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Cavalos marinhos

Conto de Paulliny Gualberto Tort

Ela não desconfiou que, antes do fim da tarde, levaria um tiro à queima-roupa. O rapaz ligou cedo, com a voz embargada, sempre aquela apatia, dizendo que precisavam conversar. Mas, Teodoro, eu não vou mudar de ideia. Eu sei, mesmo assim, preciso falar com você. Encontraram-se às quatro da tarde, no café Savana. Galáctica o avistou na última mesa, a mais escondida, cabisbaixo, uma xícara de café na frente, grudando no dedo os grãozinhos de açúcar caídos no pires. Carregava o semblante. Desde que haviam terminado, punha-se com aquela cara. Galáctica se irritou. Antes se enervava com a voz, com as carícias, com as coisas que Teodoro dizia. Agora bastava olhar para ele. Bastava imaginar. Quando se viram, ele esboçou um sorriso triste. Estava pálido. Isso ela notou, a palidez. Parecia de verdade. Mas não se demorou em examiná-lo. Pediu o cardápio à garçonete. Hum, tem sanduíche de filé mignon. E aí, Teodoro, vai querer o quê? Ele fez uma careta, meneou a cabeça. Não vou querer nada, não. Só uma água com gás, com bastante gelo. Eu não tenho me sentido bem, Galáctica. Se eu comer, boto tudo pra fora. E passou a mão na barriga, para mostrar onde precisamente se dava o desconforto. Ela revirou os olhos. Cê que sabe. Então, moça, me vê um sanduíche de filé mignon, uma coca e uma água com gás. Coca normal. Fechou o cardápio como quem dá um veredicto. Evitava olhar para Teodoro, que, a cada minuto, se mostrava mais amuado, mais chatinho, delicado. Ele quis saber como andavam as coisas depois da formatura. Bem, ela disse. Tô trabalhando numa produtora. Ela não queria saber como andavam as coisas para ele, mas se viu obrigada a perguntar. Arrependeu-se. As lágrimas correram como fios pelo rosto peludo de Teodoro, encharcaram o bigode, a barba, armaram bolsas na parte inferior dos olhos. Ai, que saco, cara! Toda vez é isso. Não sei por que você inventa esses encontros, se não sabe agir como adulto. Ele assoou o nariz no guardanapo de papel. Desculpa. Eu tento, mas é difícil. Sinto muito a sua falta, não consigo parar de pensar em você. Ela cruzou os braços e notou um cadarço de secreção que ficou pendurado entre a narina e o bigode dele. Sentiu nojo. Limpa aí, ó. Tá sujo. Mas ele já não se constrangia por nada.

A garçonete levou o lanche. Serviu a coca e a água com gás. E, para Galáctica, o sanduíche gorduroso, robusto, que gotejava um molho esbranquiçado. Quer? Ele fez com a cabeça que não. Calaram-se. O silêncio era delicioso. Vou comer e dar o fora, pensou ela. Teodoro assistia a refeição da ex. Atento à mão firme que segurava a lata de refrigerante, aos olhos cruéis, à boca que se abria para dilacerar o sanduíche. Gostava da cena, mas não podia suportar o cheiro. A carne de gado, de repente, tornara-se intragável para ele. O estômago revirou. Correu para o toalete. Auuah! Auuah! Cof-cof! Os sons que ele fazia ao vomitar reverberavam pelas paredes azulejadas do banheiro e alcançavam o salão do café, indisfarçáveis. As pessoas olhavam para Galáctica, talvez esperando que ela fizesse alguma coisa, que se mobilizasse e ajudasse o rapaz. Ai, mas que imbecil! Ela perdeu o apetite. Jogou metade do sanduíche de volta no prato e foi até o toalete para ver o que estava acontecendo. Teodoro molhava o rosto na pia quando ela entrou. Os lábios desbotados, as olheiras pronunciadas refletidas no espelho, o cabelo seboso. Melhorou? Acho que sim. Ele ficou parado, como se esperasse um abraço, um gesto de comiseração por parte dela. Galáctica, no entanto, mostrava-se ainda mais arredia. Escuta, Teodoro, isso tem que parar. Eu não quero mais ver você, não quero. Chega dessa chantagem emocional. Você não tá doente, isso é histeria. Sabe o que é histeria, Teodoro? Hein? Ele se aproximou, secando-se com uma folha de papel-toalha, e disparou. Não uma arma, mas a declaração que criaria o elo definitivo, que inventaria outra vida para ela: Eu tô esperando um filho seu, Galáctica. Você vai ser mamãe.  

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Paulliny Gualberto Tort

Paulliny Gualberto Tort nasceu em Brasília, é jornalista e mestre em Comunicação e Sociedade. Escreve desde que se entende por gente e, em 2008, ficou em oitavo lugar no IV Prêmio Maximiano Campos de Literatura, com o conto “O Dragão Invisível”. Em 2013, publicou um capítulo no livro “O verso vivo de Vinicius de Moraes: olhares sobre o mais amado”, em que abordou a relação do poetinha com a figura emblemática de são Francisco de Assis. Autora de artigos publicados em revistas científicas sobre Comunicação e Literatura, é integrante do grupo de pesquisa Topus e estuda a espacialidade na literatura contemporânea da América Latina.

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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