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Corpo no copo

Conto de Ana Rüsche

            - Então, vou te imaginar mais além.

            - Tudo bem. É agora. Venha.

            Venha. O Centauro gargalha e balança a cabeça. Não vou. A ameaça da quentura me asfixia uma vez mais, aquela brasa lá de dentro. Arrefeci. Medo do meus próprios incêndios, de me afogar em fogo e sair galopando noite a dentro uma vez mais. A desistência pelo pavor. Eu era mesmo a mula-sem-cabeça mais estúpida do mundo – e agora o Centauro ria da minha cara – e eu já queria brigar, discutir, contestar, aspiro as ventas cheias de vontades incendiárias. Minhas velhas armas, fogo, fúria e relincho. Só que eu queria experimentar aquilo. Me senti cansada e perdida. Se não mostrasse o fogo, como me respeitaria? Como me levaria a sério? Só que dessa vez eu queria experimentar. E no outro plano, em que tenho duas pernas e dois braços, já tinha tomado a beberagem. Aquilo ia começar a agir. E rápido.

            Bom, eu poderia simplesmente vomitar e acordar mal. Naquele corpo franzino, indefinido, ossudo, esbranquiçado. Numa segunda-feira. Esquecer toda essa bobagem de Mula-sem-cabeça, Centauro, XHX. Corpos dentro do copo. Afinal, nem acreditava muito mesmo. Que eu acessasse a Mula, sim, nisso acredito, pois é algo comum. Basta tomar uma dose de XHX e vrrrrum! Logo quero incendiar o bairro, amedrontar as pessoas que me olham e perguntam quem sou, que nome estranho esse o teu, amedrontar as pessoas que cochicham sobre meu pai velho corrupto, as pessoas que cochichavam sobre minhas calças, minha camiseta. Pra todas essas pessoas julgadoras, tenho a Mula e seu cavalgar até o juízo final. Na Mula, acredito.

            Agora, nessa nova coisa que o Centauro me promete, não sei. Tomei a dose longa que me estendeu. Estávamos ali num hotel perto do Elevado na Santa Cecília. Um hotel para pessoas transarem barato e não se apaixonarem. O Centauro já estava como Centauro e nunca irei descobrir quem é quando tem duas pernas e dois braços. O Centauro jamais se apaixonará por mim porque sua paixão inteira é o XHX. O cara produz o XHX. Elemento de alta periculosidade. Não sei se queria me apaixonar por ele, pelo XHX ou só um rumo na vida. Na dúvida, tomei a dose longa e me deitei, estendi minhas pernas com um pouco de vergonha de minhas roupas, meu tênis.

            Acordamos ali. Juntos. No quarto, mas que parecia um quarto sonhado. Eu-totalmente-Mula. Energizada. Uau! Relinchei. Quase botei fogo no teto. Exibi a crina e a cauda longa. Não era suficiente – sabia que era somente a primeira etapa. Agora vinha a mais complexa. Venha. O Centauro era um cara grosso. De poucas palavras. Esse povo ébrio é dos piores, incendeiam aldeias, passam cavalgando o rastro de destruição. Embora mula, tinha muito medo e frio, empacava. Uma hora, entendi que não era para titubear.

            - Venha.

            Bati um casco no chão. Fui.

   * * *

            - Gente!

            O mais complexo é dizer onde. Agora, o Centauro não me ampara ou responde. Silêncio. Apenas o vento. Tudo havia desaparecido completamente. Ou surgido. Somente percebo um descampado, uma erva rasteira até o final do horizonte, um sol poente ou nascente, a humidade no rosto. Os cheiros são muito nítidos. Como notas. Primeiro a frescura da erva, depois um sopro doce que não sei de onde vem. O profundo cheiro do mato já queimado. Inspiro, adivinhando os cheiros maravilhada.

            Onde é isso? Movo os cascos, dou meia-volta, ao longe, um amontoado de construções. Não faço ideia de onde estou. De como cheguei ali. A sensação era estar em desconexão. Contudo nunca tinha visto tamanha perfeição em um ambiente descontruído. Talvez um programa mais avançado? Novos modelos? Não sei. Mas há uma estranha sensação de pertencimento e me aquieto. Não sinto perigo ou desconforto.

            Hesito em galopar, empaco.

            As pernas. Quando fui me mover, entendo a paralisia: além dos cascos, enxergo... duas mãos brancas! Empino no mais puro terror. Tento me desfazer daquilo, mas as mãos brotavam de meu corpo. Não consigo me desvencilhar das mão. Em aflição, levo-as à cabeça e sinto um embaraçado, uma textura grosseira e longa. Berro. Uma, duas vezes. O barulho é o pior. Ouço um monstro. Um homem sendo torturado. Não consigo me conter, grito, grito. Choro em em convulsões, galopo trôpega.

