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Malditas moedas turquesas

Poema de Beatriz Regina Guimarães Barboza

 

PERTO

eu me sento aqui agora em mais uma noite fria de junho
menos de um suspiro depois de meus vinte e dois anos
porque eu assisti a um filme para dissolver–me novamente
separada da prova do destino por apenas quatro dias
mas era inevitável que nada pudesse apagar o rastro
embora eu tenha chorado por todas as misérias do mundo
e sinta–me inexpugnavelmente irrelevante em impotência
por quase metade das luas que vi cruzar a linha dos astros
e o outro tempo foi de um ranger de dentes trincados
entre um choro engasgado de raiva desespero e culpa
e martírio e suicídio e loucura clamando por redenção
no sorriso sincero sem cinzas de cigarro de uma mulher
em que a desconfiança não encontrasse os fios metálicos
de uma cirurgia plástica feita para encobrir as vítimas
de anos sentindo medo rejeição inadequação estética
deslocamento social inconformidade ideológica e religiosa
que morreriam para salvar um animal uma criança uma mulher
um filho de santo uma lésbica um transexual uma travesti
para proteger as pessoas na boate pulse da treva do trump
os milhares que morrem sem sara kali no mediterrâneo
os jacarés de orlando e o gorila de cincinnati e o touro na norte¬¬–sul
e todas as meninas e mulheres presas no pânico da violação
os professores gays carbonizados num carro na bahia
mais outro massacre de guaranis–kaiowás no mato grosso
todas e todos são sacrificadas pela infinda estupidez humana,
mas eu quis abrir minhas veias e dar meu sangue e meu pulso
porque eu quis dar minha vida em troca de um alento para aqueles
que mais brilhantes conheci e mais loucos e suicidas eram
e tudo que eu sempre pude ofertar foi minha taça cheia do que sou
de meu amor de meu respeito de minha admiração e de minha raiva
porque o melhor de mim foi extraído no martelo da humilhação
e eu aprendi que o amor é conhecer profundamente alguém ao ponto
de poder cuspir–lhe as crueldades mais verdadeiras e não fazê–lo
e ao invés disso vai oferecer seu incomensurável abraço e pranto
derramando–se em lágrimas que formem um rio de amplos fluxos
onde os barcos pudessem cair após um terrível arrastar nas margens
e poderiam seguir menos tempestuosos por outros meandros
e foi na frente de um córrego na beira da grama que eu soube
que você existia e você era alguém que eu poderia conhecer
e no entanto somente após três anos que minha garganta disse
não se acostume que vou dizer poucas vezes mas eu amo você
e agora eu estou aqui e a única foto que eu tenho é daquela tarde
no córrego com meu amigo que também fora seu e nos aproximou
aquela é a única foto que temos e eu choro com as mãos espalmadas
desgostosa com o cheiro de alho que exala por baixo de minhas unhas
que eu sempre ocultei na ânsia de tocar sua pele seu corpo seu rosto
sempre maravilhosa sempre tão admirável você que chamei de astarte
que apareceu em minha vida quando eu praguejava contra as pregas
das roupas que não serviam mais das ideias que caíam pelo tempo
quando eu já me dispersava entre o feminino e o masculino relapsa
desprovida da materialidade das relações além de frágeis referenciais
e com você vislumbrei outra planície de revelação mútua crua
onde somente uma rara e intrincada forma de identificação permitiria
um abrir–se para as monstruosidades interiores que enxergamos inerente
à condição humana quando posta em sua honestidade primordial
e nós nos abraçamos e amamos e desejamos em nossa sombra e luz
mas agora meu estômago arde nos ácidos de uma ulceração nervosa
porque faltou–se com o fundamento mais crucial da confiança
e suas crises contra tudo se assomaram numa criatura incontornável
posta entre nós obrigando–nos a esticar os pescoços afrouxar as mãos
e tenho minhas fibras distendidas num amplexo agonizante de clamor
para que me deixe se não me quer e eu lhe ouço dizer que não é comigo
mas que a vida lhe ensinou a não ceder muralha impenetrável
e você tem me aceitado como nunca houve antes realmente reconheço
e eu como água colido contra as pedras das suas convicções empilhadas
e você me diz frouxamente que é preciso tempo para movê–las
enquanto tomo dois comprimidos de omeprazol neosaldina e chá
e digo que não aguento mais porque as obrigações me corroem
com a consciência da crueldade e catástrofe que é a existência humana
e já destilei lágrimas e sangue até das curvas de meu intestino
e somente espero por sua sentença num estalar de dedos
sem registro

LEJOS

o francês gadjo chorou
escorrendo pela testa
da cigana a cantar-lhe
a música de sua tragédia
enquanto única memória
de seu falecido pai e ela
destituída de teto e terra
gritou sobre as cinzas
de sua vila incendiada,
e ainda na luz andaluza
católicos passam e cospem
sobre as ciganas na rua
descansando de procurar
ramos de eucalipto como arruda
para amaldiçoarem as mãos
dos estrangeiros bem–vindos
que lhes recusarem um euro,
pois as velhas envoltas em lenços
não lembram as belas flamencas
que o som dos violões encantam,
mas são essas que povoam as praças
e afortunadas são aquelas
que vendem leques e castanholas
por dez o que valeria um e cinquenta
prometendo por Jesus serem honestas
créeme que soy evangélica
e nós em espanto vimos que na espanha
essa igreja acolhe os povos esquecidos
enquanto a elite alimenta a semana santa,
embora no brasil massacrem em ódio
os muitos de nossa comunidade;
e é preciso uma família, um colo,
que nos afaste da animalidade
enquanto turistas holandeses
riem das ciganas se ajoelhando
correndo como pombas
quando lhes atiram moedas
como farelo de pão,
o riso maldito dos povos
que têm garantido onde enterrar
seus antepassados,
pois no cemitério de san gabriel
a ala dos evangélicos é mirrada
um bolsão à parte das muralhas
as imponentes gavetas católicas
e ciganos não entram, expulsos
de todo solo em que pisem,
ainda que na free america
vivam em trailers luxuosos
e celebrem em dança seus ritmos,
sua liberdade é comprada
pelo que arrecadam como donos
de circos e parques itinerantes
como toda falsa permissão
concedida às minorias
invejados pelo nomadismo
de nossa raiz primordial
nós os condenamos a fugir
queimando suas tendas
cuspindo em suas roupas
quando até mesmo adictos
recebem pão e agasalhos
e fingimos aceitar na caricatura
da bela e livre dançarina cigana
qual a negra globeleza do carnaval
que brilha no compasso das festas
e morre todo dia como seus iguais
pela mão daqueles que a consomem
contra o retrato de tais quadros
que silenciam o gotejar de seu sangue
e em respeito à sua língua fechada
desvelo as mentiras descabidas
acendendo incensos de canela

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Beatriz Regina Guimarães Barboza

Beatriz (R. G. B.) nasceu em Campinas sob a lua nova do dia 13 de junho de 1994. Traduziu Djuna Barnes na graduação e está a começar com Anne Sexton no mestrado, oferecendo sua voz como mensageira de mulheres. Numa viagem de hiato entre cursos, enxergou seu rumo no correr do Guadalquivir: o abismo secou em cânion de escavações, platôs plutonianos de ebulições salinas; sobem os seres aéreos como os fumos de massala. Publicou seu primeiro livro de poesia pela Editora Urutau, Quartos Esvaziados (2015), e atualmente trabalha na revisão de dois livros encerrados: um de contos, outro de poesia.

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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