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A Ilha dos Degredados

Conto de Giuliana Franco Leal

Oceano Pacífico, junho de 2027

Eu não saberia dizer onde começou a queda. Talvez tenha sido na ascensão. Não é um paradoxo. Eu explico. Preciso explicar, senão enlouqueço. Preciso me lembrar de coisas da vida passada para manter a sanidade. Tudo que faço hoje é para não enlouquecer.

Dizem que quem vive na Ilha dos Degredados enlouquece, ou coisa parecida. Viram animais. Esquecem a linguagem, lembram de uma ou outra palavra solta. Grunhem. São uns desgraçados.

Estou a caminho, mas sei que não vou ficar assim. Não sou como eles, nunca fui. Apenas aconteceram erros. Eu poderia ser útil. Neste navio, que nos leva à ilha – uma grande invenção, mas que não era para mim – quero manter minha dignidade. Eu me agarro à vida civilizada como à única corda que me prende a uma vida com sentido.

Onde foi que tudo começou?

Desde criança, eu estava sempre me preparando para o que o mundo exigia de mim. Eu me preparei tão bem, fiz todas as aulas de informática, li todos os livros sobre como me tornar uma liderança, não faltei à escola. Parecia que estava dando certo.

Escolhi minha carreira entre aquelas que os manuais diziam estar entre as profissões do futuro. Tornei-me especialista em seleção de recursos humanos. Estudei em uma das melhores universidades do ramo. Estagiei desde o primeiro ano do curso e não demorei a me livrar de alguns condicionamentos que tinha, como chamar os ofertantes de habilidades para o mercado de homens e mulheres.

No fundo, o meu trabalho tinha um grande enfoque social. O crescimento da empresa era o crescimento da economia do país e, portanto, beneficiava a todos nós. Fui me tornando cada vez melhor na triagem de ofertantes de habilidades para o mercado, pois eles estavam cada vez em maior número, enquanto os postos de trabalho iam ficando cada vez mais escassos. Era necessária muita habilidade para identificar o perfil desejado pela empresa em meio a tantos ofertantes. Eu sentia a importância do meu trabalho, mas invejava a ocupação dos meus colegas que faziam a engenharia administrativa. Admirava neles a enorme habilidade de enxugar os gastos da empresa, torná-la cada vez mais competitiva, diminuindo seu quadro.

Até que esse quadro diminuiu tanto, que o meu trabalho não foi mais necessário. Manter um posto fixo de analista de seleção de recursos humanos, para selecionar pessoas para os oito postos de trabalho que existiam na empresa, após o enxugamento de 15 mil postos desnecessários? Não fazia sentido.

Não vou descrever a via crucis da busca de outro emprego; é muito maçante. Lembro apenas que era a melhor coisa que eu tinha a fazer. Melhor que ficar em casa, melhor que ir para a rua, para fazer o quê? O que fazer de tanto tempo livre? O que fazer se não há uma meta visível a atingir?

Nessa época, ainda não tinham inventado a solução da Ilha. Especialistas discutiam o que fazer com tantos excedentes populacionais. Apoiei os grupos de extermínio que se formaram extraoficialmente e a quem os poderes oficialmente constituídos fecharam os olhos. Há gente demais nesse mundo, e perigosa! Novos grupos de extermínio formaram-se contra os primeiros e vivemos uma guerra civil. Trancada no meu apartamento, o que eu podia fazer? Lia todas as teorias sobre os excedentes populacionais, para passar o tempo.

Foi aí que conheci a obra do Dr. Allan McGregor. Com argumentos habilmente construídos, ele provava cientificamente que os 98% de inúteis, matando-se entre si e aos outros, por comida e por ódio, em plena luz do sol, atrapalhavam a vida produtiva e pessoal dos 2% da população que construíam a economia do país e, assim, o bem-estar geral da nação. Dos seus argumentos, não me lembro. Há muito tempo tive que vender seus livros para comprar comida.

Lembro também vagamente dos discursos do presidente propondo a formação de um lugar de degredo para todos os inúteis. O presidente discursava e nós, que nos achávamos úteis, embora pouco aproveitados, aclamávamos. A guerra civil piorou quando foi comprada uma ilha no Pacífico, para abrigar essa gentinha.

