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Editorial: Outono 2016

de Rafael Lasevitz

 

Harue Koga / 日本語: 窓外の化粧 (Maquiagem ao ar livre) (1930) 

 

Passo muito tempo no transporte público. Tanto tempo que a questão de como passar esse tempo que passo dentro do transporte público se impõe. De maneira geral, a questão se coloca em termos de buscar algo para fazer, aquele artigo cansativo que guardei no celular para ler quando não estivesse fazendo nada, achar um jornal no chão pra folhear, fechar os olhos e tentar fazer o corpo achar que está dormindo, quem sabe assim recupera um pouco do sono que não teve à noite, e por aí vai. A outra opção é encarar as pessoas ao redor. Discretamente, claro. Geralmente não é minha opção. Um dia desses uma jovem esperou o momento de sair do metrô para, subitamente, soltar um grito de indignação contra as pessoas que usam o assento preferencial sem se encaixarem no perfil do assento preferencial. Meu reflexo imediato foi o de me indignar junto com ela, mas olhando ao redor, não consegui encontrar nenhum uso particularmente inadequado. Ao contrário, alguns assentos estavam livres. Talvez eu não tivesse entendido? Talvez fosse um grito tardio, contra outro momento, outro espaço-tempo de outro metrô? Outro dia, havia um segurança sentado na cadeira que fica rente à porta de saída. Não estava a trabalho, não era o segurança do metrô, estava lá como um passageiro, em outro momento do dia seria o segurança de algum outro lugar, de uma loja de bolsas de cinco mil reais ou de um centro empresarial do centro da cidade, mas ali era alguém que começava a entrar de folga ou saía dela, como quase todos os outros ao redor. Mas estava de uniforme. Quando fui sair, por um instante pensei que devesse pedir autorização para o uniforme que guardava a porta. Os minutos seguintes passei chocado comigo mesmo. O que significam os uniformes e as portas dentro do meu cérebro? Em que parte dele estão? Que outras imagens tenho prontas dentro de mim para me auto-reprimir?

Na verdade, não quero falar do segurança nem dos assentos preferenciais. Mas talvez o transporte público tenha se tornado para mim, e quem sabe para outras pessoas também, um dos poucos lugares onde histórias parecem surgir, assim, quase como que em combustão espontânea. E certamente há várias maneiras de se especular sobre isso, mas ficarei com a especulação que interessa para esse editorial: histórias necessariamente envolvem gente. Mais que isso, vai: histórias emanam de gente. Provavelmente o tempo todo. Só que ninguém conta a maior parte dessas histórias, até porque não existe um narrador-mor flutuando no universo preocupado em contar todas as histórias de todas as almas do universo. As histórias se perdem no vento ou nas tubulações de ar encanado e as pessoas seguem suas vidas, e não há problema algum com isso. A não ser quando não tenho o que fazer porque estou no transporte público, o lugar por excelência onde não se tem o que fazer, e começo a querer transformar todo o emaranhado caótico de imagens e pessoas que se sacodem e se apertam na minha frente em alguma coisa coerente que possa ser contada depois numa conversa de bar.

Mas também não quero falar de transporte público, mas sim de transformar emaranhados caóticos de imagens e pessoas em alguma coisa coerente que eu possa contar. Porque, no fim das contas, a vida é esse emaranhado caótico que tentamos o tempo todo transformar em uma história que sejamos capazes de contar.

Uma vez estava sentado num banco de praça num fim de tarde qualquer olhando as pessoas. Por algum motivo comecei a seguir com os olhos um rapaz que andava sozinho e, como não tinha nada melhor para fazer (eram tempos pré-wifi e pré-smartphone e eu tinha que me virar para fugir do tédio) comecei a tentar adivinhar que rua o rapaz ia pegar quando saísse da praça. Só que não saiu, e pelo contrário, começou a contornar a praça, duas, três, quatro vezes, contornando o mesmo caminho sem motivo aparente, nem direção. Tentando buscar explicação para o rapaz, lembro que meu primeiro reflexo foi o de pensá-lo como metáfora, talvez para uma existência humana circular, repetitiva, ou outra dessas metáforas existenciais batidas. Mas ele não podia ser uma metáfora porque não havia diretor. Aquilo não era um filme (pensei em filme naquele dia, não pensei em livro, não sei porque), era a vida. E a vida não tem fios condutores nem roteiro nem página na Wikipédia nem crítica no IMDb. Quem define o fio condutor somos eu, você, cada um de nós. O rapaz provavelmente não diria que estava caminhando em círculos para ser uma metáfora fora de moda sobre a humanidade, e tenho certeza de que há mil outras formas de contar a história dele que ele mesmo também não contaria.

Porque antes de encontrarmos o fio condutor para uma história, ela não tem sentido nenhum. Ela sequer é uma história.

Olhando pra minha vida, consigo pensar em mil coisas que passam pelo meu dia que não transformo em história e que não fariam parte do meu própro livro imaginário sobre mim. Não vão virar conversa de bar nem post de Facebook. Mas o que são essas coisas? Quem são todas as coisas e gente e interpretações que decidimos ignorar em prol de uma só história? O que acharíamos de nós mesmos se resolvêssemos recontar nós mesmos, encontrar outra metáfora, outro fio condutor, outra ordem pros capítulos, como um Jogo da Amarelinha nível hard? Seríamos outras pessoas? Quem seriam nossos amigos?

Esses dias vi um filme, um mini-documentário sobre as transformações da natureza, como esses que a gente encontra no Discovery ou National Geographic da vida. Só que quando o narrador falava de montanhas, mostrava montículos de grama, e quando falava de rios, mostrava a água da chuva descendo pelo meio-fio. Toda uma escala de percepção que existe sem história nem narrador. Tenho outra metáfora que quero impor ao rapaz da praça. Talvez ele não estivesse andando em círculos porque cada volta na praça significava uma história diferente para ele mesmo. E talvez seja um pouco isso a poesia afinal, olhar para um monte de gente uma segunda vez para buscar uma segunda, terceira, ou quarta história, aquela que tinha se escondido dos seus olhos porque seus olhos tinham se escondido dela. Contar as histórias das escalas ignoradas.

Poesia com gente dentro é o nome da nova edição da Raimundo, ideia de nossa querida poeta Geruza Zelnys, repleta de segundos, terceiros e quartos olhares sobre um pouco de tudo e um pouco de todos, e esperamos que virem quintos e sextos olhares no olhar do leitor.

Boa leitura!  

 

 

 

Outono 2016

Poesia com gente dentro

 

Aline Rocha

Caroline Policarpo

Cláudia Barral

Eduardo Laurent

Fábio Salem Daie

Fred Kling

Gabriel Pelosi

Giuliana Franco Leal

João Pedro Liossi

Juliana Guida

Leticia Ressia

Líliam Barros

Lubi Prates

Luiz Fellipe Almeida

Maira M. Moura

Marcos Vinícius Almeida

Martha Goldin

Plynio Nava

Rodrigo Domit

Rodrigo Menezes

Samanta Matos

Vitor Camargo de Melo

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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