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Em defesa da dúvida

Ensaio de Ananda Vargas Hilgert

Tenho escrito sobre feminismo há dois anos e preciso confessar algo importante: eu vivo em dúvida e me sentindo culpada quando não sei me posicionar sobre algum assunto feminista, vivo achando que vai chegar aquele dia em que eu vou saber tudo de feminismo, vou ser aquela feminista maravilhosa, iluminada, lacradora, que ganha 3 mil likes para cada frase que escreve no Facebook; que sabe tudo, tem respostas pra tudo, sabe qual o "lado certo" do feminismo e passa a vida "dando nos dedos" dos outros com grandes frases de efeito, só apontando os erros dessa massa de feminista-esquerdinha-confusa.

Coitada de mim, esse dia não vai chegar nunca. Mas tenho pensando que não quero que ele chegue mesmo. Estou querendo defender aqui algo que me parece fazer falta no mundo: a chance de não saber as coisas, de se deixar ficar em dúvida e saber que existe muito mais do que ser feminista radical ou liberal.

Comecei a pensar mais seriamente sobre isso nos últimos tempos, quando resolvi tentar me posicionar sobre a questão da prostituição, da "PL Gabriela Leite". Comecei a ler muito sobre o assunto, a seguir no Facebook feministas que são contra e a favor, adicionei prostitutas em todas as redes sociais para tentar me aproximar (um pouco, pelo menos) desse mundo do qual sou absurdamente distante.

Há semanas que leio quase todos os dias sobre o assunto. Cada vez eu penso uma coisa. Quando leio um post da Maria Gabriela Saldanha (que eu amo demais), ela me convence de que essa PL só beneficia cafetão, e que prostituição é abuso a serviço do patriarcado. Quando vejo a Clara Averbuck (que adoro também) super amiga da Monique Prada, e leio o que a Monique tem para dizer, penso que essa PL é necessária, e que não posso deixar de lado o que uma prostituta fala sobre a sua própria situação; penso que, de repente, preciso abandonar certos moralismo e aprender de verdade a lidar com a palavra puta.

Estou nessa situação há tempo e não consigo decidir. Queria chegar a uma conclusão para escrever um texto destruidor e dar a palavra final sobre esse assunto. Mas não vai dar. Talvez eu não consiga chegar a uma conclusão porque ela não existe. Talvez a Maria Gabriela e a Monique Prada estejam igualmente certas, talvez a vida seja cheia de paradoxos como esse e é por isso que os filósofos (e o álcool, sejamos sinceros) estão aí para nos ajudar (ou confundir) desde sempre.

Resolvi tentar defender, então, a possibilidade (e a potência) da dúvida, porque o que mais vejo é gente cheia de certeza. A feminista radical tem certeza absoluta de que prostituição é exploração sexual, é mulher como mercadoria. A outra feminista (de outra sei lá qual corrente...) está tão segura que diz até que prostituição é algo empoderador. As duas estão fazendo 30 posts por dia no Facebook, cada uma na sua bolha, com as suas certezas absolutas, só lacrando e ganhando like. Será que é assim tão certo, tão fácil se posicionar sobre um assunto complexo desses?

Outro assunto sobre o qual leio faz muito tempo para tentar escrever é apropriação cultural. Nossa, esse assunto é delicado. Primeiro que sinto que eu sou proibida de falar sobre isso por ser branca. Ok, entendo isso, não precisa ninguém vir correndo me explicar o que é "lugar de fala". Mas me parece estranho alguém ser proibido de falar sobre alguma coisa. Claro que não sou a favor daquele senso comum do discurso de ódio que diz "essa é a minha opinião e só estou usando a minha liberdade de expressão". Mas será que não existe algo entre discurso de ódio e lugar de fala? Será que não existe algo entre "brancas não podem usar turbantes, loiros não podem fazer dreads" e "cada um faz o que quiser com seu corpo, todas as culturas são misturadas, não é opressão é homenagem"?

