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Conto de Natalia Timerman

A gente tava no cruzamento. Eu, Milin, o Zé, o Jão. A Caiane tava no carro, era a vez dela. A gente juntado, esperando, os mano olhando aqui, olhando lá. Contando, né, enquanto a nossa vez num chega. Ela abaixada, o corpo naquele jeito, todo abaixado, sabe?, igual a gente faz toda vez. Ela ia pedir, era o jeito de pedir, a gente vai aprendendo sem ninguém nem dizer, assim, os mano se olha, já sabe sem precisar dizer o que é que vai ser, a Caiane lá, as costa mexendo, ela falando, o vidro aberto, pá, e de repente a coisa vira, nóis tudo se ligou na hora, menos o Jão, eu vi primeiro o braço dela assim parado, o braço como se tivesse olho e tivesse olhando pra dentro do carro quanto ela fazia as firula e distraía, e o braço como uma cobra que vai dar o bote, a gente da quebrada acostuma a saber, um olho aberto, pá, aquele blábláblá, na confiança os mano sabe de costas só de olhar a cara do outro mano, só um olhando já passa na cara os sinal sem precisar dizer, o Milin era como se fizesse o que o braço dela fazia, que ele tava de boa, falando, normal, pá, aí de repente ele ficou duro, parou as mão, nóis tudo silenciou menos o Jão, aquele silêncio e o Jão normal, panacão, vê só, aí aquela correria, pá, pá, a Caiane disparada a mulher gritando as buzina tudo insana e nóis no corre, ela é mina mas é mais macho que o Jão e que um monte de mano aí que ninguém sabia que ia ser arranco, só o Milin, o Milin se ligou antes pelo braço e disparou logo atrás dela e nóis tudo em fila e ventando dali e se espalhando pelas travessa e o coração martelando, pum, pum, pum, os mano só na passada, adrenalina, pá, aquele corre, ninguém nem olha pra trás que é perca de tempo, nem dei tempo de pensar no Jão, sei lá se ele ficou, mano, a fita é no corre, se fica pra ajudar o mano nóis se fode junto, as regra da rua já diz, eu correndo acho que até pensei no Jão mas ouvi as sirene que nem era pra nóis mas dá giro igual, nóis é acostumado a assustar, o susto sempre tá pronto inda mais naquele corre e quando eu cheguei na toca, que era aquele coberto do banco que depois que escurece é lá que nóis se encontra, já tava lá o Milin e a Caiane, os dois respirando, pá, mano, nóis respira e alivia de tá vivo, o Milin já tava de boa quando chegou o Zé, cadê o Jão, e todos mano já respirando de boa e nada do Jão, caraio, que fita, cadê o Jão, e o Zé olhou pra Caiane já pronto pra dizer que a culpa era dela, que nóis tava tudo de boa e ela foi inventar de arrancar o colar da dona, ele num disse nada mas eu sabia que era isso que ele ia dizer, mas a Caiane também num disse nada e abriu aquele zoião dela junto com o ombro que aumentou, assim, pá, na fita, ninguém nem se atreveu, tudo quietinho esperando o Jão, a gente de boa mas a tensão no ar, o Milin pitando, a Caiane só no zóião com a mão no bolso palpando o metal, eu pedi pito e nóis tinha que esperar, aquela hora é a pior, um mano some e nóis num tem que fazer nada, só esperar, podia ser eu, podia ser qualquer um, o Jão é mais lerdo mas as coisa acontece e nóis num tem como saber, podia ser eu, cada um pensava na tensão, e também no Jão sem nem querer imaginar o mano no enquadre, pá, no bonde, véi, que fita, mano, sai pra lá, aí eu pedi pito também e o Milin foi que deu a idéia dum mano contar uma história cabeluda de um corre fudido pra ver se o tempo corria igual nóis corre, né, nóis uma vez tinha feito isso e depois de um tempo o Jão chegou, vai ver que era pra dar sorte, se pá, contar o corre pra ver se o Jão chegava igual de novo, dessa vez ia ser o Zé, o Milin mandou, nóis pitando tudo já, o Milin e a Caiane encostado na quebrada com a vista na rua, eu e o Zé meio de frente, meio de lado, de trás é pedir pra dar merda, né, mano, igual com o Jão, eu nunca ia imaginar a história doida que o Zé ia contar, mas aí o Zé parou, pá, soltou a fumaça, pá, e começou.

