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A queda do Carniça (ou notas sobre a violência)

Conto de Vitor Camargo de Melo

O Carniça tinha esse apelido porque era um inútil no campo de futebol. Já carregava o apelido quando chegou no bairro, e se aproveitou dele pra estabelecer o nome por estas bandas. Alguém comentou que o apelido era, na verdade, porque o cara era um carniceiro com os inimigos. Ele nunca corrigiu a informação e as pessoas repetiram isso tantas vezes que virou verdade. O Carniça era mesmo um cara bronco, duro. Do tipo valentão, intimidador. Só que não era o rolo compressor que a gente do bairro pensava. Não que ele não quisesse. Tenho certeza que ele muito gostaria de ser o animal que diziam. Acho mesmo que ele até acreditava ser. Mas eu, que conheci a figura, garanto: não era o caso.

A violência ele tinha, mas faltava inteligência. E a violência, como sabemos, é uma ferramenta perigosa, porque engana o cidadão. Se usada corretamente, pode ser uma arma excelente pra se garantir o poder. Mas pode ser também mera expressão de covardia. Às vezes até de cagaço. O sujeito que escolhe assentar a instituição do seu nome pelo medo não pode ser apenas violento. Tem que ser inteligente o bastante pra saber a diferença entre as duas coisas, a violência com propósito e a covardia. Afinal, sempre vai existir alguém mais forte que você. Se não há outra arma a que recorrer, parceiro, essa é a hora em que você dança. E essa é a história de como o Carniça dançou.

***


"Porra neguinho, roubou esse relógio onde?" O Carniça não era exatamente branco. Mas fazia questão de tratar por neguinho qualquer pessoa do bairro que estivesse mais pra cá na escala de cor do que ele. Pra cá, eu digo, o lado mais escuro. Assim como era gordo, mas ninguém podia comentar o fato, senão ele mesmo.

"Não fode, Carniça. Tu vai querer a parada ou não?"

"Meu irmãozinho, pra começo de conversa, vamos abaixando o tom. Quem manda nesse negócio aqui sou eu." Isso era verdade. "E eu mando nisso aqui desde que você mamava no peito da Dona Ermínia." Isso era mentira. Quando o garoto era pequeno, o Carniça ainda não era ninguém no jogo do bicho. "Então, como sou eu quem tem um negócio pra tocar aqui, e você é o pé rapado vendendo mercadoria duvidosa, você precisa mais de mim do que eu de você." Isso também era verdade. Esse era o Carniça. Sentia constante necessidade de reafirmar sua autoridade. Principalmente por meio de pequenos sermões, que oferecia sempre que se sentia inspirado. O que era bastante frequente. O garoto fechou a cara e esperou por uma decisão que, por puro capricho, tardou a vir.

"Te arranjo trinta mangos nesse relógio."

"Que isso, Carniça, vale uns duzentos e cinquenta na loja!"

"Neguinho, meu preço é esse. O da loja tem nota fiscal, não tem arranhão no vidro, nem na pulseira. E sei lá em que estado anda essa bateria... Não consigo passar isso por mais que cinquenta paus. Ainda tô fazendo um preço camarada pra tu, por respeito à Dona Ermínia, que é como uma mãe pra mim." Dona Ermínia odiava o Carniça. Todo mundo no bairro sabia disso. Provavelmente ele próprio também sabia. Além disso, o cara ia revender a joia por noventa, noventa e cinco pratas, no mínimo, sem muito esforço. Claro que eu não falei nada. Teoricamente, eu estava ali pra aprender.

"Porra, tá bom, vai."

Receptação de coisa roubada não era o único negócio do Carniça. O cara era agiota também, claro. E por estas bandas, naquele tempo, ele tinha uns imóveis ainda. Um depósito de gás, uns quantos apartamentos que ele alugava. Umas casinhas bem detonadas também. É em uma dessas casas que se passou talvez o episódio mais marcante, ao menos pra mim, desse tempo em que eu fui pupilo do Carniça.

Nessa casa morava um senhor, já devia estar chegando nos setenta anos, mais ou menos. Gente boa, o velho Cândido. Era motorista de ambulância aposentado, mas já tinha dirigido tudo que era máquina na vida, feito um sem número de trabalhos escrotos. O velho era querido pelo pessoal da vizinhança, conhecia todo mundo, te tratava sempre com carinho e era bom de papo que só. Normalmente, quem cobrava o aluguel do Seu Cândido era eu. Passava sempre um bom par de horas ouvindo o homem contar suas histórias. A careca sempre reluzente, o bigode branquinho. O velho era aquele tipo de magro forte, já menos vigoroso naquela época, com a saúde começando a dar trabalho demais. Sentava comigo na mesa da cozinha, sempre com um café passado na hora.

