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Uma paixão perdida em tempo irregular

Poema avulso de Luíza Galvão

Nas desencontranças da vida

nunca nos achamos num abraço

 

Nos perdemos, perdidos

 

Na roda gigante do parque

quando eu entrava

saías

 

No bonde de Santa Tereza

quando eu saltava

partias

 

Na festa da prima Berenice

quando eu dançava

fugias

 

Fumavas,

Silenciavas.

Um silêncio de vozes

que, como algozes,

ecoavam em mim

 

Eu

que tenho olhos recessivos

Escondia uma alma

pouco religiosa

de genes dominantes

 

Fui na Igreja

Não soube rezar

 

Fui no Cassino

Dei azar

 

Fui no cinema ver Jules & Jim.

 

Depois no bar.

 

Na rua da República,

andei por entre as lojas.

Procurava,

tímida,

nas vitrines,

um sentido da vida

azul marinho, número 36

 

_ Posso ajudar?

_ Ah, obrigada.

Estava aqui... dando uma olhada...

Posso experimentar?

_Fique à vontade.

 

Tentei.

Tentei.

Tentei ficar à vontade.

 

Não é que eu não quisesse.

É que

de repente

o sentido da vida não me cabia mais.

 

Passei na livraria Prefácio

(Encontrei seu Manel

do caldo de cana, antes)

Vi um livro vermelho

De um tal Jean-Paul.

Francês;

Filósofo;

Recusou o prêmio Nobel em 1964, dizia.

 

Me pareceu autêntico recusar

o que quer que fosse

naquele ano.

Abri o livro.

Descobri que <<o inferno são os outros>>

mas não entendi muito bem

o que aquilo queria dizer

 

Caminhei até a rua Quiririm

Te vi.

Será que o sentido da vida

ca-be

ne-le

ou fica também frouxo?

Pensei, absorta

 

Percebi que compravas um relógio

para melhor medir o tempo

 

Para

Medir

Melhor

O tempo.

 

Eu meço.

Tu medes.

O verbo

é irregular.

Seria regular

o tempo?

 

Relógio em pulso,

saíste da loja,

viraste à direita.

 

Pensei que seria prudente

comprar um relógio,

igualmente.

Mas ao atravessar a rua,

notei um antiquário

de porta fluorescente.

 

Eles não vendiam relógio.

Nem sentido da vida.

Me ofereceram um mapa, entretanto.

Custava apenas 5 francos de réis

 

À porta da loja,

estudei o mapa por alguns minutos.

Ou dias, anos.

Não saberia dizer.

Eu não podia contar o tempo.

 

Virei à esquerda.

 

E nunca mais nos esbarramos

no mesmo espaço-tempo.

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Luíza Galvão

Luíza Galvão, nascida no Rio de Janeiro, carrega um coração belorizontino. Comunicóloga pela Escola de Comunicação da UFRJ e mestranda no Departamento de Ciência Política da UFMG, gosta de brincar de quebra-cabeça com palavras e de fotografar os dissabores e as alegrias de ser humano nos olhos de desconhecidos. Viaja para longe, de quando em vez, para se sentir em casa. E também para experienciar a possibilidade de diferentes eus dentro de si. Dessas experiências, nascem estórias. Crônicas, roteiros e poemas.

Contato: luizagalvao @ gmail.com (sem espaços)

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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