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Pequena amostra definitiva de "A infância dos dias"

Conto de Laís Barros Martins

Sete
Mandaram plantar cedo demais a menina a ver se germinava. Iam observar aos domingos se lhe cresciam flores e se era bem visitada na companhia de colibris, de canto macio e insistente.

Encomendaram um caixote que lhe coubesse o corpo bem acomodado. A sete palmos do rés do chão escavaram o buraco que a receberia para sempre longe dos olhos do mundo, em silêncio.

A cerimônia roubou lágrimas até de quem não tinha costume; a família preferiu que fossem notas de uma canção a ser tocada nos dias de saudade extrema, como que para amenizar a queda vertiginosa de se perder o prumo. Lágrimas transformadas em sons de cores combinadas entre si em harmonia.

A missa de sétimo dia relembrou o trágico dos acontecimentos, mas trouxe à memória recente dos presentes também aquelas recordações que faziam questão de manter – o amarelo eleito e recém-declarado preferido, a vontade do que ser quando crescer, o paquera da hora do recreio, o segredo compartilhado: quisera ter sete vidas, como os gatos. Talvez assim...

Frases que já seriam incompletas de nascença, natimortas.

Morrera na noite do dia anterior. Pena, seu número da sorte era o treze.
 

* * *

Diagnóstico
Nasceu com o coração machucado. O berço foi fixado numa daquelas unidades públicas de saúde, onde as filas sinalizam a angústia esperançada de atendimento. Ali, conhecera a dor precocemente, irreversível.

As enfermeiras lhe chamavam pelo nome nas visitas e se revezavam em seus turnos, deixando-a sempre no mesmo lugar, embaixo da janela de onde conhecia o mundo e recebia a luz do sol pelas manhãs.

Contou dois aniversários até receber a notícia de que estava liberada a ir conhecer o quarto que lhe esperava cheio de detalhes cor-de-rosa, e o que mais quisesse, que agora era permitido.

Era cuidada de qualquer sobressalto que lhe pudesse disparar o órgão doente, nada de emoções que fugissem do controle.

Se perdemos o cérebro, ficamos sem a imaginação. Sem o coração, perdemos a capacidade de amar, e de ser amado em correspondência.
 

* * *

Xícara de chá, xícara de café
Sobre as dessemelhanças e dissimilaridades de seres iguais. Porque a gente se destaca justamente por aquilo que temos de único, de diferente. As gentes todas vivem o impasse de se distinguir ao mesmo tempo que buscam pela homogeneização, coisa estranha das contradições onde cabem os opostos e complementares.

Que até gêmeos idênticos têm as suas diferenças. Nada de mindinhos laçados ou a telepatia sincronizada da afinidade, João e José apareciam de costas dadas já nas radiografias do útero durante a gravidez e mantiveram a mesma postura ao longo dos dias que a vida traria. Discordavam no jogo e no amor. Viviam de provocações e censuras. Se maltratavam. A torto e a direito se maltratavam.

Não se sabe ao certo se a discordância resultava de tanta semelhança, de terem assim a cara e o focinho um do outro; o branco dos olhos mais que iguais. Teimavam em discordar, como uma atividade que fosse enfim resultar em menos parecença. Um tão ensimesmado do outro. Ainda assim em nada coincidiam, antônimos que eram.

As comparações, inevitáveis. O espelho dos olhos dos outros que os perseguiam sem descanso. Julgamentos com pareceres breves e determinantes. Uma azucrinação. O de dentro deles dizia impondo a individualidade que era tão de João mas tão de José também. O que seria do verde se todos gostassem do azul. Que existe diferença tanta até para as xícaras de chá, e as de café.

Nada definitivo. Nada igual. Nada idêntico, por favor. A única bandeira que levantaram em comunhão trazia exposta que cada coração era uma sentença, que em nada se assemelhava a não ser em relação ao ponto final.
 

* * *

Ser do tamanho que se pode
Hoje quando despertei, achei que não estivesse esticada o bastante para os compromissos inadiáveis do dia. Estava diminuída. Não que voltasse a ser criança, impossível. Apenas uma inapropriação incomum do tamanho, questão de encaixe, mal jeito incomodado, desajeitado. Da condição de estar diminuída.

Insisti e fui pra rua, medida da opressão que o mundo usa pra nos ter sob controle – sempre me admira o tanto que somos, ocupando as ruas batizadas pelos homens e exercendo o direito garantido por lei de ir e vir.
Encontrei outros apequenados, apesar da graça. Eram do tamanho que podiam ser.

Os grandes não dava pra ver da altura do seu tamanho todo. Além do que eu estava demasiado encolhida.

Como eu, ninguém. Diminuída, diminuindo.

Dobrei a esquina e sumi.

Sem deixar vestígio.

Se perguntarem por mim, diga que me encontrei. E fui, do tamanho que pude.

 

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Laís Barros Martins

Resultado de trocas e dada às coisas (extra)ordinárias, sigo conjugando verbos, colecionando adjetivos e valorizando os plurais, em forma e conteúdo. Escrevo porque as palavras são potência, que se transformam em história na cadência do pensamento e do sentir. Jornalista de formação e especialista em mídia, informação e cultura, colaboro com textos para publicações diversas da imprensa nacional e invento outros, por prazer. Com algumas memórias combinadas a traços ficcionais, ‘A infância dos dias’ é um projeto de livro que traz histórias sutis e episódios breves a partir de situações cotidianas com a pretensão de resgatar e conservar a porção de infância que existe em cada um de nós.

Site da autora

www.behance.net/laisbarrosmartins

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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