Ele também gostava de mim. Vivia me dando conselhos. "Se você passa a vida pisando torto, achando que tá abafando, pode demorar, mas uma hora o salto quebra. E aí já vai ser tarde demais." Ao contrário do que possa parecer, o conselho do velho não era pra que eu andasse reto. Ele não tinha essa babaquice. O conselho era pra eu pisar torto, mas consciente, administrando a resistência do salto. E sempre sabedor que um dia o salto quebra, mesmo se bem cuidado. Nesse dia, o plano B já tem que estar engatilhado, senão você fica desguarnecido. "Porque na hora que a vida te encurrala, quando é pra valer mesmo, é melhor você ter garrafa vazia pra vender, garoto. Senão nego te mastiga sem dó." Era danado o velho Cândido. Mas era ruim de pagar que só. Não por sacanagem, coitado. Mas porque a fase era ruim mesmo. Com as despesas de saúde e sobrevivência, o aluguel era sempre empurrado pra depois. Eu não ligava, mas advertia sempre que o Carniça não estava contente com a situação.

"Vem cá, garoto, dar uma olhada nisso..." Seu Cândido me conduziu até o quintal, onde uma pilha de entulhos parecia ter vida própria, nascendo do concreto do muro e avançando em direção à casa. Conhecendo o Carniça, eu sabia que aquilo já estava ali quando alugou a casa pro velho e nunca resolveu tirar. Colado à parede da sala, um tanque de lavar roupa estava com a pintura descascada. Ao seu pé, uma pilha de baldes com alguns pregadores e um saquinho meio cheio com um pó azul. "Tá vendo aquele monte de madeira ali? Não consigo terminar um armário pra guardar nem o sabão em pó."

"O que tá faltando, Seu Cândido?"

"Além da saúde pra trabalhar, pouca coisa. Mais umas ripas de madeira, um martelo descente, que o meu já deu o que tinha que dar. Uns pregos."

"Vou arranjar um material pro senhor. E uma caçamba pra levar esse entulho."

"Obrigado, garoto."

Fiz o caminho de volta pro escritório do Carniça, que era uma salinha vagabunda no fundo do depósito de gás, imaginando uma proposta pra ajudar o Seu Cândido. Pensei num emprego que o Carniça pudesse arranjar pra ele, pra ajudar no orçamento do velho. Dirigir um caminhão de gás do depósito foi a minha primeira ideia, mas a saúde já não lhe permitia. Trabalhar no balcão de uma das padarias em que o Carniça tinha influência também não era opção pelas horas que teria de passar em pé. No caixa, onde poderia se sentar, complicava mais, porque o velho se embaralhava todo com os números.

Quando cheguei ao escritório, estava convencido de ter encontrado a solução. O Carniça, no entanto, não quis nem saber de me ouvir.

"Aquele velho filho da puta é um folgado!"

"Tá doente, Carniça..."

"Deixa de ser burro, neguinho. Esse vagabundo tá te enrolando. Tá doente porra nenhuma, tá é querendo me passar a perna." Como eu não respondia mais nada, ele resolveu: "Vamos lá nesse desgraçado agora!".

O Carniça não tocou a campainha. Sabia que não funcionava. Também não bateu palmas na frente do portão. Meteu o braço pelo vão da estrutura de ferro e puxou o trinco com força. Depois esmurrou a porta, como se a quisesse pôr abaixo. Seu Cândido veio abrir com uma puta interrogação metida na cara. Nem bem descolou a folha de madeira do batente, o Carniça já espalmou a mão direita no meio da porta e empurrou. Entrou pisando firme e falando alto. Destratou o velho com aquele jeito brucutu e exigiu o valor dos três meses atrasados de aluguel naquela mesma hora. Seu Cândido, que não era homem de alisar muito, respondeu no mesmo tom. Disse que não tinha e, agora, quando tivesse, ia fazer questão de não pagar tão cedo. O Carniça ameaçou parar um caminhão na frente da casa e começar a carregar os móveis e os eletrodomésticos. O velho mandou que ele enfiasse o caminhão no meio do cu.

