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Sal

Conto de Fred Kling

Lúcia corta as cenouras. Minuciosa, fatia pedaços com espessuras iguais. Dispensa, portanto, as pontas do vegetal. O ato causa discreto prazer na mulher. Ainda que não perceba, a cor laranja toca na mente a corda de seu casamento, no qual carregou um buquê de crisântemos. Naquele dia, ela foi feliz.

O ensopado de carne que prepara também abre portas na memória. Foi sua mãe quem lhe ensinou a receita. "O estômago é o atalho para o coração do homem", dizia a matriarca da família. O prato chamou a atenção de um jovem advogado. O marido ainda se lembra da primeira vez em que provou a comida, que então o lembrou do ensopado que sua avó fazia e o tem lembrado desde então. A reincidência da receita na mesa do casal é uma forma de tentar voltar a tempos mais inocentes.

Lúcia corta a carne, faz cubos com o peito do boi. Cozidos na panela de pressão, os pedaços ficam macios. Sua filha nunca gostou do ensopado. Quando menina, era ruim para comer. A mãe cedia, fazia qualquer coisa para que a filha se alimentasse, fosse macarrão, fosse bife com batata frita. Ana cresceu e saiu de casa. É jovem ainda, e talvez fugir de casa descreva melhor o que aconteceu, ainda que não tenha havido nenhuma fuga às escuras, nenhum bilhete de adeus. Ana apenas precisava fugir do apartamento e da relação sufocante com seus pais. Agora, come o ensopado da mãe. As visitas, no entanto, são esparsas. O cheiro do prato infesta a casa, é o odor da infância. Elas não se deram bem durante muito tempo. Ainda que não percebesse, Lúcia invejava a liberdade de Ana. A filha tem a vida pela frente. Voltaram a se entender, a distância constrói pontes. Talvez até se amem.

Enquanto faz a comida, Lúcia gosta de deixar bem abertas as grandes janelas da cozinha. Pica um pouco de salsinha, e olha lá para fora. Tempera a carne e observa rapidamente as luzes dos prédios da cidade; sua cabeça está vazia, mas poderia muito bem estar pensando se em alguma daquelas outras janelas haveria uma mulher como ela, que se entrega a um ritual antigo e que, de tanto ser praticado, já se tornou natural e automático de tal maneira que nem mais pensa no que faz e pode se entregar a um divagar desatento mesmo manuseando uma faca afiada que se movimenta sempre nas fronteiras de uma dor que ela nunca sente, pois o corte nunca vem. Mas ela não pensa em nada. Apenas corta.

Suspira. O peito sobe e desce. Está sozinha. Hoje sua filha não vem. O marido pula de um canal ao outro na sala de televisão, movimento que ela percebe pelas mudanças no nível do volume. Gosta de cozinhar para os outros. Ela é boa nisso. Receber elogios lhe dá prazer. “Como está bonita”, foi o que ela mais ouviu no dia de seu casamento. Durante as refeições, o marido também a elogia -mecanicamente, como o hábito de fazer e comer o ensopado. A filha, quando presente, concorda sem nem saber ao certo com o que está concordando. E assim vão os jantares e os dias.

A mãe lhe ensinou a amassar o alho. É a única coisa que ela mudou na receita. Prefere cortá-lo em finíssimas fatias. O alho se dissolve na comida. Sobra apenas seu aroma, sua essência. A faca tem de estar bem afiada, e o homem na feira sempre deixa o fio cortante como um bisturi. Eles conversam durante o sonoro ritual. O tempo, a cidade, a vizinhança. Amenidades. É na feira que ela compra há anos os ingredientes, sempre nas mesmas barracas.

Ai!

O dedo lateja. Ela olha o sangue que começa a pingar sobre os cubos de carne minuciosamente cortados. Depois do grito, não faz nada. O indicador erguido continua a jorrar o viscoso líquido escuro. A dor faz com que ela mergulhe em um estado de grande autopercepção, como o nadador que vai fundo no mar e percebe o peso do oceano sobre si. Além da ponta de seu dedo, está a frente. Mas agora a frente é menor do que o atrás. Há menos a percorrer do que já foi percorrido.

Abaixa a mão e apoia-se na pia. Os olhos começam a marejar. É a dor, mas não é o dedo. As lágrimas também caem sobre a carne. Mas ela não vê, pois continua a olhar para frente. Tão pouco, agora.
Sente uma súbita saudade do que poderia ter sido. Mas o que poderia ter sido? Não teve vontades, nunca pensou em algo que não fosse isto, ser mãe, ser esposa, ser amiga das esposas dos colegas de seu marido. No entanto, sente a saudade do que poderia ter sido. É a saudade de qualquer coisa que não fosse isto, ainda que não saiba o quê. Respira fundo. Fecha os olhos alagados.

Na escuridão, sente vividamente o sangue pulsando no ritmo das batidas de seu coração. Toda a vida naquela ponta dilacerada. Leva o dedo à boca e o gosto salgado logo envolve sua língua. Está terminando. Os faróis lá fora apontam para todos os lados, não indicam caminhos. Ilhas de luzes inúteis irradiadas por enormes lápides de concreto nos quais as pessoas vão morrendo dia após dia sem se darem conta. O sangue estanca e ela coloca azeite na panela e refoga a cebola e o alho. Acrescenta a carne, os cubos temperados. Mexe até que percam o tom avermelhado. O vinho, então. Coloca as finas rodelas de cenoura e a salsinha. Tampa a panela e espera. Está terminado.

 

 

 

Outono 2016 / Poesia com gente dentro

Fred Kling

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