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Stanley

Conto de Eduardo Laurent

Um dia, acordou com uma ideia despretensiosa que simplesmente lhe passava pela cabeça: Tais grupos gostam disso e rejeitam aquilo, consomem isso e não consomem aquilo, e daí por diante. Num estalo, teve certeza de que estavam fazendo testes nas pessoas, através de coisas nas comidas, nas imagens, nos remédios, nos símbolos. Como se pudessem imputar um hábito a um rebanho, e assim observar seu comportamento, etc. O menino de apenas 14 anos, ainda sem levantar da cama, estava sendo completamente tomado por aquela ideia absurda, desejando estar aquém de qualquer grupo, qualquer cultura. Logo, alimentos, vacinas, arquiteturas, quaisquer estímulos que ele pudesse encarar lhe pareciam fruto de pesquisa de alguém que lhe estava observando – de perto.

Ainda sem se mexer, encarando suas mãos e seus anéis, imaginou que poderiam ser extraterrestres que vêm para cá, se disfarçam, e fazem testes com os seres humanos; ou pior: poderíamos ter sido criados por eles, pensou. Nenhuma ideia lhe parecia descabida a ponto de ser descartada. Fechou os olhos com força, tentou pensar em qualquer coisa normal, mas em poucos minutos Stanley estava em choque, deitado na cama, com as extremidades enrijecidas, com medo de abrir os olhos. Toda sua família, seus amigos, todos enganados, ele pensava. Sentia-se uma aberração, material de experiência. Stanley sempre ouvira que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus... Mas agora sentia profundamente que o homem poderia ter sido criado para testes, poderia ter sido moldado à semelhança física e química de um tipo de ET, e assim a vida não teria sentido algum, apenas sobreviver, consumir, e ser testado, observado.

Ele concebe a ideia, e realiza dentro dele que nenhuma ideia nasce do nada. E todas projeções e memórias que ele sintetiza lhe indicam que sua crise tem fundamento, mesmo que continue acreditando em um único Criador, o que potencializa o seu sofrimento.

Inevitavelmente, começou a tentar conversar sobre o que tinha imaginado, que era possível, que era bem provável, e os pais e os colegas e todo mundo ficou muito horrorizado. É assustador olhar nos olhos de uma pessoa tão jovem e desintencionada que fala de uma ideia tão bizarra com tanta certeza, com tanta firmeza no olhar.

Parou de comer o que comia, e nem água mais ele bebia, “O flúor”, ele dizia para o pai, “e mais um monte de coisa”. Queria sucos de uva e de maracujá, direto de um determinado produtor da Serra Gaúcha, e só comia determinadas castanhas e batata doce. Nos primeiros dias, acharam que era uma crise de adolescência, mas ele começou a emagrecer, e seu olhar ficava cada vez mais penetrante.

Parou de sair de seu apartamento. Não via TV, nem nada. Os professores do Colégio Anchieta pressionaram os pais, de leve, querendo saber como estava Stanley, se continuava dizendo aquelas coisas. Os pais mandavam todos se acalmarem, “Está tudo bem”, o pai falava, sem firmeza naquelas palavras. O irmão mais velho de Stanley era bem científico, e o do meio era bem religioso, então, o assunto dava o que falar em casa. O caçula, em seu quarto, olhando para a parede quase branca, ouvia somente um único assunto: seu estado físico e mental. Tudo tão distante, tão superficial, que ele percebia que estava sozinho nessa. Stanley estava sozinho nessa.

Parecia evitar tocar em qualquer um, em casa, passaram a perceber. Todos foram ficando cada vez mais preocupados, e Stanley foi ficando cada vez mais complexado. Ameaçaram parar de trazer o alimento que ele exigia, mas aí ele pararia de se nutrir.