Com a comunicação já completamente comprometida, o que restava ao brutamontes do Carniça, pra não sair de mãos abanando e ego ferido da contenda, era partir pro campo onde tinha vantagem sobre o velho. O físico. Agarrou Seu Cândido pelo colarinho, mas não percebeu o punho cerrado que se enfiou pelas suas costelas adentro. Antes de se curvar de dor, ainda teve tempo de empurrar o velho pela porta aberta, que dava pro quintal.

O Carniça jurou Seu Cândido de uma morte lenta e dolorosa. Depois, virou as costas e saiu batendo a porta da rua. Quando alcancei seu passo, o olho do Carniça parecia que ia saltar da cara. Dava pra ver as faíscas trepidando por trás da pupila e o sangue corria tão quente que avermelhava a pele oliva do chefe. Andamos de volta pro carro, que estava estacionado a dois quarteirões. A inquietação era evidente, mas o Carniça buscava, sem sucesso, transmitir uma aura serena e tranquila, o que só aumentava nossa agitação.

Mais à frente, vinha na direção contrária um policial militar conhecido. Ele nos avistou e, calmamente, atravessou a rua. Continuou sua caminhada imperturbável pela calçada oposta. O Carniça, que por alguns segundos tinha endurecido, me cutucou as costelas com o cotovelo e disse: "Tá vendo o que é ser respeitado, neguinho?". Depois me jogou um molho de chaves e mandou que eu dirigisse. Tocamos pro depósito de gás.

Eu digo, sem medo de errar, que conhecia aquele policial melhor que o Carniça. E sei que o gesto de atravessar a rua era de desprezo, muito mais que respeito. Eu mesmo já vira o Cabo Paranhos cuspir no chão às costas do Carniça algumas vezes, e sei que morria de vontade de partir a sua cara por causa de uma dívida de jogo que o Carniça fazia questão de esfregar na cara do pai do meganha sempre que tinha a oportunidade. Sei também que ele só não realizava esse sonho porque respeitava os negócios que alguns de seus parceiros de corporação mantinham com o chefe.

Na manhã seguinte, correu aos meus ouvidos a notícia de que Seu Cândido estava no hospital. Quando cheguei ao centro de tratamento intensivo, o velho estava inconsciente, respirando com ajuda dos aparelhos. O Renato, filho do Seu Cândido, me explicou que os médicos identificaram um acidente vascular cerebral. O filho do vizinho, alarmado com o baque que ouviu, encontrara o velho caído no chão do quintal com os músculos contraídos e a boca botando espuma. Havia ainda um hematoma na cabeça, que os médicos não sabiam dizer se era causa ou resultado da convulsão e da queda.

Saí do hospital e fui direto à casa do Seu Cândido. O portão vivia destrancado e, naquele dia, a porta da frente também estava. Uma garrafa de Coca-cola ainda estava aberta em cima da mesa, o prato cheio de comida remexida tinha uma faca apoiada na sua borda de vidro. O garfo sujo estava no chão, próximo da cadeira tombada no limite da porta que separava a sala e o quintal. Quando passei o olho por ali, ainda que não pudesse precisar de que maneira, tive a certeza de que a pilha de entulhos estava diferente. No muro, uma marca de barro, raspada no concerto. Certamente deixada pela sola de um tênis ou sapato de alguém que pulava de dentro pra fora. A casa do lado de lá também era do Carniça, mas estava desocupada há algumas semanas, quando ele expulsou um antigo funcionário. Toquei a campainha do outro vizinho e perguntei pelo moleque que encontrara o velho. A avó do menino atendeu à porta, vestida num camisolão azul. Disse que ele devia estar no fliperama com os meninos da rua.

Ela estava certa. Encontrei o pivete numa máquina de Tekken, dando uma surra em um marmanjo com cara de bobo. Devia ter uns oito ou nove anos. Quando a luta acabou, segurei seu braço e disse que lhe arranjava umas fichas se ele fosse conversar comigo em outro lugar. Quando virou pra mim, arregalou os olhos como se visse a morte e tentou se desvencilhar. Arrastei o moleque até a porta e, já na calçada, ele começou a pedir por favor e dizer que não tinha contado nada pra ninguém.

"Garoto, cala a boca. Foi você que avisou o Renato sobre o Seu Cândido, não foi?"

"Foi, mas não contei nada."

"O que foi que você falou pra ele?"

"Falei nada não!"

