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Sol de Coyoacán

Coletânea de poemas de Bárbara Lia

 

Ela e a Tela; A Tela é ela

Em uma mulher livre
Sobrancelhas são gaivotas
Sua roupa tem a cor vinho
De um Banquete inesquecível
Rastros do “Amor” de Diotima

Em uma mulher livre
Uma nuvem pequena
Tem o mesmo peso
De um mar rancoroso
Debruado escuro
Contorcendo dor
Que pode ser do corpo
Ou do espírito

Em uma mulher livre
A agonia líquida
Escorre
Percorre
E sempre morre
Aos pés do ontem

Em uma mulher livre
Ninguém penetra
Sem saber a senha
E só sabe a senha
Quem penetra o círculo
O círculo de fogo
De quem já viveu em dobro
Amou em dobro
Sangrou retalhos de nãos
E costurou o coração
Com a mão esquerda
Enquanto a mão direita
Estancava o sangue

Em uma mulher livre
O olhar sempre é triste
Talvez por trazer a certeza
De que uma mulher livre
É coisa que quase não existe

* * *

 

À sombra dos murais em flor

(Cravos na pele
os seios
a coluna jônica
a pele tolteca
os pregos
os pregos
via-crúcis
expiação)

Pinto em palavras
A tua dor.
Sonho teus sonhos.
Vivo os maremotos sutis.
As espinhosas horas
Que nos traz o amor.

Pinto girassóis de aço.
Espumas.
Estrelas.
Vou colorindo
Com vulcânicos
Abraços
A solene tela
(Riso-sol de meu Diego,
À sombra
Dos murais em flor)
 

* * *

Frida inventou um novo verbo para dizer: eu te amo
- Yo te cielo -
Rimbaud queria reinventar o amor
- L'amour est à réinventer -
quiçá o paraíso seja - reinventar o amar –
amor não é azul e nem é rosa: é invisível
talvez chegue até nós pela derme, olfato
ou, voz... quiçá não seja nada disto
ele é táctil e quem tateia é a alma
tem o desejo, que confundem com amor
o desejo é o desejo é o desejo
ele é animal, primitivo, eco do grito
que grita em outro corpo...
é o inominável
fica entre amor e desejo
e é a fenda do abismo
cielo de Frida

 

* * *
 

Meu corpo lembra Frida Kahlo. A marca que impede uma alma livre de ser plena, correr ao encontro de tudo. O congelamento do corpo em uma cama, em um espaço cerzido. Ela - Frida - não aceitou e pintou sua realidade com traços de luz/fogo/alfazema/lágrima e amou de um amor irrepreensível e nunca aceitou que o mundo a taxasse de menor ou pequena... Frida sussurra no meu travesseiro a ladainha da rebeldia: Ergue este queixo bonito e pisa as flores da tua escolha, e ama e ama até forjar uma chuva de colibris acima dos abismos. Frida, Frida... Ainda estamos colhendo estas aves azuis com nossas mãos pequenas. Tua liberdade era estrela bastarda - eterna fagulha no céu - eu a agarro como quem monta uma égua dilacerada, pretendendo com ela atravessar a agonia do viver. E quando meu corpo esquece que é teu corpo eu contemplo este duplo meu e a minha voz interior diz claramente - Sou Frida à medula.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Bárbara Lia

Bárbara Lia é poeta e escritora. Nasceu em Assai (PR). Publicou: O sorriso de Leonardo (Kafka), O sal das rosas (Lumme), A última chuva (ME), Solidão Calcinada (Imprensa Oficial do PR) e Respirar (Ed. do autor), entre outros. Integra várias Antologias, entre elas: O Melhor da Festa 3 (Festipoa), Amar - Verbo Atemporal (Rocco), A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua (Maputo). Vive em Curitiba.

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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