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Conto de Nathalie Lourenço

Que o diabo me perdoe, porque deus não há de perdoar não.

Parece que antigamente, todo mundo tomava banho sozinho. Foi em 2018 que acabou de vez a água. Pai dizia que quando eu era pequeno os riachos se dividiam em um milhão e vinham pingar direto na casa da gente, que era só girar uma roda de ferro na parede para fazer funcionar uma cachoeirinha dentro de casa. Pensando assim a gente logo adivinha porque a água acabou. Um país inteiro de cachoeirinha ligada. Tenho raiva do mar. Aquela água tanta e eu sem poder levar uma gota pra Dulce. Água tão grande que parece viva, indo e vindo, zombando debaixo do nariz da gente.

Meu posto do SUH fica a duas ruas da praia. A placa diz: Sistema Único de Higiene - Governo Federal. Meu dia de banho é na quarta, CPF de final 4 e 5. A fila cheira forte, e sigo até o fim quase sem olhar, encontrando com as narinas o lugar que ela termina, lá depois do quarteirão dobrar. A fila vai escoando rápido, são vinte pessoas em cada banho. Tiro o sabão do bolso, guardado dentro de um papel de pão. A fila racha no meio, mulher pra esquerda, homem pra direita, cada um pra um vestiário grande e branco, onde um funcionário distribui elásticos com chaves mirradas, pra guardar as coisas, roupas, sapatos nuns armarinhos sardentos de ferro. Num repente tá todo mundo pelado. Cheiro de homem pelado é a pior coisa que tem. Me agarro ao sabonete com os olhos no chão, o diabo me livre olhar pra bunda de alguém. Muita briga de faca na saída do banho. Diabo me livre olhar pra bunda de alguém. A salinha do banho é branca, com um chão que é um grande de um bueiro. Vinte bocas se abrem esperando a água cair. Não faz sentido desperdiçar. Chove por trinta segundos e para. O esfrega-esfrega dos sabonetes faz gotejar uma espuma cinza. Uns esfregam as lascas do sabão na cabeça - isso quem tem cabelos. A maioria prefere não ter. Chove mais trinta segundos, as pessoas saem de outra cor. Visto a roupa limpa que Dulce preparou e até me sinto uma pessoa.

Na saída, eles deixam a gente encher uma garrafa de 250 ml, que eu atarracho com força, sem beber nenhum gole. É pra Dulce. Dulce cria pepitas nos rins. Pedras que, daquele tamanhinho, doemdoem pra nascer, feito criança. O doutor receitou água, que a água desfaz a pedra como naquele ditado lá. Toda semana, dou pra ela a garrafinha do SUH, todo dia um gole do meu próprio cantil. É pouco. Mas se hoje o diabo ajudar, não vai faltar mais não. Ela não nasceu pra essa vida tão dura. Acho que é por isso que o corpo dela quer cuspir tanta pedra. 

Penteio o cabelo com o pente de plástico, coloco a garrafa bem justa no fundo da mochila, e mesmo depois, fico olhando o povaréu passar, cabelo mole de água e olhar de quem desnublou. Sei que Cosmo está me esperando ali fora, mascando chiclé, lambendo com o olho as meninas que passam. E vou.

Ele me recebe com o abraço violento de quem se conhece de pequeno, porque a amizade quando é grande faz doer.Um homem maciço e escuro como madeira oleada, a jaqueta de couro cru  avisando o mundo, que nem os animais de veneno que se denunciam em vermelho e negro: esse aqui é jagunço do Bala Cega. No boteco, pede dois cafés e dois bolos de macaxera sem perguntar se eu quero, pra não perigar de eu dizer que não. O moleque no balcão recusa a nota amassada que Cosmo agita na direção dele. Jagunço é profissional de respeito.  Cosmo  vira a média num gole só, quente-pelando, antes de desdobrar uma folha de papel holográfico, coisa de última geração. Sei quantas parcelas aquele quadradinho de tecnologia custa. Também sei que Cosmo não pagou nenhuma. Com dois toques rápidos o cinza morto se acende, mais dois toques fazem crescer uma imagem de satélite de Salvador.

