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Assobio-onda num rio fundo fantasma

Poema de Zeh Gustavo

1.

Rio continente: passarelas morridas de multidão.

(Seu sangue é de fundo negro, pisado.)

Vielas retidas, de pouca margem.

Cidade afoita, nadando voando esburacada avante.

Ondas cegas. Raios surdos. Pessoas tão móveis,

qual objetos de aquarela manchada em merda,

urina e suor, muito suor.

 

2.

Ruas sem saída. Intenso tráfego de trapos.

(Os andrajos em sua maioria trazem a tez preta,

sob uma balaiada de tiros tiros tiros.)

Um tenso trâmite pedestre ônibus lotados espaço esgotado

de pessoas engarrafadas e o esgoto que corre a céu solto.

O samba atravessou e só há um som

muderno que ilude, cidade maraviltosa.

A beleza que afaga conforma um aterro de solidões pavores,

esperas do que não vem que é sossego, nonunca.

Rio só unzinho de tonta gente, rio água abismo abaixo.

 

3.

Rio nervoso, esquecido alegre num canto de boca que ainda canta.

(Exu abre caminho, Oxum dança-encanta. Ainda.

Em silêncio senão apanha! Xiii.)

Rio em sociedade solavancos muita grana

muita arma muita gana supereventos os jogos são os jogos.

Rio onde não venta mais, é como um sertão,

é como seres danados em desalma pelo dia úmido

enquanto o temporal não vem desabrigar dos barracos,

varrer a encosta, tremer asfalto.

 

4.

Rio das ilhas de calor, dos prédios com ar-condicionados

e vidros que espelham uma racha – ou uma cidade?

(As remoções não se restringiram às ocas amassadas.

Tupã morreu mas não morrem as cores de cada degredo-desgraça.)

Rio de ódios-olhares tortos pra pobre, qual fosse

apenas um presépio de vingânsias.

 

Rio de bombas que entram em cio quando ocorre qualquer grita,

metropólio do poder-Rio que atira pra cima e pro lado

e no próprio pé, no próprio povo que passa e pisa,

insistente, fora da foto oficial, paisagem subserva.

 

5.

 

Para este Rio é uma triste notícia que ainda haja humanos

entre os seres urbanos funcionários espectros;

eles caminham entre os carros, jorram pelos córregos, fazem-se

contracorrente dos investimentos putos, pó entre os lucros,

parênteses na curva em que demoliram mais um morro

em prol de uma montanha-torre de invescrementos.

 

(Somos todos desaparecidos, já dizia Turiba, o poeta.)

À sombra do sem-mistério de um Rio em desestrada,

ossos se mexem, desenvergam da poeira-lodo.

Ainda que suma mais um corpo de outro morto,

quantos mais caírem, já se soprou

o apito-amarildo: é o toque de alevantar!

 

 

 

Verão 2016 / Todos os cantos são o centro de algum lugar

Zeh Gustavo

Zeh Gustavo é músico e escritor. Canta nos grupos de samba Terreiro de Breque e Samba da Saúde e nos blocos de carnaval Cordão do Prata Preta e Banda da Conceição. Na literatura, publicou, entre outros, os livros de poesia “Pedagogia do Suprimido” (Verve, 2013; Autografia, 2015), “A Perspectiva do Quase” (Arte Paubrasil, 2008) e “Idade do Zero” (Escrituras, 2005). Em 2012 participou da coletânea “Porto do Rio do início ao fim” (Rovelle, 2012), com o conto “Comuna da Harmonia”. Em 2015 integrou o livro “Rio de Janeiro: alguns de seus gênios e muitos delírios” (Autografia), com o texto “Sérgio Ricardo: a toada firme de quem sabe o mar”; a coletânea de crônicas “O meu lugar” (Mórula), com “Serpentina avoa, que hoje tem barricada!”; a antologia “Pele de todos os sangues”, do coletivo Sarau dos Sambistas, com uma série de poemas; e a Revista da Academia Carioca de Letras (Batel), com o conto “Por sobre o ruído rude da rotina besta”. Em 2014 seu livro de contos “Eu algum na multidão de motocicletas verdes agonizantes” (inédito) venceu o Prêmio Lima Barreto da Academia Carioca de Letras. É um dos organizadores do FIM (Fim de Semana do Livro no Porto).

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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