"Caralho, moleque, me conta o que foi que aconteceu ontem à noite senão eu te passo aqui mesmo!"

"Eu ouvi um barulho e subi no muro pra ver o que era." Ele começou enquanto algumas lágrimas brotavam. "O velho tava no chão, tremelicando e babando, achei que ia morrer. Aí liguei pro filho dele. Fiquei com o velho até o cara chegar, depois voltei pra casa. Mas não contei nada, eu juro!"

"Você sabe quem eu sou?"

"Sei, porra! Fala pro Carniça que eu não contei nada!"

Eu senti como se uma enorme peça de um quebra-cabeça caísse na minha frente, já encaixada e acabando com o jogo.

"O Carniça quer saber o que você viu exatamente."

"Caralho..." A voz do garoto embargava e as lágrimas começaram a descer.

"Vi o Carniça pulando o muro com um pedaço de pau na mão. Praquela casa vazia do outro lado. Eu não sabia que ele tinha me visto! Mas eu não contei nada! Fala pra ele que eu não contei nada!"

"Escuta aqui, seu moleque, e escuta bem! Para de chorar, que não vai acontecer nada contigo, se você for esperto. Eu vou te dar a grana pra uma Coca-Cola e cinco fichas. Você vai voltar lá pra dentro como se nada tivesse acontecido. E você não vai falar dessa história nunca mais na sua vida! Pra ninguém! Tá entendido?" Ele sacudiu a cabeça rapidamente, pra mostrar que tinha entendido. "Vai, então." eu disse, soltando seu braço. "Não quero saber que você andou falando desse papo nem pra tua mãe, pivete!"

Depois de um mês em coma, o Seu Cândido morreu. O Carniça nunca deu pelo fato. Nunca tocou no assunto. A história era passado pra ele, simplesmente. Mais seis meses correram até o seu último dia de trabalho. Dia sete de dezembro. De saída do depósito de gás naquela noite, ele mandou que eu o deixasse na casa da sua preferida.

Eram três mulheres. Não eram propriamente esposas, nem amantes. O Carniça tinha três mulheres na sua vida ao mesmo tempo. Nunca foi um ponto que ele discutisse muito, não explicava porra nenhuma, se elas sabiam sobre as outras, se não sabiam. Simplesmente tinha as três e ponto. A preferida era a Marlene, uma loira de farmácia exuberante. Vivia de dondoca, bancada pelo Carniça. Cuidava da casa que ele sustentava e vivia na academia. Sua contrapartida era estar sempre disponível quando ele quisesse e não liberar o rabo pra mais ninguém. Não que ela não fizesse. Mas escondia relativamente bem, e o Carniça não parecia ter se tocado ainda.

"Neguinho, eu tô pensando em arrumar outra mulher." Eu sorri em resposta. "É, sabe, pra mim não é difícil. Tá cheio de peixe no oceano. E um peixe grande, feito eu, faz a festa num marzinho feito esse bairro. Olha pra mim! Sempre fui meio feioso. Agora ainda tenho essa barriga, que já tá ficando indecente. Mas o nome do tubarão aqui ainda atrai muita fêmea. Elas batem o olho aqui no papai, no relógio de ouro, nos óculos escuros. Neguinho, eu só não como mais por falta de fôlego. Mas nada que uma azulzinha de vez em quando não resolva."

Eu encostei o carro duas ruas antes da casa da Marlene. Um Chevette bem velho encostou atrás de nós. O Carniça se agitou.

"Que isso, neguinho?"

"Você se esquece, meu caro, que tem sempre um peixe maior por aí. Não importa o tamanho do oceano."

E quando o peixe maior é inteligente, ele não te deixa perceber o ataque até o bote estar concluído. A vida, como a política, é saber a hora certa de puxar o gatilho. Essa é a violência inteligente. Um dos homens desceu pelo lado do carona do Chevette e veio até o carro. Baixei o vidro elétrico, sob o olhar perplexo do Carniça. O homem apoiou os cotovelos no friso que segurava a folha de vidro dentro da lataria e pôs a cabeça no vão da janela.

"Carniça, você conhece o Renato?"

"Que porra é essa, neguinho? Ficou maluco?"

"O Renato é amigo de infância do Cabo Paranhos, que você certamente conhece."

"E daí, caralho?"

"O Renato também é filho do Seu Cândido. Lembra dele? Que alugava uma casa sua há um tempo atrás..."