            A compreensão vem como a tristeza. Em vagas, vagalhões.

            Era uma questão de parar e de me escutar. Eu era o Centauro. Habito seu corpo de homem feito. Urro por sua garganta. Manipulo seus quatro cascos e duas mãos. Estou adentro. Ouço o coração vigoroso. Respiro naquele pulmão gigante. Ergo os braços. Testo os cascos. Passo a mão na umbigo inexistente, lugar em que a pele de homem encontra a pele de cavalo. Arrepio. Passo a mão pelo rosto. Confiro as inscrições tatuadas nos braços. Os cabelos longos e fortes. Uau. Aquilo sim era a Entrada.

            Gargalho e ouço o Centauro. Me irrito – estaria rindo de mim? – lembro do meu eu-mula. Enxergo a Mula em memória. Não mais como em um espelho. Enxergo com a perspectiva dos olhos do Outro. Como o Centauro me via. Uma pivete plena de fogo e força no meio da noite. Desafiadora.

            Paro e fico atônita. Nunca sonhei que alguém poderia me enxergar assim. Com interesse. Com curiosidade. Com admiração. Senti o tesão que isso provocava no meu corpo-centauro. Me arrepiei. É inédito que imaginar que alguém pudesse sentir aquela coisa grossa por mim. Desejo. Tentei apalpar meu novo corpo-centauro e satisfazer aquilo. Um desejo acima do mundo. Por algum motivo, não funcionava, não sabia, não conseguia alcançar o pau gigantesco, aquilo aumentava minha aflição. Relincho e empino procurando soltar fogo das ventas, mas só sai um grito de homem rouco.

            Respiro e imagino o Centauro pela minha imaginação de Mula. Consigo. Como ele era. O Centauro. O coração acelera (meu? Do Centauro?). Os cabelos compridos. As mãos sábias. A boca. E subitamente queria! Tanto. A foda. Aquele ser. Passar noites e noites em claro. Transando até cansar e o desejo brotar de novo. Se foder até as estrelas ficarem pálidas e voltarem a explodir como super-novas. Cavalgar naquele descampado durante o Desejo até o final dos dias.

            A faísca, tão potente quanto passageira, apaga. Começo a me deprimir. Não consigo tocar em ninguém. Não consigo tocar em ninguém. Ninguém me abraça. Tampo as orelhas. Me machuco, mordo a boca. Tento interromper as imagens, o monte de ideia ruim. Uma aflição incomensurável toma conta de meus nervos. Começo a soluçar

            Está tudo bem aí? Ouço claramente o Centauro perguntar.

            Você estava aqui até agora?

            Sim. Você está como, hum, uma espécie de convidada em meu corpo, saca?

            Então, você sabe viu... tudo o que... eu...

            Sim – o Centauro gargalha pela minha boca – Este é meu corpo e “ouço” você me imaginar. E deixei você acessar partes em que te imagino. Na realidade, você foi muito rápida, não achei que ia fazer isso. E para com isso. Essa tua depressão me afeta. Que inferno.

            Você...

            Sim, eu também quero. Foder contigo. Algum dia. Mas não é por isso que te trouxe comigo até aqui. Tem coisas que você precisa entender. Venha.

            A resposta seca me atingiu, aquela rudeza, falta de sensibilidade, humanidade. O fluxo de pensamentos vinha riacho abaixo. Tentei morder o lábio e me concentrar no corpo. O Centauro-eu começa-çamos a galopar. Agora eu-mula fico quieta. Assistindo o corpo-centauro no seu vigor absoluto. Entendo todos os cheiros. A ciência do olfato que nos é negada desde pequena. Navego pelos aromas, ingredientes de remédios, poções, venenos... como o Centauro era sábio! Maravilho-me com seu conhecimento e deixo-me levar, embalada pelo trote. Liberta, feliz. Talvez nunca na vida tenha sentido algo tão bonito antes. Mal o conhecia e o amava profundamente.

            Você vai conhecer outras pessoas assim também. Tem calma, fogosa.

            Ri e era o Centauro quem dava gargalhada. Começo a ter uma crise de riso. Percebi que o Centauro é quem deixava isso acontecer. Nosso desejos fluíam naquele corpo. Não havia disputa, somente uma autorização.

            Entendeu o perigo?

            Qual perigo?

            Alguém dominar teu corpo, mula. Imagina o inverso. Eu entrar em você. E assumir o controle.

            Começo a imaginar algo muito ruim e a vista turva. Fantasias de violência. Cores vermelhas. Uma barra de ferro. Urro.