-          É fácil facinho. A gente sai os dois na moto, daqui ó. Rabeando o caminhão-pipa. O João Qualquer vai botar o carro atravessado no viaduto aqui, com mais 7 caras. E, na hora que o caminhão parar, pou!, a gente sai com o ferro na mão, um de cada lado, você sobe, pega o volante e sai a milhão.

-          Eita, mas e se homem acelera na gente?

-          Motorista não é bobo não. Se fugir a gente manda balaço na pipa, perde a água e o emprego, pode até cair do viaduto. Mas ó, nas outras vezes os motoristas foram tudo cordeirinho.

Na rua atrás do bar, Cosmo meteu o braço na mochila até o cotovelo e tirou duas pistolas pesadas, tão diferentes do que eu usava nos tempos de segurança no estacionamento. Mas o gatilho é aqui, a bala sai ali, e quando sai não volta - e isso é tudo que eu tenho que saber. Diabo queira que eu não precise usar, sujar de sangue essa alma que eu lavei justo hoje.

* * *

Cosmo cresceu quase um metro, deixou a barba crescer, tatuou duas cobras, um gavião, uma bala, trocou o jeito de andar pelo deslizar vagaroso de quem esqueceu como se sente o medo. Mas a risada continua a risada do Cosmo-menino, mostrando os dentes e a gengiva, alto cada vez mais até escapar um grunhido de porquinho no final. Antes de jagunço do Bala-Cega ele era o menino da casa da frente, matador em bater figurinha, mas cagão que só na hora trepar em árvore e subir em telhado. Era eu quem tinha que defender o negrinho magrelo da molecada que vivia querendo botar Cosmo pra pular de lajes. Foi ele quem descobriu no leito seco do rio o lugar perfeito para se esconder com os primeiros cigarros e as primeiras meninas.  

Quando a tatuagem de bala se desenhou no antebraço, Cosmo começou a aparecer em casa com rações extras de água. Escorregava pro meu bolso saquinhos de 100ml, negava o dinheiro que eu tentava dar, ou aceitava notas que voltavam a aparecer em casa, dentro de bolsos de casaco, enfiadas na caixa de correio, nos porta miudezas de Dulce. Dava a risada de porquinho e sumia. Estranhos paravam em esquinas para deixar a grana suada nas mãos do meu camarada. 100 ml viraram 500ml. Viraram um litro. Viraram cinco. Cosmo subia na carreira, enchia os dedos de anéis, comprou uma moto bonita, os cromos todos brilhantes, um personal-drone com comando de voz. Mas não esquecia da vizinhança, e uma vez chegou com uma bombona de vinte litros, gritando em todos os portões da rua.Tinha que ver a alegria do povo voltando pra casa, garrafas, bacias e panelas cheias até a boca.

Mesmo com a água de Cosmo, Dulce continuava a produzir pepitas da cor de giz, cada vez maiores, cada vez mais sangue pra sair. O estacionamento foi comprado por uma imobiliária e fechou. Ninguém quis contratar um imprestável feito eu. Mas o diabo sabe o que faz, e um jagunço que se engraçou com a mulher do Bala-Cega foi encontrado enterrado até o pescoço na poeira do leito do rio.  Cinquenta litros, Cosmo garantiu. Apontar a arma, render o motorista, dirigir o caminhão até o galpão do Bala-Cega. Pronto. Cinquenta litros para mim, para Dulce. Água mole em pedra dura. 

* * *

A moto grunhe entre minhas pernas, um cavalo domado que ás vezes se lembra de quando era chucro. Cosmo vai zigue-zagueando pela rua quasequase vazia da madrugada, bota a gente na cola do caminhão-pipa.  A moto se inclina para um lado. O adesivo na traseira diz: Dirigido por mim, Guiado por Deus. Só os faróis dos carros iluminando em vermelho o viaduto.  A moto se inclina para o outro lado. Deus guia mal, o caminhão invade a faixa vizinha a cada curva que faz.  Deus esquece de ligar o pisca, e Cosmo periga passar reto quando o alvo vira uma esquina. E, quando dá de cara com o carro de João Qualquer atravessado no viaduto, mais sete jagunços com armas na mão, Deus freia em cima da hora, enchendo meu capacete com o cheiro de borracha queimada.

