Início          Edição atual          Edições anteriores          Blog          Corpo editorial          Normas para publicação          Quem somos?          Contato         

 

Simpatia

Conto de Maira M. Moura

Bebo chá de gengibre com folha de abacate todos os dias. Ajuda a enxergar melhor os antepassados. Eles me dão conselhos amorosos e contam vexames dos meus pais (principalmente da minha mãe), além de me emprestarem livros realmente, realmente muito bons.

Júlia diz que toda noite de lua cheia faz ensopado de urutau (guardando os olhos para o quindim) que é para ter filhos saudáveis de cabelos prateados. Acho que se ela quer tanto assim um filho, deveria achar um namorado primeiro.

Marcos come ovos crus salpicados com areia não pisada (porque tem medo de ficar esquizofrênico como o pai). Ele tem que viajar para uma praia secreta todo mês e não importa o que eu faça, nunca consente em me levar. Quem sabe depois de nos casarmos.

Minha mãe não dorme sem engolir duas sementes secas. Uma azul, outra vermelha. Faz com que o tempo obedeça a ela. Acho um tanto perigoso mexer com o tempo e sempre tentei alertá-la para o risco que corre. Mas fazer o quê? Ela é minha mãe, senhora de seu próprio tempo muito antes de eu ter unhas nos dedos.

Papai foi quem me ensinou a beber chá. Hoje em dia, ele só bebe chá de camomila do jardim, onde a grama é fertilizada pelas fezes do nosso panda. O nome dele é Panda. Antigamente, ele bebia chá preto-e-branco, que não é exatamente uma esfera yin-yang fumegando em porcelana chinesa (imitação), mas um gole barroso e insípido – um chá de viagem. Papai visitava o Mundo Preto e Branco onde frequentou aulas de idiomas (há turmas para a língua dos pandas, das zebras, das vacas, das orcas, dos pinguins, etc.). Parou no nível Intermediário II de Panda para falantes de Português.

Vovó não tem nenhum chá favorito, ou semente, ou ensopado de aves noturnas. Ela diz que, em sua época, usou pílulas e pedacinhos de papel para entrar em outra frequência com o mundo – isto é, outra versão desse mesmo lugar – espacialmente falando, ela nunca viajou. Também me contou suas experiências com chá de fita cassete e com um pó branco que era basicamente fermento para bolo. Mas era tudo sintético, ela disse, “e custava muito caro, muito caro. Você via isso na própria pele”. Ela disse que, no fim das contas, preferia comer batatas fritas com ketchup e assistir televisão.

 

 

 

Outono 2016 / Poesia com gente dentro

Maira M. Moura

Maira M. Moura, ou Maira Moura, é carioca da zona oeste. Tem um livro de contos publicado em 2015, O jardim animado, pela editora Multifoco. Contribui, sempre com contos, curtos ou longos, para periódicos de literatura, como a revista Subversa e a Coruja: FALe, além de participar de eventos como autora. É tradutora em formação, tendo traduzido poemas para a FLUP 2015. Estudou Letras na UFRJ, onde se graduou em Literaturas de língua portuguesa, concluindo o curso com a monografia “Poe e Pinheiro Chagas: O conto de horror fantástico no oitocentos”. Atualmente é graduanda em Literaturas de língua inglesa na UERJ.

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

A revista

Edições anteriores

Blog

Corpo editorial

Nossos artistas

Autores (breve)

Colabore com a Raimundo

Normas para publicação

Contato