirmam o fato) e é devota de Leminski. Em sonho, seus poemas são cantados por Gal Costa. Mestranda em Literatura Comparada pela UFPel, tem publicado o livro de poemas Resenhas da solidão -- um livro de poesia e dor cotidiana (Belém: Editora LiteraCidade, 2015).

Site da autora

www.versodigital.blogspot.com.br

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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