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Paradoxo: a circulação do dinheiro e a pulsação dos corações humanos

Não-ficção literária de Pérola de Souza

– Não se pode fazer omelete sem quebrar os ovos! – Declara o presidente do Conselho Regional de Engenharia Arquitetura e Agronomia do Pará (CREAA-PA), José Leitão de Almeida Viana.

– Uuuh! Uuuh! – A plateia vaia.

– É uma aberração! – Protesta o deputado estadual Edmilson Rodrigues (PSOL/PA) – Ela tenta se justificar como necessária para o crescimento do país, mas é insustentável!

– Eeee! Eeee! Muito bem! – Os espectadores aplaudem, aprovam. 

 

“Imagine nenhuma propriedade/Eu me pergunto se você consegue/
Nenhuma necessidade de ganância ou fome/Uma fraternidade de homens.”
– John Lenon

Belo: Que satisfaz cabalmente os nossos desejos ou prazeres.

Monte: A porção de bens móveis e imóveis que em um inventário cabe em partilha a cada herdeiro; quinhão, lote.

 

SETE DE ABRIL, 15 HORAS, AUDITÓRIO JOÃO BATISTA, Assembleia Legislativa do Pará. As pessoas se aglomeram nos corredores, não há cadeiras suficientes para todos. O potente ar condicionado não comporta a ansiedade dos presentes. O burburinho é alto.

“Isso não pode passar!”, “nós temos que fazer alguma coisa!”, esbravejam as pessoas. Ninguém entende ninguém, mas a maioria quer a mesma coisa. Em minha volta, crianças tropeçam, correm, choram: filhos de ribeirinhos. Eles não sabem por que estão ali, mas os pais sabem por que os levaram.

– Começa, começa! – Gritam as pessoas, impacientes.

O bebê chora. A mulher de cara pintada da tribo Kuruaya o conduz pra fora do salão. No olhar, a incerteza: como alimentar minha cria nos próximos anos? Mais a frente, dois degraus acima da massa, na bancada, homens engravatados discutem o futuro de ribeirinhos e povos indígenas. O futuro do estado. As autoridades convidadas se posicionam: estava na hora.

– Boa tarde, senhoras e senhores. – cumprimenta o mestre de cerimônia, Manoel Pioneiro. – Vamos dar início à audiência pública que trata das famílias ribeirinhas e povos indígenas que serão atingidas com a instalação da Usina de Belo Monte.

O salão silencia–se. As expectativas e os olhares se voltam.

 

“Provar que quem tem mais do que precisa ter/Quase sempre se convence que não tem o bastante.” – Legião Urbana.

Belo: Conjunto harmônico de certos caracteres ou qualidades que despertam na alma sentimento de prazer e admiração.

Monte: Jogo de azar em que o banqueiro coloca na mesa (tirando-as do baralho) quatro cartas para apontar umas contra as outras, ganhando os parceiros que apontarem nas que primeiro saírem.

 

– LEMBRO AOS PRESENTES QUE QUEIRAM FAZER USO DA PALAVRA, – continua o mestre de cerimônia – que se encaminhem à mesa e deixem seus nomes e os segmentos que representam, para serem chamados.

Entre a bancada de autoridades e as cadeiras destinadas ao público, há uma mesa. É de lá que se levanta a primeira pessoa que irá falar. O homem é alto e magro, e tem traços de um caboclo amazônico. Ele caminha agitado até um pequeno palco do lado direito da plenária e pega o microfone.

– O primeiro inscrito para fazer uso da palavra é o deputado estadual, Edmilson Rodrigues, do Partido Social e Liberdade (PSOL) – apresenta o mestre de cerimônia. O deputado se posiciona. Ele começa cumprimentando os presentes e falando de sua satisfação em:

– ...ver essa casa “socada” de pessoas comprometidas em discutir o desrespeito que é Belo Monte. A aberração que significa pra mim, Edmilson Rodrigues, a instalação dessa usina. – Ele gesticula, empolgado. – É um absurdo! Catorze etnias serão deslocadas da Volta Grande do Xingu para serem levadas sabe se lá para onde, tudo por conta de um projeto que vai trazer riquezas, não para a população, mas para empreiteiras!