A moto cai sem vida depois que eu e Cosmo saltamos dela, mãos indo às costas buscar o gelado do ferro. O diabo que me perdoe. Circulamos o caminhão-pipa feito urubus. Um homem suado e magrinho nos olha de dentro da sua caixa de vidro, de dentro das suas olheiras fundas, de trás do novelo de fitas do Bonfim penduradas no retrovisor. O olho solitário da minha arma encara de volta, mais comprido, vazio. Uma linha imaginária nos amarra, um barbante de silêncio esticado do cano da pistola até o pára-brisas, cortando o mundo em metades. Sopapo e Gamela, dois jagunços do time do Qualquer, deram a volta para proteger a traseira. Cosmo dá tiros para cima, fala alto e manso para o motorista descer. Entregar o caminhão-pipa. Ver do topo do viaduto o amanhecer. Viver. A porta se abre devagarinho, o motorista salta ali do alto, a asma atropelando um pai nosso, mas acho que Deus ficou no carro. Ali que desandou. Cosmo metia a mão nos bolsos do magricelo, quando os tiros estouraram na noite, e o Sopapo e o Gamela rolaram no chão com palavrões gêmeos. O sangue uma água preta espelhando os faróis.

-          É polícia, é polícia! 

Me agacho no outro lado do caminhão, asfalto ralando joelho e mãos. Ouço o riso porquinho de Cosmo abafado, o motorista transformado em refém e escudo. O carro de polícia está todo apagado, um pedaço menos escuro de escuridão. Atiro naquela direção. Atrás de mim, disparos soam em bandos, em arrancos e param só para começar de novo.  Do lado de lá, uns poucos. O bando do Qualquer juntou os pontos. Apagaram os faróis, se transformaram em passos e sussurros, as vozes mudando de lugar sempresempre, um tiro. Outro. O trabalho estava feito. Uma mão enorme aperta meu braço, Vaivaivai, Cosmo largou o motorista corcoveando por ar nalgum pedaço de chão.  Limpou as mãos na calça antes de trepar no caminhão-pipa, um degrau, mais outro, alto que só. Um barulho molhado, pulmão chiando tão perto, o motorista de arma na mão, o pipoco dos tiros abafando a asma, o engasgo do corpo de Cosme despencado, prensando o motorista no chão. A pistola era eu, a bala um dedo fundo no olho do homem que, eu sabia, tinha saído pra trabalhar naquela tarde, dado um beijo na mulher, tomado seus 250 ml devagar durante o dia, pra durar, talvez um dedo de água ainda no caminhão. Podia morrer mais mil vezes. Cosmo não pediu outra bala, deixou o sangue lavar o viaduto, o coração bombeando tudo pra fora. Tentei fazer ele levantar, mas ele olhou pra minha fuça como se eu fosse doido.

-         Damião, porra. Leva a tua água.

E riu porquinho com sangue nos dentes, até não rir nunca mais. O caminhão se levou sozinho, como se soubesse o caminho do galpão desde sempre, as duas motos e o carro do Qualquer enxameando atrás. Um oceano rugindo na pipa, suficiente pra beber por meses, suficiente pra se afogar dentro. Bala-cega veio apertar minha mão, deixou o vermelho tingir a dele também. A luz branca maltratou meu olho, fez saltar a sujeira marrom coagulada, endurecida na muda de roupa que a Dulce preparou. Era um homem gordo e castanho, do tamanho do mundo. Ele acendeu um cigarro enquanto um dos meninos novinhos enchia o primeiro galão do meu pagamento. Estendeu o cigarro aceso para mim. Elogiou meu bom trabalho.

            Faltava pouco para o amanhecer quando os capangas do Bala-cega me devolveram para o meu quintal, com os dois galões de água, grandes e largos feito geladeiras. O meu e o de Cosmo. Fiz carinho no redondo da tampa. Abri. A água era transparente que nem vidro, dava pra ver até o fundo. Limpa-limpa. Água que nem essa poderia lavar todas as coisas. Os primeiros passarinhos começaram a cantar. Dulce ia se levantar bem logo. Me inclinei pra frente e lavei minhas mãos.

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Nathalie Lourenço

Nathalie Lourenço é paulista e paulistana desde 1984. Trabalha como redatora publicitária e já publicou em revistas como Flaubert, Vacatussa e Blecaute, entre outras. Publica, ainda que raramente, em seu blog Sabedoria de improviso.

   

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