Ultimamente tem outra "certeza" rolando por aí: peitos de fora na manifestação. Peito de fora é liberdade, é enfrentamento. Não! Peito de fora é só pra ter foto pra punheteiro, é ser puta exatamente como o que o patriarcado quer de nós! Não! Peito de fora é ter o poder de controlar o próprio corpo, é reivindicar poder sobre algo que é nosso! Não! Peito de fora é privilégio de gurias magras e novinhas que só querem biscoito de esquerdomacho amor livre!

Assim a gente pode seguir em quase qualquer discussão levantada especialmente nas redes sociais. Dilma é a melhor presidenta que já existiu! Não, a Dilma quer implementar uma ditadura comunista no país! Anticoncepcional é controle, opressão e coloca toda a responsabilidade da contracepção na mulher! Não, anticoncepcional é uma conquista feminista e representa a liberdade sexual feminina! Pokémon Go está estragando a vida dos jovens, que não pensam em mais nada além do jogo, todos viraram escravos da tecnologia! Não, Pokémon Go é maravilhoso, as pessoas estão saindo para as ruas, estão interagindo, conversando, melhorando as suas relações com as cidades!

Será que não tem nada além dessas "certezas"?

Eu acho que tem sim. E o que tem no meio dessas certezas são as dúvidas. Dúvidas que podem ser produtivas, que podem nos abrir para o diálogo, que podem nos tirar do pedestal-lacrador-ganhador de likes.

Tenho pouquíssimas certezas e ando gostando de conversar com quem está na mesma situação. Com quem toma uma decisão, uma posição, e depois percebe que errou, que não era bem isso, e volta a pensar, a se contestar, a se perguntar "por que eu penso como eu penso? Como posso pensar diferente do que eu penso?". O exemplo recente de Joanna Maranhão nos mostra isso: com o intuito de difamar a imagem dela, alguns haters desenterraram tweets antigos, em que ela escreveu algo preconceituoso, tentando mostrar com isso como ela é hipócrita. Joanna simplesmente respondeu dizendo que mudou. Ficar em dúvida e se questionar é o que faz a gente mudar, e não tem coisa mais legal nessa vida do que mudar, transformar-se, ver-se outro.

Todos os dias leio um post no Facebook de alguém que sabe o jeito certo de "militar". Normalmente alguém que "milita" desde os 12 anos, que praticamente nasceu dentro de um sindicato ou movimento feminista. Que bom pra você, companheiro e companheira, por você ser tão politizado há tantos anos. Mas você se pergunta sobre as suas certezas? Ou só fica no seu pedestal de militante experiente julgando "os errados"?

Antes que me acusem de "pessoa que não se posiciona", ficar em dúvida e se questionar é bem diferente de ficar em cima do muro, ok? Ficar em cima do muro, pra mim, é tão vazio quanto ter certezas absolutas. Não se trata de não se posicionar e ficar nos muros, mas de quebrar todos eles!

Não sei não, mas acho que alguém experiente é quem se pergunta algo novo todos os dias, que percebe que não sabe nada ainda e nunca vai saber. Quero mais gente cheia de dúvida na minha volta, e menos certezas totalitaristas.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Ananda Vargas Hilgert

Ananda Vargas Hilgert é mestre e doutoranda em Educação e graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Além de experiência com o ensino de português, trabalhou com o ensino de literatura e cinema brasileiro para estrangeiros, elaborando sua dissertação de Mestrado sobre as relações entre alteridade, educação e cinema. Atualmente, realiza sua pesquisa de doutorado sobre temáticas relacionadas à memória, juventude e tecnologia, com um viés voltado à filosofia da educação. Suas áreas de interesse estão relacionadas aos estudos de arte, cinema, comunicação, tecnologias, educação, ética e estética. Além disso, é coautora do blog Era uma vez outra mulher.

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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