A aceitação da plateia é visível, os aplausos são ensurdecedores. O discurso segue agradando a massa.

– Belo Monte é um desses projetos pensados na Ditadura Militar. Formalmente, ele serve para modernizar a Amazônia, e não deixa de ser um tipo de modernização. – Observa.  Um silêncio se faz sentir. Os presentes pareciam não compreender a mudança das palavras do parlamentar.

– Porém, – esclarece – é uma modernização que, por ser capitalista, está baseada exclusivamente no lucro! E por isso o projeto não considera os quatro pontos de vista: técnico, financeiro, – ele ergue dois dedos da mão esquerda – ambiental e social. – ele ergue dois dedos da mão direita. O público olha atentamente, aguardando a explicação.

– Do ponto de vista técnico: – o deputado exibe um dedo da mão esquerda. – O Dr. Célio Bermam, formado pelo Instituto de Energia Eletrotécnica da Universidade de São Paulo (USP), prova, cientificamente, que as hidrelétricas existentes hoje, se modernizadas e repotencializadas, poderiam produzir a mesma quantidade de energia que as hidrelétricas previstas pelo Governo Federal. Com isso, teríamos uma produção enorme de energia sem ter que produzir uma única barragem a mais, sem ter destruir um rio sequer.

– Do ponto de vista financeiro: – continua, e expõe outro dedo da mão esquerda. – O orçamento da última licitação, apresentado pelos empresários responsáveis, está em mais de trinta bilhões de Reais, vejam vocês! Isto é dinheiro nosso, é dinheiro meu, é dinheiro seu, é dinheiro arrecadado com o suor do povo brasileiro! – Exclama, aumentando o seu tom de voz e provocando o aplauso da plateia outra vez.

É, dinheiro tirado do bolso do trabalhador brasileiro, penso comigo mesma. Dinheiro que poderia ser usado para construir novas estradas. Dinheiro tirado de uma população que enfrenta o caos na saúde pública, dinheiro que, se melhor aplicado, contribuiria, decerto, na formação e educação de pequenos cidadãos de olhar inocente, que foram trazidos por seus pais para participar deste manifesto. O deputado continua:

– Do ponto de vista ambiental e social, – abaixando a mão esquerda, ele mostra dois dedos da mão direita – os danos serão muito sérios, serão irreversíveis! Pra vocês terem uma ideia, são 100 km da Volta Grande do Rio Xingu que serão ensecados porque o Governo precisa criar canais de concreto para desviar o rio!

– 100 km? – Interrompe uma voz na plenária, e todos se voltam para olhar. Era um estudante jovem, que fazia anotações em seu caderno. – Como assim?

– Isso significa irmos daqui deste espaço, até Mosqueiro e, ainda assim, faltaria mais 30 km para completarmos o percurso. – Explica o deputado, olhando para o rapaz. Mosqueiro é uma ilha que integra a Região Metropolitana de Belém. Cem quilômetros, penso, quase o equivalente, também, à distância entre a cidade de São Paulo e Campinas.

– Nessa região, – prossegue Edmilson – habitam povos ribeirinhos, povos indígenas! Eles morrerão de sede?! Não vão poder produzir o alimento deles?! Nem produzir alimento pra cidade?! Enfim, como é que eles vão sobreviver?!  - Ele arrebata o público. As pessoas aplaudem de pé. “Muito bem, muito bem!”, exclamam. – Belo Monte é uma aberração! É um crime do Estado brasileiro contra o povo brasileiro! E ela não pode passar! É fundamental a união de todos para barrarmos essa barragem! – Ele encerra seu discurso, ofegante.

A plateia parece hipnotizada por aquele homem engravatado que empunhava o microfone. Era como se em seus 20 minutos de discurso, ele tivesse dito tudo o que eles queriam falar, tudo o que precisavam ouvir.

 

“Que o que aconteceu ainda está por vir/E o futuro não é mais como era antigamente.” – Legião Urbana.

Belo: Que é perfeito para o fim a que se destina.