Houve intelectuais e movimentos sociais que se levantaram contra o que diziam ser uma desumanização das pessoas. Diziam, se bem me lembro, que estavam simplesmente abandonando-as para morrer na ilha. As notícias sobre as primeiras experiências diziam que aqueles bandos se comportavam como animais. Perdiam até a linguagem. Não se organizavam, caçavam e colhiam o que houvesse pela frente, matando uns aos outros por comida. Aqueles bandos, inúteis para o mundo, tinham apenas uma competência trazida da nossa sociedade, que superava até mesmo a original: levavam nosso princípio da concorrência ao seu ponto mais extremo. Acho que era isso que se dizia.

Para não perder a memória intelectual que me distingue dessa gente, desenvolvi o exercício de sempre me lembrar das coisas que conheci quando tinha uma vida decente. Tento fazer isso mesmo nesse navio imundo, mas nem sempre consigo. O mau-cheiro, a dor de cabeça e a fome atrapalham as ideias.

Faz sete dias que estou nesse navio. Vim parar aqui por engano, só pode ser. Não sou inútil como os outros, apenas mal aproveitada. Sempre fui a ainda sou a favor do degredo para os inúteis. Simplesmente não faço parte desse bando. Fui tirada à força do meu apartamento, como os outros, como se fosse um deles, e é o que me dá mais ódio. Foi um engano, mas para quem reclamar, se ninguém ouve ninguém?

Desde que me prenderam no navio que nos leva à Ilha, como no máximo uma vez por dia da ração que o governo cede. Ela é insuficiente e os responsáveis pouco se importam em dividi-la por igual. Distribuem a quem estiver pela frente e só pela força se pode passar na frente dos outros para pegar seu quinhão. Já vemos os primeiros resultados dessa distribuição nas crianças e velhos que estão adoecendo. Eles insistiram em expor sua miséria aos mais saudáveis, chorando, gemendo e desmaiando na frente de todo mundo, mas já conseguimos restringir sua circulação ao porão, à força. Nós, que ainda temos saúde, não somos obrigados a conviver com tanta desgraça. Com isso, a competição pela comida se restringiu aos mais capazes e, com a concorrência menor, alguns conseguiram juntar mais comida para si próprios. Não sou tão forte fisicamente e, com isso, já fiquei dois dias sem comer.

Fico isolada num canto, olhando tudo à minha volta. Gostaria de não dormir, porque todos por aqui são perigosos. Não falo com ninguém, prefiro falar sozinha. Estou muito cansada e algumas ideias me escapam quando tento raciocinar, como faço agora. Tenho sono, muito sono...

Oceano Pacífico, julho de 2027

Tenho dormido muito e quando estou acordada, fico em estado de letargia.

Estou fraca.

Aprendi a caçar ratos. O gosto é ruim, mas seve.

O navio teve problemas, ficou um tempo á deriva, mas dizem que estamos chegando.

Ilha dos Degredados, agosto de 2027

Chegamos. O navio nos abandonou. Caço bichos pequenos. Como frutas. Mas é difícil. Há pouca comida para muita concorrência. Brigo sempre. Apanho. Tenho ódio desses inúteis.

Muita gente nem fala mais. As pessoas aqui grunhem mesmo.

Ilha dos Degredados, agosto de 2028

Fome. Ratões. Comer, comer...Aaaaaaai! Desgraçado! É meu, é meeeuuuuu!

Ilha dos Degredados, outubro de 2029

Ratão, ratão! Iáááááááá...Rrrrrrr....Mmmmmf...

Ilha dos Degredados, janeiro de 2030

Rrrrr...

 

 

 

Outono 2016 / Poesia com gente dentro

Giuliana Franco Leal

Giuliana Franco Leal tem escrito textos de sociologia, crônicas e contos, mas só tinha publicado como socióloga. Formada em Ciências Sociais pela Unicamp, doutora pela mesma universidade e professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem um livro publicado (Exclusão
social e ruptura de laços sociais: análise crítica do debate contemporâneo, pela Editora da
Universidade Federal de Santa Catarina, em 2011), capítulos de livros e alguns artigos sobre desigualdades, laços sociais e outras sociologices. Todos acadêmicos. Os contos e crônicas estavam escondidos no computador. Até agora.

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

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