"Lembro. Morreu o velho, né? Sinto muito, companheiro." O Carniça tentou se mostrar tranquilo. Como eu disse antes, lhe faltava a inteligência até pra perceber quando estava encurralado. Faltavam-lhe recursos. E, como dizia o velho Cândido, quando a vida te encurrala, parceiro, é melhor você ter garrafa vazia pra vender. O Carniça não tinha.

"Você pegou o velho comendo, Carniça. Na mesa, jantando. Por trás, na covardia, Carniça."

Enquanto eu falava, o Renato abriu a porta, meteu a mão no colarinho do chefe e puxou seu corpo gordo pra fora do carro. Eu desliguei o motor, desci e fui ajudar. Tirei a arma da cintura e acertei duas coronhadas na cabeça do gordo. Colocamos o Carniça no banco de trás do Chevette enquanto ele ainda estava meio grogue. No caminho, o Renato amarrou os seus braços e as suas pernas com uma corda. Eu, sentado no banco do carona, explicava a situação pro Carniça.

"O Cabo Paranhos e eu" comecei, com um tapa de leve no ombro do motorista do Chevette, "passamos os últimos meses costurando algumas alterações nos seus negócios. É impressionante como você consegue alimentar o ódio e o nojo nas pessoas. Nenhum dos seus amigos foi contra. Ninguém te suporta mais, meu caro. Eu conversei com o pessoal do bairro, tá todo mundo comigo. O Paranhos conversou na polícia, estão todos com ele. Com você não tem ninguém." O Carniça não parecia acreditar. Com a cara começando a inchar, dos sopapos que o Renato já lhe adiantara, olhava pro homem ao seu lado no banco de trás do carro. "Não, o Renato não está na jogada. Ele está aqui só pela vingança mesmo."

O plano era apagar o Carniça rápido, limpo. E dar um fim nele e no Chevette. Não foi bem assim que aconteceu. O Paranhos e o Renato não contiveram a vontade de baixar umas porradas no velho gordo primeiro. Seguraram o cara uns dois dias num galpão e usaram a criatividade nele. Eu não participei, mas fiquei sabendo que arrancaram os dentes e as unhas com o Carniça ainda vivo e choramingando. Um par de dias depois, a polícia civil encontrou o Chevette todo queimado, com lascas de gordura derretida grudadas no estofado. Mais nada. Quando o pessoal da DP responsável veio conversar com o Paranhos a respeito do carro, ele passou o braço sobre o ombro do agente seu amigo e disse: "Esquece, Jaime. É a Baixada.".

A lei é ter cuidado com a violência. Ela é um meio. Mas não é o único. E não pode ser confundida com um fim. A balança correta entre o ato hostil necessário e o covarde. É isso que destaca o líder do boçal. Não se faz de um homem honesto seu inimigo. Pelo contrário, se faz dele seu amigo. Se ele tiver inimigos, que sejam também seus inimigos. Assim, fica claro que você se associa, faz política. O líder tem companheiros, é membro da comunidade onde ele vive e opera. O líder que se isola é autoritário e prepotente. Não se confia na força sem diplomacia. Violência, por si só, não é política. Quando for a minha cadeira que estiver em jogo, qualquer moleque da nova geração que crescer o olho na minha posição vai ter que saber disso. Vai precisar respeitar seu adversário, porque não vai encontrar tanta moleza como eu.

 

 

 

Outono 2016 / Poesia com gente dentro

Vítor Camargo de Melo

Vitor Camargo de Melo nasceu na Baixada Fluminense em 1987, mas pouco tempo morou no estado do Rio de Janeiro. É antropólogo e mestre em Direitos Humanos e Cidadania pela Universidade de Brasília, cidade onde mora. Mente que não quer viver de escrever. É contista, cronista e roteirista. Trabalha ainda em seu primeiro romance. Mantém o site O Fio da Navalha (ofiodanavalha.com.br), onde escreve frequentemente.
Publicou em 2015 seu primeiro livro de contos, Fratura Exposta, pela Editora Kazuá. Foi finalista do VIII Prêmio UFF de Literatura 2014 em duas categorias: contos e crônicas. Recebeu menção honrosa no VIII Concurso Contos do Tijuco, organizado pela Academia de Letras Artes e Música de Ituiutaba (ALAMI) em 2013. Participou da antologia Contos Perversos, que integra a Coleção Literatura Clandestina, publicada pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores em 2006.

Site do autor

www.ofiodanavalha.com.br

 

 

   

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