Monte: Sede de herdade formada por vários edifícios em torno de um pátio; designação por vezes atribuída à própria herdade.

 

16 HORAS. O PÚBLICO NÃO ARREDA PÉ. Parece interessado em debater sobre a Usina, preocupado com os possíveis impactos socioambientais que poderia causar aos ribeirinhos e às tribos Kuruaya, Arara, Xikrin e muitas outras.  Diversas autoridades ali presentes já haviam se posicionado, todas contrárias a possível instalação de Belo Monte. Até aquele momento.

– Passamos a palavra agora a José Leitão de Almeida Viana, presidente estadual do CREAA. – Anuncia o condutor da mesa. Um homem moreno, alto e calvo se levanta da bancada de autoridades e se encaminha ao pequeno palco do lado direito do salão.

– Boa tarde à plenária. – Cumprimenta, vestindo um paletó preto – Estou aqui como presidente do CREAA, que significa Conselho Regional de Engenharia Arquitetura e Agronomia, mas estou aqui também como representante da sociedade civil. – Começa, lentamente. – E como cidadão de uma sociedade democrática, eu gostaria de me posicionar a favor da instalação de Belo Monte. – Se voltando para o público, ele espera a reação.

Todos o encaram. Alguns segundos de silêncio são quebrados com apupos:

– Uuuuh! Uuuuh! Fora!

– Eu já vim preparado para as vais. – Ele responde, sorrindo cordialmente.

– Já veio preparado pros tomates também? – Ameaça enraivecido um homem moreno e forte, representante de movimento social. O condutor da mesa intervém, tentando acalmar os presentes.

– Gostaria de lembrá–los que vivemos em uma sociedade democrática, onde é permitida a liberdade de expressão. – Fala Manoel Pioneiro.

– Se é liberdade de expressão, eu, como representante de movimento social, tenho direito de falar e de vaiar também! – Rebate uma jovem branca, de cabelos negros, no meio da plenária.

Enquanto o mestre de cerimônia dá explicações à mulher, que parece querer fazer uso da palavra a qualquer custo, penso em me aproximar do homem responsável por todo aquele alvoroço. Era preciso entrevistá–lo. No entanto, cheio como o salão estava, eu corria sérios riscos de permanecer em pé, caso me levantasse.  Há uma senhora sentada ao meu lado. Pergunto se repararia meu lugar, pois precisaria sair por alguns instantes. Ela parece incomodada com todo aquele barulho; repito a pergunta e, desta vez, parece ouvir.

– Sim, eu guardo. – responde. – Mas não demore, porque não pretendo ficar muito tempo aqui.

Rapidamente, me ponho de pé. A discussão continuava. Quando estou a poucos passos do presidente do CREAA-PA...

 – Como foi falado no início, todos terão direito à palavra. Portando, os que queiram se posicionar, por favor, dirijam-se à mesa e façam suas inscrições. – finaliza, com firmeza, Manoel Pioneiro, devolvendo a palavra a José Leitão.  Retorno ao meu lugar e agradeço à senhora. Foi em vão; precisava esperar outra ocasião para falar com ele.

– Nós temos que pesar os prós e os contras! – Prossegue José Leitão com seu discurso. – Não há desenvolvimento sem geração de energia, e Belo Monte vai gerar uma grande parte de energia que o país está necessitando neste momento.

Da plateia ouve-se mais vaias, mas ele não se intimida.

– Há 27 anos, – continua. – quando a Usina de Tucuruí foi instalada, provocou criticas, merecidas, mas que beiraram o exagero! Os ambientalistas falaram que as águas em frente a Belém seriam salinizadas porque o rio deixaria de desaguar na Baía do Guajará, e que com isso as águas do oceano invadiriam a capital. E eu pergunto aqui a vocês, representantes de etnias, ribeirinhos: isso tudo aconteceu? 

Ele calou o público.

– Por isso, eu afirmo: não se pode fazer omelete sem quebrar os ovos! – Ele finaliza sua fala e dá meia volta, retornando à bancada de autoridades. Tempo suficiente para se ouvir novos gritos. Representantes de diversos segmentos pronunciam palavras de ordem contra ele:

 – Fora pelego, teu patrão é o governo! Fora pelego, teu patrão é o governo!