            Foi uma vez que eu tava na viela do Macaco, eu e uns mano, faz uma cara já, cêis num era da quebrada inda não, o Zé disse e ele era o mais velho de quebrada mesmo, ninguém disse nada, ele deu prosseguimento, nóis tudo na tensão. Nóis tinha chegado de um corre dos bom, carregado, tinha ido tudo junto na fita, o Fiú tinha até uma calibre com ele, tudo bolso cheio, pá, os fiapo, tudo no respiro contando as nota e os aparelho, mó fita, véio, um, dois, pá, nóis naquele estado que parecia que tudo tinha pipado e num era nada não, era só a brisa do corre e das nota mesmo, os malandro na moral, pensando já o destino das nota tudo, ia ser noite da boa, véio, quando começou uns berro, uma mina gritando só os nervo, mano, mas dum jeito que cêis num sabe, tinha pavor de sirene nos grito, era desespero, mano, e nóis tudo parou e ficou de boa parado esperando passar e começou longe e invés de passar aumentava e ia chegando perto, igual sirene que a gente escuta de longe e vai ficando alta e a mina parecia que foi chegando, os grito aumentando, parecia pneu de polícia cantando os berro dela, e nóis se olhou e ficou sem saber se corria, porra, que fita, nóis tava tudo de boa só na curtição da adrenalina e ia chegar essa mina só pra apavorar, aí começou a dar pra escutar as palavra que ela dizia, e era tipo maldito labirinto quebrado espelho e coisa e tal, era coisa com coisa mas arrepiava que era do mal, a mina gritando, nóis olhando cara a cara, se fosse polícia nóis sabia que corria, mas uma mina gritando coisa com coisa no desespero, no geral, nóis ficou besta, na moral, parado, até que os grito aumentando e ela apereceu dobrando a esquina, véio, parecia fantasma, que ela era parecia princesa e coaqueles grito medonho, num dava pra juntar as coisa, nóis que num tem medo tudo cagou nas calça coaquela mina linda, mano, madaminha, a mina no desespero gritando chorando e ela veio e colou em nóis, nóis ali, tudo petrificado, aquela quebrada num tinha visto mina mais gata, mano, cês num pode imaginar, só o cabelo preto liso meio bagunçado e a cara cos preto que o choro borrou no olho dela mas era daquelas que a gente só vê do lado de dentro dos carro e dos portão, ali assim e ninguém pra fazer nada até que ela chegou no Fiú e puxou o arapiraca da mão dele e fumou tudo até queimar os dedo igual nóis e nóis sem entender porra nenhuma, uma fita virada, a mina fumando com nóis e dizendo que o céu e o cavalo e o caralho a quatro, aí ela começou a pedir que a gente rancasse as coisa dela, juro, mano, de boa, era fantasma, a mina, se fosse de outro jeito nóis tudo tentava pegar e rancar tudo e as coisa e as roupa e nóis num era jack senão nóis tudo ia ter vontade de rancar as roupa dela e meter tudo nela, mas a mina gritando chorando daquele jeito e nóis paralisado e juro, mano, ela num tava chapada, era possuída que ela tava e berrando coaquela voz de sirene que o chão as cidade as mosca as vela as viela, as coisa loca tudo que ela falava tudo aquelas coisa com coisa e nóis na moral, sem querer se aproveitar da macumba dos outro, até que ela parou na frente do Fiú e lambeu a mão dela assim e passou no pescoço dele e pegou a mão dele e botou nos peito dela, juro que qualquer situação nóis se aproveitava mas e se fosse espírito maligno, mano, vai saber, o Fiú é macho e ele tirou o braço e nóis já tinha até quase esquecido as nota tudo e ela gritou mais e olhou pra ele fundo nozóio com uma cara que num tinha medo, cara de quem nunca tinha conhecido ter medo, e nóis tudo parece que tinha o