Início          Edição atual          Edições anteriores          Blog          Corpo editorial          Normas para publicação          Quem somos?          Contato         

 

Irremediável

Conto de Juliana Guida

Foi outro dia mesmo. A última vez que o vi. Passou por aqui rapidinho e prometeu voltar com mais calma.

- Vê sê não some!

- Não sumo não, pode deixar.

Sumiu. Saiu esbaforido e sumiu. O susto foi enorme, principalmente para família. Sofreram um bocado, eu fiquei assim meio que aparvalhado. Na hora não consegui sentir nada, pensei mesmo:

- Mas que diabo, sinta alguma coisa, alguma tristeza! Mas não. Tive até que fingir um tanto, colocando uma cara bem triste quando perguntavam como eu estava.

Continuou assim, eu achava que passava.

No velório foi um suplício, aquele bando de choradeira, aquele bando de histórias, de risadas meio histriônicas e mais choradeira. O morto eu não vi, não gosto de cadáver. Fiquei do lado de fora, tentando me esgueirar dos passantes.

Difícil isso era, conhecia todo mundo ali, desde que me lembro por gente. Quase que cresci na casa de dona Marta. Todo mundo me via ali como um irmão do morto, irritante.

- Não se via um sem o outro!

Estava com uma cara mais velha do que deveria estar essa prima dele, as pernas mais gordas que nunca. Era pequena e corria atrás da gente o dia todo, seguia, tentava espionar.

Nessa hora quis rir, tossi um monte para disfarçar: ela se esticando para pescoçar dentro do barracão do quintal, as perninhas gordas escalando a janela, levamos o maior susto quando começou a gritar, escorregou e meteu o queixo no beiral. Saímos varridos dali o coração disparado. Depois rimos, ela não tinha visto foi nada e o sangue gotejava bonito do seu rostinho incherido.

No cemitério foi uma sorte, tinha um bando de amigos e parentes, todos muito decididos a levar o caixão. Acompanhei na rabeira bem de longe, disfarçando os olhos secos.

Continuou assim, eu achava que passava.

Teve uma vez que me chamou para ir junto para São Paulo, mas não pude. Era verdade que minha mãe estava doente, mas me faltou alguma coisa também. Não gostava de vê-lo ali com seus amigos bacanas, gente que se achava muito sabida, com uns jeitos muito “descolados”.

Um bando de fingidos isso que eram e cansei de repetir. Conheceu esse povo quando foi estudar, continuamos nos falando mais não era mais como antes. Tinha uns amarelos dessa época segurando o caixão, pouco me importa.

Quando voltou quase estreitamos a amizade, mas andava muito mudado, falava esquisito, um dia até bebeu de mais e a coisa quase saiu do controle. Foi por essa época que casou a primeira vez, nem sei com quantas se ajuntou. A pilantra estava ali de braço dado com a dona Marta.

Mulherzinha sem graça nem vergonha, e fui padrinho desta traste, nunca estive tão contrariado numa igreja.

Denunciei mesmo, porque as coisas que ele andava fazendo com aquele pessoal não era direito, andava todo perdido. Não sei se ele chegou a saber, e por isso ficou tanto tempo longe, ou se fui eu que tinha medo que descobrisse que era o cagueta. Mesmo com razão, traição é sempre traição, a pessoa não quer saber se foi ou não pro bem dela. Mudou de novo.
Vez ou outra vou até o cemitério, não casei com ninguém, nem tive mais muitos amigos, vou ao cemitério mais não entro.

O copo que usou ainda está na beirada da mesa, do mesmo jeito. Ele veio, com certeza eu não esperava a visita, depois de tanto tempo, estava lá e falou tanto e parecia quando menino: seus olhos brilhavam e não dava para gente não olhar para ele, estava muito bem, fazia um calor danado, suava um pouco na camisa branca, podiam até dizer que parecia meio fresco, mas duvido que se importasse, tinha um cheiro bom.

Quando estendi a mão me deu um abraço, riu de mim igual quando eramos moleques, me chamou de caso perdido e prometeu voltar logo.

Eu até podia ser, mas sou de um tempo de antigamente, faço também minhas travessuras, mas sou do tempo de antigamente. Dois dias depois fiquei sabendo. As coisas que acontecem, eu estava numa fase tão boa, numa disposição que há tempos não tinha!

Fiquei sabendo e pronto. Não senti nada.

Continuou assim, eu achava que passava.

 

 

 

Outono 2016 / Poesia com gente dentro

Juliana Guida

Juliana Guida, quem escreve esta autobiografia em terceira pessoa, tem trinta anos, é formada em filosofia, atua como educadora e vive em dúvida se é ou não escritora, em toda caso, vez ou outra, escreve.

Blog da autora

titubeios.blogspot.com.br

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

A revista

Edições anteriores

Blog

Corpo editorial

Nossos artistas

Autores (breve)

Colabore com a Raimundo

Normas para publicação

Contato