Era notório o reflexo que provocava na plenária com o posicionamento favorável a instalação da usina. Levanto-me outra vez e caminho até a bancada para me dirigir a José Leitão. Possivelmente, ele seria o único representante do poder público que iria expor sua opinião favorável à construção de Belo Monte. Me apresento e pergunto se poderia entrevistá–lo.

– Sim, sim. – responde.

– Pode ser aqui mesmo? .

– É... Creio que não, né? Até porque tem uma sala reservada aqui ao lado. Podemos gravar lá. – sugere. – Venha comigo.

Ele dobra em um pequeno corredor e abre uma porta lustrada, à esquerda. Segura a porta para que eu passe e depois a fecha. A sala é pequena, e o chão é revestido por um tapete cinza. Há computadores sobre mesas ao lado direito e arquivos de documentos à esquerda. O presidente do CREAA-PA me oferece uma cadeira e senta–se ao meu lado.

– Podemos começar? – Pergunto.

– Quando quiser, minha cara. – Ele responde.  Eu posiciono meu gravador, meu instrumento de trabalho.

– Então, – inicio. – por que o senhor comparou a discussão sobre a Usina de Tucuruí, que ocorreu há 27 anos, com a discussão atual sobre a Usina de Belo Monte? – José Leitão inspira e me olha:

– Bom, como eu havia dito na plenária, as discussões se assemelham bastante porque, naquele momento, como agora, só se falavam dos contras e não se pesavam os prós do projeto.

– E quais seriam os prós e os contras? Descreva pra mim.

– Naquela ocasião, os povos que habitavam Tucuruí, os representantes de segmentos, de etnias, os ambientalistas, falavam que quando se fechasse o reservatório de água, o rio iria secar, os peixes iriam morrer. E isso também se fala hoje! – Ele explica.

– Altamira é um município a mais de 900 km de distância de Belém; muitos de seus habitantes são ribeirinhos e povos indígenas que têm no pescado uma das principais fontes de sobrevivência. Quais as consequências que Belo Monte pode causar a essa população? – Pergunto.

– Veja bem, vai causar impacto no meio ambiente, vai; mas nós já estamos estudando minuciosamente. Já estão sendo feitos os estudos ambientais, os EIA/RIMA. (Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impactos de Meio Ambiente) – Esclarece, se ajeitando na cadeira e cruzando as mãos.

– Quando o reservatório de Tucuruí foi cheio, – prossegue – o rio voltou a circular normalmente. Os peixes continuam lá e o grande reservatório, que, para os críticos, seria um criadouro de mosquito, se transformou numa área de produção pesqueira. Hoje se retiram, anualmente, toneladas de peixe dali! Foi um ciclo que se formou beneficiando a própria população ribeirinha que vive da pesca.

Eu agradeci a ele pela entrevista e por se afastar da mesa de debates para falar comigo. Ele respondeu “por nada”.  Conversamos mais alguns instantes até ser lembrada, cordialmente, que era preciso voltar. Nos conduzimos até a porta, e ele repete o gesto de nossa entrada, segurando-a para que eu passasse. Dobramos no corredor para o lado direito, voltando ao salão.

Sons de aplausos ecoam daquela parte. Um senhor de cabelos brancos, traços europeus e calça jeans, inflamava os presentes. Reconheci o bispo Dom Erwin Kräutler, presidente Nacional do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), vinculado a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

– É preciso, sim, quebrar os ovos para se fazer uma omelete, meu caro presidente do CREAA. – ele olhou para o homem ao meu lado. – Mas não é preciso destruí-los! – ressalta. Ouvem–se gritos e aplausos entusiásticos, vindos do auditório.

– Viu só por eu não podia demorar muito tempo? – Murmura José Leitão para mim. – Os caras estão me batendo direto. – Me confidencia. – Aproveita para colocar isso também na sua matéria, minha jovem. Só pra que as pessoas vejam que eu não sou um vilão apenas por concordar com a instalação da Usina.