medo que ela devia tá sentindo de nóis e num tava, porra, mano, nóis uns malandro da quebrada que veio tudo de corre já com passagem e pá e a minazinha na coragem da loucura, sem brisa, do avesso, a mina, e ela pegou, pá, e começou a rancar as roupa dela ali na nossa frente, nóis ia fazer o que?, nóis ficou sem saber e continuou tudo pedra, o Fiú já começando a gostar, o pau dele crescendo, ela rasgando a blusa os peito branco aparecendo e lambeu a mão e foi no cangote do Fiú e nóis num conseguia achar bom e tinha medo que se aparecia alguém da quebrada que num viu tudo do começo nóis de boa e pá ia achar que nóis era jack e quem é que ia acreditar na palavra de ladrão ou na da mina fantasma dos peito branco, ia acreditar tudo nela e depois nóis ranja problema cos malandro e cos palhaço, e agora a doida tava sem blusa e o Fiú já com pau duro que ele é homem, porra, a mina cos zóio vidrado aproximou e beijou e eu arrepiei era de medo, de que assombração era aquela que vinha agorá nosso corre dos bom, a noite ia ser de brisa mas a mina beijando e tirando a saia e pelada ali, a bunda, a buceta, e nóis tudo maluco e que se foda que ia dar de jack e os outro começou a palpar ela também tudo junto e ela deixava e gostava e nóis com medo e tudo duro e tudo adrenalina e o Fiú metendo nela e ela gemia gritando e falava as maluquice dela e tudo e nóis lambendo e pegando nos peito dela e ela deixando nóis tudo e gostando e depois cada um meteu o pau até gozar nela e ela abria as perna de pé e deixava e um segurava ela pela bunda enquanto o outro metia a pica e sei lá que caralho de tempo passou, e passava carro e nóis nem aí, mano, nóis tava num sonho, ou num pesadelo do avesso, sei lá, mano, comé que uma mina dessa chega assim na gente tudo da quebrada e faz um negócio desse e de repente grita de novo e sai e bota a saia e sai andando e vai colocando a blusa cos rasgo mesmo, véio, gritando que as formigas e os rios e o cacete que o único rio que a gente tinha visto era o tanto de porra que escorria agora pela perna daquela puta louca do caraio, e nóis num conseguiu se olhar, e nóis pegou toda a grana sem contar e foi direto pro beco que a gente ia era torrar tudo aquilo em pó em fumo em que porra tivesse lá que nóis precisava brisar e sair daquela realidade maluca toda e em silêncio nóis usou tanto tanto que depois nem sabia mais se tinha sido sonho ou não, a mina fantasma vaca linda.

            O Zé terminou e nóis ficou tudo em silêncio se olhando e pitando de novo e a Caiane com uma cara de num sei quê e nóis sem saber até que alguém perguntou cadê o Jão.

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Natalia Timerman

natalia timerman adiou por alguns anos o ofício de escrever para se fazer médica psiquiatra pela unifesp e mestre em psicologia pela usp. está recuperando o tempo longe das palavras e abrindo espaço para elas nos seus dias com o alívio de quem volta, enfim, a respirar. quer, além de continuar atendendo em seu consultório e no hospital penitenciário onde trabalha há quatro anos, escrever, ler e escrever. cursa agora a pós-graduação em formação de escritores do instituto vera cruz, e esta é sua primeira aparição no universo literário. deve continuar cultivando em são paulo, sua cidade natal, pelo menos pelos próximos anos, a antiga vontade de se fazer estrangeira: até que consiga um lugar onde caiba sua crescente biblioteca, é por aqui que vai ficando.

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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