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Mares do aquário

Poema avulso de Fábio Salem Daie

I
Esquecido com seus pregadores
o varal delata a chuva
que rompeu ( um clarão ) no dia.
Céu de nuvens
que deu as donas às pressas
de lençóis e panos

fantoches da névoa
roída pelo ralo azul
da manhã.

II
A tempestade – sua maquinaria
volumosa e opaca
no telhado
nas folhas –

assalta minha casa
seu rumor imaturo
sem peixes.

III
Que trovão abafado
que pulsões tão pudicas
me acordaram neste quarto
de fantasmagorias
que se revolve no silêncio

baú azul
em que
o anzol
nada
sua mão
aguda

não sei se
merlin
domo o anzol ou
rasga minha boca

quantos tentáculos
guerras e
ossos
(descamo)
nos mares
do aquário.

 

IV
primeiros anos
primeiras horas

dar nome a uma onda
e esperá-la voltar.

 

V
Sobre a pia larga do banheiro
a água seguirá fresca
quando
já não puder
contê-la na concha
das mãos.

Os anos nos invertem os dons
e uma
água clara
nadará
em
mãos turvas.

VI
Um filete de luz no piano.

Ao redor quintais,
ruas, quadras e bairros
sem ruídos.

Quase se pensa
o filete irrompe do piano

larva da música
a ta te ar
o primeiro movimento sobre a cidade.

VII
Com minha xícara de café
me acomodo, inspiro

o ar levemente mais frio
vindo por uma fresta.

“Em vinte montanhas nevadas
só uma coisa se movia:
o olho do melro.”

Recordo Wallace Stevens e
a seguir
me digo (o chão
e os anos

quietos):

– Sou o melro?

VIII
Ainda não me alcançou
aquela hora ( tão hermética e redentora )
do carvão cujo calor
– à sua última gota noturna –
Foi consumido e
num vão de cinzas
não lhe resta senão queimar
esgotar por completo

(todo seu negror
todo seu diamante)

profundo de apocalipses
com visões fulgurantes
num corpo que
se enregela.

 

IX
Esta luz
que agora chega
a meus olhos
através da janela

ilumina a grama pelo leste
dando a todas as hastes uma
face ensombrada

põe calor nos
meus poros
que se abrem
a manhã

seu odor molhado

quanto tempo mais
isto tudo
me verá?

sofrendo esta alegria
banal
quando ergue-se o dia e
o que pensava arruinado em mim
torna a
per fa zer se
mesmo frágil

todos os sangues do corpo –

o tempo suando nas calhas escorrendo
nas cinzas
nos madeirais
na foz da gota que laceia –

e sorrio vagamente
dos meus sentidos
que se alagam
ainda uma vez.

 

 

 

Outono 2016 / Poesia com gente dentro

Fábio Salem Daie

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Raimundo • Nova literatura brasileira

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