Ele se despede e toma seu lugar na mesa. Eu volto para minha cadeira. Porém, eu não tinha mais cadeira. Era o jeito ficar em pé. As horas avançavam. O bispo prosseguia com seu discurso.

 

“Nada porque matar ou porque morrer, nenhuma religião também/Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz...” – John Lenon.

Belo: Agradável ao ouvido; ameno, aprazível, sereno.

Monte: A massa dos bens da herança.

 

– EU TENHO AQUI EM MINHAS MÃOS, – PROSSEGUE O BISPO, erguendo uma folha de papel. – uma cópia da carta da OEA, Organização dos Estados Americanos, enviada ao Itamaraty no dia 5 deste mês, alegando que o Brasil, com a insistência na construção de Belo Monte, está quebrando o acordo de cumprimento da Lei de Direitos Humanos firmado entre a entidade e o Governo Brasileiro. A OEA mandou essa carta porque os maiores interessados, os que serão afetados diretamente, as comunidades indígenas e ribeirinhas, não estão sendo ouvidas! – Exclama o bispo – Será preciso que a OEA, uma organização estrangeira, interfira para que os nossos direitos sejam respeitados?

Da plateia, ouvem-se muitos aplausos.

– A tribo Parakanã, aqui também representada, onde estão? – Pergunta Dom Erwin.

Eki*, anauê*! – Gritam cerca 10 índios na parte central da plenária. (* Em Tupi, eki significa: aqui. E anuê significa: Olá, saudações).

– Essa tribo, – prossegue o bispo, apontando para os indígenas – foi encontrada durante a construção da hidrelétrica de Tucuruí, teve seu território invadido pela represa da usina e tornaram–se, desde então, nômades em fase de extinção! Tribos como Kuruaya, Xikrin, Kararaô e muitas outras serão expulsas da Curva do Xingu, expulsas do seu habitat! – Continua Dom Erwin. – Pelo menos 30 mil pessoas serão retiradas, jogadas ao vento! – esbraveja. – Colocadas sabe Deus onde! Será que isso é justo?

Ouvem-se mais gritos, vindos de toda a plenária. E, para a minha surpresa, até crianças, movidas não pela fala daquele homem, mas pelo entusiasmo de seus pais, gritam: “Eeee! Eeee!”, pulando, com suas mãozinhas para cima. Era possível isso estar acontecendo? Crianças de olhares inocentes, mas “de pé no chão”, possivelmente tendo suas infâncias roubadas pelos problemas sociais decorrentes de outras décadas?

O Xingu é algo especial, é algo diferente de todos os outros rios do Brasil! – continua Dom Erwin. – Como foi falado hoje, na plenária, de maneira bem clara, a Volta do Xingu é um patrimônio da humanidade e não pode desaparecer assim para ser colocado em seu lugar uma hidrelétrica ou qualquer outro projeto megalomaníaco como esse! – Finaliza o Bispo. Brados de euforia transpõem aquelas paredes.

– Muito bem! Muito bem, bispo! Esse aí é “O cara”! – Uma loucura total.

 

“Como a mais bela tribo, dos mais belos índios,
Não ser atacado por ser inocente.”
– Legião Urbana.

Belo: Que tem proporções harmônicas; aprazível, deleitoso, ameno.

Monte: Terra coberta de mato ou de arvoredo e sem cultura alguma.

 

17:00 HORAS. EU DESÇO A LONGA ESCADA da Assembleia Legislativa do Pará e saio pelo portão. Meio encoberto pelas nuvens escuras, o sol brilha através das árvores.

Próximo de mim, uma mulher morena de cabelos longos e negros se faz notar. Aos pés dela há brincos de pena e pulseiras de sementes de frutas sobre uma esteira. No chão, um pacote de fraudas e uma garrafa de água estão perto das bijuterias. A mulher, uma índia, balança um bebê no colo, e olha preocupada para o céu margeado por nuvens. Eu me aproximo. Pergunto se está vendendo as bijuterias e ela diz que sim. Apresento-me e pergunto o seu nome.

