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Deixe ser carne

Poema avulso de Anelize Moreira

Deixa o teu corpo
Ser
rio
movimento
companhia nos amanhecimentos de preguiça
esse corpo
que na solidão não se violenta
acorda sem correr no tempo
sente esse arrepio
é a sua presença
chegando pouco a pouco
que custa a acreditar que está de volta
Deixa ele falar a língua dos sutis e carnais
Esse corpo que não é só dor
Não repugne-o, toque-o
Essa voz que não reconheço é sua, não é?
deixe a música sair desse lugar desconhecido
desnudado
Sem ser represa
Ele é só rio
E flui
E dança
venta entre os braços
Levanta essa saia

rodopia

liberta os teus clichês mais perversos
O que desce das tuas entranhas não é mais sangue-cisto

é vida
vibra
Se excita, sente o prazer encarnado
e sorri com os teus pelos, seios, mãos, quadris e vagina
Deixa esse corpo viver, porque a morte

é estar preso

esteja nesse corpo, seja ele
Essa potência, essa fraqueza
Respeite o presente dele, respire
Esse perfume é seu?
Esse corpo se abre em um rasgo de doença
Pequeno
Esse corpo de palavras para que serve?
Essa pele arrancada com faca, agora não é mais lagarta
Quer o casulo apenas para quando se cansar do cheiro das flores
Basta!

Liberte esse corpo do cárcere
das aparências
das ideias
dos caprichos
ergue a saia, mostra a calcinha, o umbigo, vai é tudo seu e para você
ele que mora
dentro e fora
da genética
da ancestralidade
emociona
esse corpo que não se cala, mas que sempre foi surdo ao seus clamores

dance em rodas, deem as mãos
habita o teu deus
o teu sagrado
não verbal
deixe ele falar

parece ridículo assim dançando inteira?
E algemada era mais belo?
gestos, meus, impares, esse tesão irreversível
Delicados, obscenos, generosos
Vem cá...
De olhos fechados é mais fácil?
Tem coisas que nem sei não saber
porque fragmentou esse corpo-espírito e só transcende pra fora dele
ele que é leve, poderia te fazer voar.
Mas para isso, seja carne até o último gozo ou mais um choro
Sente mais um pouco

o seu girar
as suas mãos ciganas
Esse corpo memória
Não precisa ser só sacrifício
Onde tudo é uno
Onde faz chuva, faz sol
Que beleza é esta?
É desprazer com deleite

Cura-te com o excesso, beba mais esse gole de champagne
Mente fique aqui, mas seja consciência, porque eu também habito essa pele
Estou condenada a esse encontro
a fuga não é mais possível
a saúde pode chegar a qualquer momento esteja vestida
ou nua se preferir com seu amado
desmascara essa mente que te enfia farpas todos os dias
sou janela aberta para o mundo
ouço limites e cheiro voos
suas guerras, suas delicadezas

reconexão, redenção, unidade
sem as cegueiras da razão
sou plenamente encarnada neste
corpo-palavra

O chão

é meu céu de rodopios

em flores que eu mesma cultivei.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Anelize Moreira

Anelize Moreira, é formada em jornalismo, atualmente é repórter na Rádio Brasil Atual (98,9FM) e atua com temas voltados aos direitos humanos. Em 2013, recebeu menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos por uma série de reportagens de rádio a respeito de parto humanizado versus a violência no parto. Em 2015, foi agraciada na categoria Rádio na 18ª edição do Prêmio Feac de Jornalismo, que teve como temática “Desenvolvimento do voluntariado e práticas solidárias alteram a realidade social”. Acredita na escrita poética como força curativa, autoconhecimento, partilha e empoderamento. Apaixonada por história de gente é recém- nascida na área literária e por meio dela tem buscado curas-poemas que podem eventualmente estar caídos no chão.

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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