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Ana, ou verão em 4 atos

Conto de Plynio Nava

Periélio

As gotas de água desabavam feito saraivas na praia. Na terra amarela, os pequenos peixes se infiltravam nas poças abertas pelo temporal. O mar parecia um gigante engolindo a imensidão de areia. Eles olhavam para os pés. Curiosos, apalpavam os dedos enrugados. Estavam túrgidos, absolutamente lubrificados pelas águas da primeira chuva de verão.

- Lembra que todo dia era assim?

No horizonte, Beto procurava o trânsito dos barcos. Três pedras abriam lacunas na água.

- Não faz muito tempo.

Naquela cidade estranha, onde o sol fervia impiedoso sobre as costas, ele avistou o mar nos olhos de Ana. E correu, correu no meio da chuva, rosto exposto ao vento. Ela também correu surpresa, dando berros na praia, tentando alcançá-lo. Era como se dissesse:

- Beto, não posso mais seguir.

 

Névoas litorâneas

A maresia invadia a casa. Aquela névoa salgada, que ia destruindo lentamente os móveis, pairava sobre os corpos, depositando nas peles o sal das praias. Em tardes como esta, as brisas saiam do mar trazendo às casas o odor dos peixes. Os ventos, que agitavam as árvores tropicais, suspendiam tempestades de areia até à altura dos prédios.

- Achei que a gente ficasse junto no final da história
- Ela mal começou

Jamais alguém viu Ana chorar. Onde estarão suas lágrimas? Ninguém ousou procurá-las. O inesperado as precederia.

Beto aproxima-se. Observa tudo em volta como se decifrasse a imagem do dia seguinte: paredes úmidas, insetos mortos, a cama sem Ana.

- Deita comigo.

Do lado de fora, o arco-íris é uma mancha sem graça, borrando o previsível céu vespertino. A tarde cai aos poucos. Sobre a nudez dos corpos abraçados, brilha o poente. Eles são os dois jovens mais tristes da cidade.

 

Marés de Sizígia

Quando Ana se foi, as marés avançaram, tragando as poças feitas pela chuva. Resistentes, os fios d’água espreitavam frestas, penetrando o interior das casas.

Naquelas manhãs, não era surpreendente deparar-se à porta com a lentidão das tartarugas ou o odor dos cadáveres de outros bichos arrastados pelas ondas. Os turistas, bobos em calções cáqui e camisas havaianas, deslumbravam-se, rindo em vários sotaques, como é comum aos personagens surpreendidos por um fenômeno. A Beto e aos moradores, porém, tudo seguiu igual, segundo a influência lunar que orientava o fluxo das marés.

Os dias trouxeram débitos, dores no corpo, vapores da praia. Mas não trouxeram Ana. Inutilmente procurou-a em outros corpos, tateando peles, esquadrinhando marcas. Nenhum estigma forjado sobre os músculos; nenhum sinal no melancólico avanço das águas. Beto olhava para os peixes que se debatiam no chão repleto de caravelas. De olhos fechados, as ondas explodiam em suas entranhas. A imagem de Ana era tão imbatível quanto a profusão de um êxtase. Sobre o corpo sem forças, desembocavam fluidas águas seminais. Beto desaparecia na escuridão. Os fantasmas, finalmente, pareciam dormir.

 

Sol Invictus

Milhares de pássaros chegaram de longe. De outros confins, trouxeram novas paisagens. Com seus raios, costuravam lentamente sobre os céus nublados outro ciclo equatorial. Avançavam famintos, disputando com os gatos os peixes do porto. A cidade, cercada por cadáveres marinhos, recebia as aves para despedir-se dos turistas.

- Nossa – exclamou um dos narigudos para a gorda do quiosque – depois de um tempo, aqui começa a cheirar a lixo.

Uma senhora, que, assim como os outros habitantes, jamais se indispusera com a habitual sucessão de odores da ilha, respondeu-lhe irônica.

- Os hóspedes, assim como os peixes, começam a cheirar mal depois do terceiro dia.

As janelas debatiam-se sob o impulso dos ventos. Denunciavam presenças no sombrio interior dos velhos prédios que dividiam a ilha. Aos poucos, sob o tímido sol matutino, reapareceram velhas personagens, novos biquínis e peles desbotadas. Na extensão da praia, o que restou das poças deu lugar a uma fileira de bundas bronzeadas e panças generosas, debruçadas sobre a areia. Olhos avermelhados exploram corpos em silêncio. Errante, Beto flutua sobre as águas, deixando-se levar pelo monótono trajeto das ondas.

A tarde insiste. Resistem as trepadeiras, abraçadas ao parapeito. Por entre os pés sujos de areia, os sobejos de dias tristes reaparecem sob a luz que atravessa as fendas. Surpreso, Beto abre portas e janelas. Deixa o sol invadir a casa, reverberar sobre aparências rígidas, corpos obscurecidos. Entre garrafas, malhas e vinis encontra uma fita cassete. No velho gravador, por doze minutos intermináveis, ouviu Ana chorar.

 

 

 

Outono 2016 / Poesia com gente dentro

Plynio Nava

Plynio Nava nasceu em Dom Pedro (MA). Graduado em Comunicação Social, atua como jornalista, escrevendo sobre música, cinema e literatura para sites como Rua de Baixo, Scream & Yell e alguns jornais impressos. Pesquisador de cinema, dedica-se aos estudos de pornografia, vanguarda e corpo, realizando eventuais publicações e entrevistas para revistas de cinema. Atualmente, reúne contos para publicação de 11, seu livro de estreia. Mora no Rio de Janeiro, lê David Foster Wallace, Julio Cortázar e Hilda Hilst, ouve PJ Harvey, Iggy Pop e Sonic Youth, toma cerveja nos pés sujos da Praça Mauá. Tem muito sono e dois gatos vira-latas.

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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