Então, ele começou a dormir menos. Menos. Quando muito fortemente questionado, ele disse que no sonho é que eles podiam pegá-lo. Passou a não dormir, apenas descansava os olhos, depois nem isso mais. Stanley disse que eles queriam desligá-lo, era o que Stanley dizia. “Eles estão vendo tudo”, falava, e quando lhe perguntavam "Quem são eles?”, seus olhos eram tomados de uma angústia, de um temor de outro mundo, que contagiava a todos, desde os mais céticos aos mais crentes. Todos à volta dele acabavam ficando submersos naquela aflição.

Tinha olheiras grossas e roxas, e seus lábios eram roxos, “Do suco de uva”, um dos irmãos dizia, tentando ainda concluir que estava tudo bem, que ele iria melhorar. Pensaram seriamente em interná-lo, claro. A mãe sentia que o filho lhe fugia por entre os dedos. Ameaçaram uma internação, se ele não parasse com aquela loucura, e passaram a pressionar o menino para que ele fosse a um psicanalista, mas Stanley ria disso, um riso sem alegria alguma. A verdade é que tinham mais medo ainda do que poderia acontecer se o menino estivesse sob outro teto. Assim, não o internavam, e ele ficava lá socado em seu quarto, no alto do prédio do bairro Moinhos de Vento, só movendo-se para ir ao banheiro, evitando troca de palavras, de toques, e até de olhares. “Sabe-se lá o que poderia acontecer se ficar num hospício desses”, a mãe dizia.

De algum modo, não emagrecia mais, e a situação parecia ter se estabilizado, e, passados alguns dias, a família se acalmou um pouco, pois seu estado não mudava, e isso poderia ser um bom sinal. As janelas tinham grades. “Ninguém vai te levar, filho. Ninguém vai te desligar coisa alguma. Vê se dorme, Stanley, pelo amor de Deus”.

Um dia, Stanley, como se estivesse cansado de tudo aquilo, admitiu que era muito estranho que estivesse realmente todo mundo louco, e apenas ele tendo uma visão genuína. Admitiu que talvez precisasse dormir um pouco, não conseguia raciocinar nem sentir nada mais. Então ele dormiu.

Pela manhã, abriram a porta do quarto de Stanley, e o menino não estava lá.
“Pra algum lugar ele foi”, dizia o irmão mais velho. Polícia pelo apartamento. A mãe, apática. O pai, falando com amigos, vizinhos, com os olhos arregalados, perguntava se sabiam de algo, e logo dizia “Calma, ele volta. Tá tudo bem, ele volta”. O irmão do meio chorava e rezava. Ninguém tinha resposta.

O que torna o caso do menino Stanley tão absurdo para mim é que, semanas antes de seu sumiço, seus pais estavam realmente preocupados que ele fugisse, que enlouquecesse por completo, e decidiram tomar providências para que não houvesse como Stanley sair do apartamento. Quando o menino começou a anunciar que eles iriam leva-lo dali, os pais trocaram a fechadura da porta, e ficaram com apenas uma chave. Todos dependiam dessa chave, entende? A chave dormia e acordava em um colar por sobre o peito da mãe, que trabalhava em casa e tinha sono superleve. Ela sempre usara uma chavezinha no colar, coisa que herdara de sua vó, mas agora a chave era de verdade, e não mera bijuteria. Ela disse que não tirava aquilo nem no banho, nas poucas palavras que conseguiram arrancar dela durante a investigação. A polícia considerava hipóteses de que o menino havia se apoderado de uma cópia da chave enquanto os pais dormiam, ou que havia pegado da mãe durante o dia, sem que ela visse, ou algo assim, mas o fato é que – eles dormiram e quando acordaram o menino já não estava no quarto, e a porta do apartamento estava fechada, e ninguém conseguia provar porra nenhuma. Pelas janelas não havia saída. Tinham grades, além do mais, era o último andar do prédio, um dos prédios mais altos do bairro. Sobre a cama, por sob a coberta, estavam seus anéis, meias, camisa e cueca. Parecia mesmo que ele tinha sumido, como se tivesse evaporado.

