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Arrocha

Conto de Michele Santos

Era no arrocha do centrão que se tomava a cerveja da sexta. Quem ia de linha vermelha seguia arriba, quem cambava de ônibus ladeira abaixo. Ali entre o Anhangabaú e o Terminal Bandeira e o cheiro de mijo malcheirando o ar. Feito válvulas paralelas de irrigação sanguínea, o bar com música ao vivo agia coração dentro da gente. A sensação do trabalho feito, da semana cheia, da promessa imaginada: a dupla de dias a seguir pra fazer o que se quisesse batia sincopada com o telen-gue-ten do tecladinho. Eu ia mais porque as meninas faziam questão, e tinha sempre uma de dengo novo com alguém da firma daí acompanhava. Mas fazia questão de estar sempre direita. Ali era meio terra de ninguém tinha os doidos da rua os esqueléticos de pedra a língua obtusa dos africanos pretos retintos bonitos caras quadradas talhadas a deus. Bolivianos também faziam presença mas me lembravam o Chaves do esse-bê-tê, achava engraçado.

            Mas teve um dia que eu tava era muito puta, doida da vida, coisa assim de ferir alguém a corte se me dessem navalha e motivo. Que o patrão achou uma contagem minha errada, mas não era não, filhadaputa enchia o rabo de pinga e foi sobrar pra mim, que era a única que não dava mole e não recebia os gracejos sem graça com candura feito as meninas da linha de produção na fábrica de costura. Era bom, cansativo mas automático, e às vezes a gente ganhava umas peças erradas e era tudo de marca, pouca coisa eu usava mas dava pra vender tudo no brechó da Nena no Jardim Marilda. Urubuzou em mim, depois uns papos ruins, umas coisas de ameaça, e ele ah ele bem sabe o duro que dou pra cuidar de mãe depois que teve que amputar diabética coitada um sofrimento só, só eu pra cuidar olhar quem por ela senão euzinha? Os irmãos vadiando cada um num cu de mundo diferente com uma tropa de mulher e filho, tão enrolados que mãe já tinha virado acessório. E mulher se não casa e não embucha destino é isso, não arranjou quem cuidar vai cuidar de quem ficou. Esse dia teve um medo diverso, medo novo, nunca antes. Que antes: tinha o Antunes mas depois que ele foi embora jamais outro. Mulher mais nova, diaba, parece até rito de passagem, então quantas não ouço o mesmo discurso? De passagem comprada pro inferno agarrrei no trabalho, cão no osso.

            Sozinha, eu mais mãezinha. Que dorme muito por conta dos remédios, quando acordada de pouca fala, olhinho grudado na tevê

            ser sozinho é justificar a existência de deus num domingo.

            De então a vida é muito mesma, acordar, cozer, alinhavar, voltar, cuidar, acordar, cozer, alinhavar...acho que tem vida que não é feita pra ser como as outras, desejosa de sonho etc. Tem vida que é só ir indo, aposto uma onça que tem um bando igual de desinfelizes assim. Diz-que é deus que traça as linhas. Outros culpam astrologia karma quebranto a gente sempre caça uma culpa nova e diferente pro que não tem resposta a respeito da felicidade nossa.

            Nesse dia digo noite foi quando quebrei a seriedade dos meus compromissos.

            Pela primeira vez entrei na roda da tequila que era a tradição das meninas pra começar – elas diziam – “os trabalhos”. Tudo batizado ali aqueles gorós – e eu dei conta? Quentura a fogo subindo à cara, à boca, pairando quente na xota vontade de mais shots, xotes. Fui seguindo a roda etílica, musicada, que mal fazia se todas meninas findavam bem, encontravam pareia, riam-se corpo inteiro, suadas, gostosas – e não por quê?

            De puta da vida que lá entrei assim fiquei. Ninguém acreditava eu aceitando dança com estranho, olha a Das Dores, onde já se viu? Dancei negão, paraíba, azedume de olho verde, até Rita secretária que não era coisa pouca.

            Então

                        das vontades que se dá com muita cerveja no corpo é banheiro. Foi quando levantando a saia pra me aliviar encarei espelhada a mulher de quarenta e um anos RG amarelado CPF em dia  título de eleitor no oquei sutiã vermelho o peito já saltando afora do bojo. Maria das Dores completa a vontade do seio, estende o bico e se mama de leve. De há cinco anos que Antunes se fora jamais nunca antes ninguém. Se lambe vergonhosa os cantos suarentos de dança. Se coloca mãos ao corpo vaivém, corpo esse, qual? Já nem lembrava como. No reflexo deliroso a rosa rósea, abrindo leve com os dedos para recordar quem. Era ela ainda. Era linda. Entrededos a descoberta gemido abafado o coro comendo lá fora no arrocha foda-se                     

 

...........................!

                                                                                   direita, aqui nesse antro mas direita. Não com qualquer um, viu, sozinha mas comigo. Lavou o rosto, endireitou a alça do vestido e desceu caminho Terminal Bandeira 6913-10 Jardim Varginha. Não sem antes cumprimentar a todos

 

pegar o telefone do haitiano Lucien, me liga amor

 

eles dizem amor pra qualquer uma. Não sou dessas

                                                                                  acho,

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Michele Santos

Michele Santos nasceu de inverno na metrópole paulistana e vive a buscar primaveras nos entremeios do cinza. Escritora, educadora nas redes públicas municipal e estadual de ensino de São Paulo e integrante do Movimento Cultural Sobrenome Liberdade, na região do Grajaú/SP, faz do alumbramento com a palavra matéria para a lida e para a vida. Mais escreve que fala. Mais enxerga que vê. Menos guarda que diz. Já foi publicada nas antologias Antes de ser um manifesto (publicação independente), Poesia na Faixa (Edições Tietê), e nas revistas Transvista e Gente de Palavra. “Toda via,” é seu primeiro livro. Independente, publicado à base de valentia, excertos de uma poupança alguma e febres. Muitas.

Página da autora

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Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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