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Eco do sentido

Coletânea de poemas e ilustrações de Líliam Barros

 

 

Os cheiros e as cores

Para Marcos

 

Eu não vi, não conheci

Apenas soube noticias

Até hoje sinto os cheiros e as cores

Do Tanger

Em Belém do Pará.

 

Ardências distintas e chás

Trocados

As ladeiras de ladrilho

Salamandras e chás

Encontraram sendeiros

Emborrachados

Encantados

Cartografados.

 

Sentidos e encantos

Arte e sociabilidade

Caminharam e se perderam

Do Tanger

A

Belém do Pará.

 

Cheiros e cores. Líliam Barros,2015


* * *

 

Eco do Tanger

Para Marcos

 

Eu canto o Tanger

Como se a ele pertencesse

Suas águas de sal e de sangue

Banham o Marajó

E geram o verde e o luar.

 

Eu canto o Tanger

Num eco do seu canto

Com as areias do deserto

Que rolam gentes, sementes,

Terra, chão

Que banham o Marajó.

 

Eu canto o Tanger

Num eco de além-mar

Na poeira dissipada na floresta

De outras vidas, outros sais,

Outros sangues.

 

É um canto agonizante

De um fio fino quase partido

Tão fino e tão forte

Que viaja pela areia do deserto

Além do oceano

Num canto gritado do Tanger.


 

Eco do Tanger (Ilha do Mosqueiro). Líliam Barros, 2015

 

* * *
 

Olhos pequenos

Para João Rodrigues

 

Pairavam nos cantos que lhes cabiam

Com todas as cores de olhos

Com o peso dessas cores

E a história dessas cores.

 

Olhos pequenos

Num traço comprido esgueiravam a janela

Espraivam-se noutros cantos

Mas sossegavam

O peso era demais!

 

Com faca, peixeira, facão, canivete

Foram rasgados.

 

A luz das cores ofuscava e,

De tempo em tempo,

Como uma torneira que enche um copo

Divisavam-se os contornos

Dos cantos que nunca puderam pairar

Por causa do peso das cores

Da história das cores

E da pequenez dos olhos,

Agora abertos com facas, facões e canivetes.

 

Foi preciso muito sangue das cores para descobrirem que os olhos não eram olhos pequenos.


 

Olhos pequenos. Líliam Barros, 2015


* * *

 

O sopro

Para Rayssa

  

A flor

Num                sopro

Desapareceu

Um sopro contrario de benzimento.

E isso faz tanto tempo.

 

Há outra flor

Que

Deste sopro

Apareceu

Num sopro de benzimento

(Se é que isto é possível)

Na cor da vida

- Mas isso não é sopro, é benzimento!

Disse o sábio bayá.

 

 

Esta flor se move

Pairando no ar.


 

O Sopro. Líliam Barros, 2015.


* * * 

 

Chuva da chegada

Para Leonel Barros

  

Chegamos embaixo de chuva e,

Por causa dela, pairamos um tempo no ar.

Atravessamos uma nuvem de chuva,

Sob as nevoas, quase não se divisavam os rios.

 

Pequenos traços dourados cruzavam o nevoeiro branco

Ao redor da baía do Guajará;

Pouco a pouco o chão sob o céu transformou-se em marrom

Com pequenas ondas salpicadas em respingos.

 

É a chuva das três da tarde, na baía do Guajará.

Para que não restem dúvidas que,

Saudando minha chegada,

Estamos em Belém do Pará.

 

De dentro dos pingos de chuva no vidro,

Lampejos coloridos dissolvem os carros em cores.

Velozes e travados,

Sob o céu de nevoeiro, branco, destridimensionalizado,

Como as noites brancas de Dostoievski.

 

Ao longo da Duque de Caxias, atrás das grades,

Os moradores apreciam,

Embebidos no cheiro de café.

 

A raivosa tormenta.

 

Tormenta aparada pelo vidro do carro,

com suas flechas de água borradas em pequenos lagos que filtram as luzes e as cores dos carros,

E deslocam as dimensões do céu,

Num ambiente quase virtual.

 

De dentro dos pingos de chuva no vidro um mundo transformado desponta.

Explode em cores cinza e branca de chuva,

Lembrando uma ausência vívida.

 

As lentes filtram a luz,

Em pequenos lagos

Como os lagos de chuva no vidro do carro.

 

 

 

 

Outono 2016 / Poesia com gente dentro

Líliam Barros

Etnomusicóloga e pianista da Universidade Federal do Pará. Publicou o livro 21 pela editora Pakatatu, de caráter lítero-imagético-musical. Tem diversas publicações científicas envolvendo livros, capítulos, artigos e produções artísticas. Coordena o Grupo de Pesquisa Música e Identidade na Amazônia e os blogs: Experimentação poética e Música e identidade na Amazônia.

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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