– Daiane Kuruaya. – me responde. Digo que sou repórter e pergunto se ela me concederia uma entrevista. – “Craro!” – Eu empunho meu gravador

– Esse é seu filho? – aponto para o bebê nos braços dela.

– É. – Sorrindo, ela baixa os olhos em direção à criança.

– Filho único?

– Não. Ele é meu mossapyra* – esclarece. (*Em Tupi, mossapyra significa: Terceiro).

– Como é o nome dele?  – Pergunto, enquanto me posiciono.

– Yrihu Kuruaya. Ele tem só 11 meses. – Ela continua sorrindo.

– E o que significa “Yrihu”?

– Rio. – Ela profere, e o sorriso se desfaz.  Que irônico. Rio. O bebê choraminga em seu colo.  Nós continuamos conversando. Daiane conta que demorou dois dias pra chegar até a Assembleia Legislativa, e diz que levou o filho porque não tinha com quem deixá-lo.

– Eu sou contra essa usina! – Fala, revoltada. – Porque se passar a barragem, vai atingi minha aldeia! Aí vai acabar com a nossa pesca e é disso que nós vive! Do peixe, da caça! E como é que eu vou alimentar meu curumim*? – Ela olha para Yrihu. (*Em Tupi, curumim significa: Criança, menino.).

– No caso, a usina sendo instalada, vai acabar essa tua fonte de sobrevivência por quê?

– Vai acabar por causa do peixe, né?  E vai por causa que nós também vai saí de lá. Aí nós também não tem pra onde ir. – responde, aflita.

O bebê começa a chorar.

– Shhh! Shhh! – tentando aclamá–lo, Daiane balança-o nos braços. Ele continua chorando. – Calma, raira*, calma. – Pronuncia docemente. (*Em Tupi, raira significa: Filho).

– O que será que ele tem? – Pergunto, tentando ajudar.

– É por causa que... – ninando-o, ergue os olhos pra mim – Ele não come desde “onte”.

– Desde ontem?! – exclamo. – Mas por quê?

– É que a tribo saiu com pressa... – Ela baixa os olhos para o filho, envergonhada. – Aí eu acabei esquecendo o leite e o mingau. E agora ele ta sem “comê” e eu também num tenho dinheiro pra comprar.

 – Mas tu tens leite ainda, não é?  – minha preocupação tinge a pergunta.

– Tenho.  Mas o meu kamby* é pouco.  Não dá pra matar a fome dele e... – interrompendo a própria fala, a indígena olha para cima, desesperada.  – Ah, meu Deus! Ai! – Gotas de água salpicam o rosto de Daiane. Começava a chover. (*Em Tupi, kamby significa: leite).

A mulher olha para as coisas no chão e depois por sobre minha cabeça.

– “Craudio!” “Craudio!” – Grita para um homem conversando no começo da escada da Assembleia – Me ajuda aqui, me ajuda aqui! – Ele desce as escadas com pressa e sai. Depois se ajoelha na calçada e começa a guardar as coisas de Daiane dentro de uma sacola de plástico.  – Venha. – Ela me chama pra dentro do prédio, para nos protegermos da chuva.

O homem retorna com a sacola cheia com as bijuterias da índia e com o pacote de fraudas. Na outra mão, traz a garrafa de água. Ela me apresenta a Cláudio, seu primo, dizendo que eu sou uma repórter e que a entrevistei.

– Ele tá representando nossa tribo. – Me fala. – A senhora pode entrevistar ele também.  – Eu agradeço-lhe.

O HOMEM A QUEM DAIANE SE REFERE, de cor morena, barba e semblante firme é outro integrante da tribo Kuruaya.

– Tudo bom, Cláudio?

Aicó. – Responde ele.

– Hã? – Pergunto, sem entender.

Aicó, quer “dizê” tudo bem. – responde, com um sorriso fraco.  Seus gestos apresentavam sinais de cansaço, mas em seu olhar a convicção de que era preciso falar em defesa de sua etnia.  Enquanto retornamos ao salão, Daiane pergunta para Cláudio o que está acontecendo na plenária e ele a atualiza das informações. Juntos, combinam os detalhes do retorno à aldeia. 