            Ei, por favor, está tudo bem. Você não vai deixar acontecer isso. Você é uma pessoa esperta e sabe se cuidar.

            Desculpa.

            Por isso venho até aqui neste descampado. É sempre assim a primeira vez.

            Você faz isso com muita gente?

            Com muita gente. E me arrependo às vezes.

            Sinto uma onda escura pelo corpo. Seria ciúmes? Ódio de ser a uma de muitas? Raiva da diferença entre saberes? O que ele poderia fazer efetivamente? O Centauro se achava tanto. Idiota, exibido, cretino.

            Calma. Você não pode evocar a Mula no meu corpo. O máximo que vai acontecer é eu morrer com algum ataque cardíaco.

            O Centauro estacou. Respirou fundo. Fez um coque nos cabelos. O coração se tranquiliza.

            Bom, vamos lá então. A pergunta mais correta é onde. - Tento colaborar:

            Sim, onde estamos? Não conheci nenhum programa assim tão avançado.

 

            Começo a refletir sobre as programações que estudei nas últimas semanas, repasso um a um os códigos. Não, aquilo era uma ilusão total. Nunca tinha visto nada assim. Surpreendente. Quanto não valeria uma simulação dessas no mercado paralelo.

            O Centauro responde mentalmente:

            Você sabe bastante de programação. Excelente. Isso vai nos ajudar. Não sabia que você era capaz de tudo isso. Calma. Não estou te ofendendo. Não se enfureça novamente, desculpa. Isso atrapalha. Só te escolhi, pois senti uma fúria muito limpa e alegre na sua Mula. Isso é raro. E posso imaginar quem te ofereceu o primeiro copo de HXH.

            Você sabe? Imagino a história do Sem-Nome de forma clara. Para explicar ao Centauro o que se passou. Sinto que o Centauro compreende toda a narrativa. E isso se passou num milésimo de pensamento.

            É maravilhoso conversar assim.

            Hahá. Você não viu nada. Vamos, tenho que te explicar tudo. Não temos muito tempo.

            Noto alguma urgência passando pelo coração, pela corrente sanguínea. Tento me concentrar, sei que isso iria atrapalhar ambos. Acho que me apaixonei, concluí. O Centauro entendeu e não fez nenhuma objeção. Acolheu a informação. Como é bonito alguém acolher este sentimento, sem rejeitar, penso. Logo soube que o Centauro não é apaixonado por mim. É outra coisa. Um interesse quase estratégico. Passando por um desejo simples. Não doeu. Não fico infeliz. Até ao contrário. Me sinto bem, o prazer de respirar e sentir cheiros que em outros corpor não sentia, habitar um corpo são, livre de remédios e depressões, vigoroso. Amoroso se não fosse tão ranzinza.

            Como percebi que o Centauro iria se irritar com aquele fluxo ininterrupto de pensamentos, logo procurei me focar:

            Para onde vamos?

            Centauro não respondeu, mas percebi que o Acampamento o chamava. Galopava sereno, resignado em aguentar aquele grilo falante dentro da cabeça. Mais calma, explorando as possibilidades de estar no corpo-outro, descobri que o Centauro tinha comido muito no almoço e isso impunha um ritmo mais lento. Estávamos os dois sonolentos. Pedi desculpas pela intromissão, que foram aceitas.

            O Centauro ainda pensou alto no seu humor rasteiro:

            Ainda vai chegar a hora de você cagar por mim.

            A gente riu pra valer.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Ana Rüsche

Ana Rüsche, São Paulo, 1979. Escreve poesia e prosa, possui 5 livros publicados e ganhou alguns prêmios legais, como ProaC do Governo do Estado de São Paulo. Com bacharelado em Direito e Letras pela USP, é doutora em Estudos Literários e Linguísticos em Inglês pela FFLCH-USP com a tese "Utopia, feminismo e resignação em The left hand of darkness e The handmaid's tale". Gosta de ficção científica, literatura utópica, poesia. Dá aulas de literatura e criação literária em instituições como Casa das Rosas, SESC, bibliotecas públicas e galerias de arte. Cozinha com gosto e também escreve sobre gastronomia. Mora com seu cãozinho Canek.

Obras:
Rasgada (poesia, ed. autora, 2005 e tradução pela Limón Partido, Cidade do México, 2008, trad. Alberto Trejo e Alan Mills)
Sarabanda (poesia, Demônio Negro, 2007; Patuá, 2013)
Acordados (romance, Demônio Negro, 2007)
Nós que adoramos um documentário (poesia, Ourivesaria da Palavra, 2010)
Furiosa (poesia, ed. autora, 2016)

Página da autora

www.anarusche.com - todos os livros estão disponíveis para download gratuito.

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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