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Creisi e Lummy bear

Dois poemas de Carla Diacov

creisi

minha primeira vez no banheiro do CAPS
não vi tranca e acho que não vi mesmo foi a tranca
a trava que não vi
deito-me pela primeira vez no louco mijo
deito-me sobre portos lagos choros
estações
agosto
o mês de sentir ser cão de louco
nunca fui de impedir a ironia na minha loucura
quem sou eu para travar guerra com as portas
com o banheiro do CAPS
agosto com frio e suja
tão suja
de orelhas sujas espalhadas pelo sinal
das visitas
uma namorada e uma minha mãe
bocas cada vez mais precárias
o banheiro pelo amor de deus
deus
uma louca me pediu um beijo de língua
dei intensamente científica amizade
plano de fuga
que tipo de louca eu seria se beijasse uma louca
sem deus no mapa com grades
à porta do banheiro do CAPS
deus está à porta de todos os loucos banheiros
há sempre uma variável disso
claro e dependendo
aquele do beijo
desconfiamos dele
meio barulho penado
mundão de gente num quadrado só de areia na praia
o dia não dura uma onda do CAPS
anote aí
posso afirmar com todos os nós que aqui me dizem
o banheiro dá teto
voar é que não sobra
delibera a porcelana estar trincada
grades e vidro
São Bernardo inteira é de um vidro que conheço há séculos
anote
de dentro há séculos
a trava do banheiro
a trava a tranca
minha vez de gritar coleiras
isto
minha vez de gritar coleiras no banheiro do CAPS
como numa propaganda da saúde
a enfermeira não me pergunta se estou de acordo com
o travesseiro
conforta-te e ponto
o banheiro é logo ali
mas e a tranca?
a loucura
disse
boneca
a loucura é trancada mas vê-se das origens
dois lados um só da tranca
boa noite vem chegando o cowboy das injeções
um beijo de língua afiada
a moça do beijo pedido
anote
um beijo um cobertor e
numa pá de areia mijada
estamos fora da intenção

* * *
 

lummy bear

no banheiro do metrô
sou pequeno antigo homem e lavo
minhas imensas mãos
como quando um toureiro anuncia
estrondosos movimentos e
faz mínima sujeira no ar
faz mínima bondosa cara
tudo pequeninho
imenso lavo
o homem pequeno das minhas porcelanas
enrugadas
uma garotinha no banheiro macho diz
que deste modo das miúdes é que se lava as mãos
me oferece uma goma um urso mínimo
vermelho
diz
antes lave bem essas mãos feias
e lavo
como quando um velho nanico e feio
cheio de ventos arrastados
aceita um doce
no banheiro macho
e volta correr o mundo pelas linhas mais meninas

 

*Os poemas publicados constam no livro A Metáfora mais Gentil do Mundo Gentil, lançado pela Macondo Edições em Agosto de 2016.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Carla Diacov

São Bernardo do Campo, SP, Brasil, 1975. Formada em Teatro. Estreia em livro, além da participação em algumas antologias, com Amanhã Alguém Morre no Samba, (Douda Correria, Portugal, 2015). Tem participação em diversas revistas on-line e impressas. Se atraca com as plásticas o tempo inteiro, movimento que a serve a construir em conjunto de matérias ou que a traz de volta às letras somando algo da extração da borracha. Gosta de abordar o sangue. Tende a ser serial. Publicou o e-book Fazer a Loca pelo selo Ellenismos, com organização e apresentação de Nina Rizzi. Em Agosto de 2016, publicou A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil, (Macondo Edições, Juiz de fora). Em 22 de Setembro vê lançado o primeiro volume de Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse (Douda Correria, Portugal, 2016). Galeria por Sorte Clandestina está no prelo pela Editora Patuá.

Antologias:

70 Poemas para Adorno (coletânea - Festival Literário da Madeira/2015) Editora Nova Delphi

Antologia Poética 29 de Abril, O Verso da Violência/ Editora Patuá (2015)

Contemporâneas - antologia poética pelo selo Vida Secreta (on-line) (2016)

Anamorfoses II - antologia poética organizada por Ana Cristina Joaquim/LUMME EDITOR (2016)

Escriptonita: coletânea/ Editora Patuá (2016)

Página da autora

nichosdamortaquasemenoria

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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