– Aqui dá de gravar, doutora? – Ele se dirige a mim, quando chegamos à porta do auditório. Eu sorrio do modo como me trata e peço que me chame pelo nome.  Os sons vindos do salão eram estridentes. Representantes de segmentos da sociedade empunhavam o microfone expressando suas opiniões de maneira abrasadora. Peço que nos afastemos um pouco, porque, senão, o barulho poderia interferir na entrevista.

– Ah, tá. – responde, resignado. – A senhora é que sabe. – Nos afastamos alguns passos. Percebo sua ansiedade em voltar ao auditório, então me apresso, voltando-me a ele e posicionando o gravador.  

– Cláudio, por que, se a Usina de Belo Monte for instalada, vai prejudicar a tribo Kuruaya? – Ele coloca os braços nas costas e entrelaças as mãos, sério.

– Ela vai nos “projudicar” em muita questão. – Explica. – Questão ambiental: ela vai trazer prejuízo pra gente na questão do rio, do peixe, da caça, da pesca, porque a gente sobrevive disso. É por isso que eu sou contra, não só eu, mas várias outra tribo que sobrevive lá por Altamira. – Peço pra que me explique melhor. Como a usina vai prejudicar diretamente a sobrevivência das tribos?

– Olhe só, – o índio coloca as mãos pra frente e gesticula. – é porque tem uma parte na aldeia Xicrim que vai secar uns 100 a 200m, e os peixe vai morrer e, se não morrer, vai se afastar de lá. Mesma coisa pra nossa terra, pra nossa aldeia.

– Mas tu achas possível vocês evitarem que a usina seja instalada?

– Se o nosso povo guarini* se organizar... – Ele balança a cabeça. – Sim, é “possíve” a gente embarrar a construção dessa barragem! (*Em Tupi, guarini significa: lutador, guerreiro).

 

“Quando descobri que é sempre só você, que me entende do início ao fim/E é só você que tem a cura para o meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto/De tudo que eu ainda não vi.” Legião Urbana

O TIQUETAQUEAR DO RELÓGIO MARCA PRECISAMENTE 2:11H DA MANHÃ. Estou sentada em uma cadeira, diante daquele que me acompanha todas as noites: meu notebook. O silêncio é quebrado apenas pelo dedilhar de minhas mãos. Estou digitando tudo que o que acabo de contar a vocês.

Uma das melhores coisas no jornalismo, é que você aprende com cada matéria que faz. E para descrever melhor essa reportagem, me baseei no poema de William Shakespeare, Aprender a viver: Refletindo sobre os debates, percebi que não importa qual seja a situação, sempre existirão dois lados ou mais. E que por mais que os ambientes tenham influência sobre nós, somos responsáveis por nós mesmos.

Tenho consciência que posso ter contribuído para contar mais um capítulo de Belo Monte, da realidade de um povo que soube marcar o chão para sempre.

Esses personagens são reais. Foram eles que construíram essa história. Eu apenas a contei.

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Pérola de Souza

Pérola de Souza, belenense cabana e deficiente visual. Seu lema: não temer desafios e caras feias, até porque não consegue se ver no espelho. Envolta às xícaras de café que regam sua trajetória, honrou a fama de “papagaia” da infância e fez-se comunicóloga. Graduada em Comunicação Social – Jornalismo pela Estácio-PA, e pós-graduando em Marketing eleitoral e jornalismo político, mantêm-se convicta no ofício da profissão, muito embora as portas permaneçam cerradas como/pelas mentes obscurecidas pelo preconceito. Andou (dirigindo) sendo premiada no FUSCA – Festival Universitário de Criação e Audiovisual pela telereportagem Faculdade sem fronteiras. Atrelando a essência revolucionária à formação acadêmica, criou e dirigiu o SIM, sou capaz, vídeo institucional da Associação Paraense das Pessoas com Deficiência (APPD), com o objetivo de dar visibilidade a ONG que defende a bandeira dos deficientes no Pará. Acredita piamente no ideal do sociólogo Boaventura de Souza Santos, que diz: “Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza”.

Página da autora

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Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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