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Panorama e outros poemas

Coletânea de poemas de Clarissa Macedo

Panorama

Em cada paisagem
há uma mulher plena de garganta
que sussurra acordes do espírito:
uma mulher é uma mulher é uma mulher
não é uma rosa
(ou uma ideia de rosa)
não é um homem
é um sabre, um orvalho
átrio preso por 100 bilhões de anos
chave que abriu à força os cadeados.

cosendo a linguagem da existência
e não colchas à costura da máquina,
mortes e fogueiras crucificaram paixões

mas feito redemoinho,
tão violento quanto sereno por dentro,
fazemos gérmen do pó
e desde sempre
parimos a imensidão do mundo.

(Poema presente em Contemporâneas: antologia poética)

* * *

Carta à cria

Se ao filho que nunca terei
fosse dada a poesia
eu lhe diria que não, que nunca;
– a poesia é fardo nas costas
é cena que aparta a terra,
e cumpre o destino
o desejo de crença,
espalhando, sem qualquer decoro, as horas.

A poesia é assombro e conflito
é saber que o mundo corre
sem plenitude ou esboço

A poesia é dor,
faca exigente e determinada.

Se não houvesse a poesia, eu andaria,
iria beber, comer e talvez até fumar e ter uns filhos,
mas só com a poesia eu crio asas.

* * *

Manumitir

Que só as mães merecem respeito,
entendem da vida – cantam.

Como copas de árvores antigas,
em meio ao vermelho de suas duras cascas,
embalam os filhos pela mão
como fossem cartas de respeito
assinaturas de autoridade.

– Como vão os filhos? Para quando há mais?
E estas perguntas ressoam no inteiro universo
como o relâmpago do fim de tempos.

Ventos de revolta (!!).
Estalos na maçaneta da humanidade (!!).

* * *

Que são das mulheres sem mama,
da falta de filhos e da correnteza de receios?

Navalhas que moem a humana carne
(Cortar ou moer, não se sabe o verbo melhor)

A pasta de sangue é já formada
grave matéria de jornais;

os filhos fugiram no ventre
(sem cabeça, os pobres!).

Ecoam grávidas, de teta em punho, matrimoniadas, homens com bonecas; barrigas alugadas.

* * *

Ventos de revolta (!!).

Não se procria como antes
Já não se escorre o bruto em gritos de silêncio
a farfalhar segredos a facas e gangrenas

não, não há filhos.

Não há filhos.

Tomaram a face da rua extrema;
e neste oceano sem peixe
ou encontro de rios,
não há filhos, há trabalhos,
há mundo, há palavras

palavras que são filhos,
filhos que não são parábolas

muitas e grandes.

As mulheres não procriam:
engravidam os maridos

e estes sentem a maldição
inscrita no Éden,
sofrem a violência do parto,
carregam a culpa do enjoo
e o escrúpulo do medo;
o leite vem do falo,
que se abriu em sendas amarelas,
o leite é também amarelo –
como distinguir.

Não há filhos, o que há
– Grita a solvente marcha.

O que há somos nós,
como pomo de insulto
que deitou seu sumo.

Filhos não são armas.
– Somos trigo numa plantação de espelhos,
dizem.
[Agora tomaram ares de marcha os nascentes].

E as mulheres sem eles vivem bem,
tomam do seu próprio leite,
que não é de ervas, nem de pedras,
é do amplo trilho do mundo,
nada de muita coisa
... um trapézio feito de ervilhas.

Não há filhos

o ventre é só teorema,
loja que aluga nutrientes,
antigo e longo dilema,
um livro de letras grossas
e cheio de tempestade –
como doía a queda das águas!
Foi no princípio
na primeira dor
no primeiro rompimento
na primeira criação
no primeiro instante
na milésima nascente
na última Eva.

Não
É
Mais.

(Inéditos)

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Clarissa Macedo

Clarissa Macedo, nascida em Salvador (BA), residente em Feira de Santana (BA), licenciada em Letras Vernáculas, mestra em Literatura e doutoranda em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora, com diversos projetos em andamento, como a tradução de poetas (espanhol/português – português/espanhol). Apresenta-se em eventos pelo Brasil e no exterior (Colômbia, Peru, Cuba), com convites para mais de 18 países. Está presente em dezessete coletâneas, além de diversos blogues, revistas (como a Machado de Assis) e sites. É autora de O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra – 2014) e de Na pata do cavalo há sete abismos (7Letras – Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia – 2014), ambos de poesia. Sua obra está traduzida para o espanhol e em processo de tradução para o inglês. Integra a plataforma do Mapa da Palavra. Apresenta o programa Feira Literária.

Página da autora

clarissammacedo.blogspot.com.br

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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