A família e os colegas de Stanley sabiam bem que algo muito estranho tinha acontecido. Um amigo de um amigo disse no colégio um dia que achava que Stanley tinha razão mesmo, que fazia muito sentido, e por isso haviam apagado ele do tabuleiro, mas aí o cara refletiu sobre o que estava falando e engoliu suas palavras, e nunca mais falou sobre isso. A grande maioria das pessoas preferia acreditar que o menino tinha enlouquecido mesmo, e tinha dado um jeito de fugir, para não ser internado.

Silenciosamente, a mãe ficava lembrando-se do filho. Não emitia som algum, ao derramar suas lágrimas, para não chamar atenção do marido. Não queria que ninguém sofresse o que ela estava sofrendo. Ela entrava às vezes no antigo quarto de Stanley, que estava virado num escritório que ninguém usava nunca para nada. Ficava ali se lembrando daqueles últimos momentos, de quando abria a porta do quarto à noite e Stanley estava acordado olhando as estrelas, por entre as grades da janela bem aberta, mosquitos lhe picando. Stanley dizia que os mosquitos lhe ajudavam a manter-se atento e puro. “Meu filho”, e Stanley dizia “Está tudo errado. É tudo falso”. “Dorme, Stanley, isso não está te fazendo bem”, e ele continuava olhando as estrelas. Falava que estava chamando por ajuda, pois alguns queriam nos ajudar, e outros queriam a nossa destruição. A mãe desesperada – “Deixa eu te ajudar, pelo amor de Deus! Nós podemos te ajudar!”. “Tu não entende... É tudo teatrinho”, ele dizia, nunca olhando de frente, o constante risinho insano, carregado de melancolia, dando à mãe no máximo aqueles ligeiros olhares profundos, sem nenhum brilho, nenhuma esperança.

Passados alguns meses, se algum parente ou amigo tocasse no nome do menino, o pai não falava nada, como se não tivesse escutado nada, como se nem houvesse existido Stanley algum.

Três anos depois, a mulher chegou a dizer “Talvez a gente tinha que ter ouvido ele”, mas então o pai do (falecido?) menino meteu a mão na cara dela, e, chegando bem perto e lhe apontando um dedo na testa, disse – “Nunca mais”. E ficou por isso.

 

 

 

Outono 2016 / Poesia com gente dentro

Eduardo Laurent

Nome: Eduardo Chaves Laurent
Idade: 30
Amigos: 14
Inimigos: 1
Religião: Capitalista
Posicionamento político: Cristão
Cor: Azul
Alma: Velha
Corpo: Delgado
Mão e pé: Canhoto
Ano preferido: 2022
Trabalho: ctrl + alt + del
Animal preferido: Abelha
Instrumento principal: Voz
Segredo: Não compra
Sonho: Não vende
Mistério: Cor
Válvula de escape: Religião
Vacinas: 19
Implantes: Nenhum
Fonte de energia elétrica: Não-sustentável
Gambás no forro: Às vezes
Já viu a Estrela: Sim
Pactos: Nenhum
Gosta de prazer: Sim
Gosta de dor: Não
Gosta de batata: Sim
Gosta de estudar: Sim
Homicídios: Nenhum
Frase preferida: ॐ भूर्भुवस्वः ।
तत् सवितुर्वरेण्यं ।
भर्गो देवस्य धीमहि ।
धियो यो नः प्रचोदयात् ॥
Principais influências literárias no gênero conto: Isaac Singer, Machado de Assis, Anton Tchékhov, Rubem Fonseca, Raymond Carver.
Leitura mais recente: A Revolução dos Bichos (George Orwell)
Bons resultados: Finalista do Prêmio Açorianos de Criação Literária 2013, 2º colocado no Concurso Nacional de Contos de Santo Ângelo, publicado em 10 coletâneas de contos, crônicas e poesias.
Anúncio: Lança seu primeiro livro individual, “Contos Soturnos – Volume I”, na primeira semana de julho, em Porto Alegre, pela Editora Buqui.

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