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A mulher que se escamou

Conto de Caroline Policarpo

Um dia, no banho, ela percebeu escamas na pele. Escamas mesmo, não é modo de falar, não quer dizer apenas aquele enrugar normal da pele molhada. Escamas mesmo. Eram poucas e pequenas, embora muito chamativas por causa da cor, alguma coisa entre verde-claro e amarelo, aquela cor de canetas para destacar texto. Mas apesar dessa cor absolutamente não ignorável ela ignorou as escamas por serem poucas e pequenas, e também por estarem crescendo somente nos pés.

As escamas coçavam, era uma coceira incômoda mas ela não podia coçar. Havia coçado algumas vezes e se ferira porque as escamas eram sensíveis. Além disso, depois de coçar um pouquinho a coceira atingia um nível desesperador.

Não podia mais usar sandálias para sair, só tênis ou sapato fechado. As escamas estavam tomando todo o peito do pé. Mas em casa ficava descalça porque seus pés escamosos se sentiam bem assim.

Não se desesperou quando as escamas tomaram as pernas, os joelhos, as coxas, mas quando as axilas, os ombros e o pescoço se escamaram sentiu medo. Se fosse só da cintura para baixo estaria se tornando uma quase sereia. Poderia andar sempre de calças e fingir que não. Mas com as costas e os braços também escamosos, logo provavelmente o rosto e as mãos, ela só poderia se passar por humana se de calças, mangas compridas, luvas e máscaras, mas seria muito esquisito ir à rua assim.

Não saía mais. Pedia comida pelo delivery, pagava as contas pela internet. Passava a maior parte do dia tomando banhos gelados, mas no começo da tarde, quando o sol entrava pela janela do seu apartamento, se deitava no chão, nua, e se aquecia um pouco.

Essa rotina começou a entediá-la. Nem tinha dinheiro para mantê-la para sempre, agora sem trabalhar, nem suportaria continuar naquele aperto, naquela secura.

Passou a madrugada em pé diante do espelho. A cor amarelo-marcador-de-texto predominava no abdômen e nas pernas, mas também tinha escamas laranjas, arroxeadas e algumas vermelhas. Os cabelos, antes pretos, estavam mudando para um azul escuro.

Não aguentava mais pisar no chão, estava toda escorregadia e deslizante. Tinha que ir embora dali.

Vestiu-se, coisa que não fazia há tempos, cobriu cada centímetro da pele substituída por escamas e ligou para um táxi. Quando o carro chegou, desceu sem levar mala alguma.

Para a praia, disse ao motorista. Estava amanhecendo ainda e o céu tinha uma cor bonita.

Desceu tropeçante do táxi. Era muito difícil ter escamas e precisar usar aquelas roupas e ficar em pé na areia. Felizmente, poucas pessoas na praia àquela hora da manhã. Chegando à parte úmida da areia já arrancou os panos e lançou-se ao mar. Ah, que delícia aquelas águas indo e vindo, massageando seu corpo. Foi nadando, nadando, nadando, nadar não a cansava. Queria chegar a uma ilha, alguma ilha deserta. Não era apenas uma mulher feita peixe, era uma mulher feita anfíbia. Tinha pés e braços, embora escamosos, escamados pés e braços. Precisava de um pouco de terra firme para descansar de sua parte aquática.

 

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Caroline Policarpo

Caroline Policarpo cursa letras, gosta de imaginar outros mundos, de estender mapas sobre o chão e de voar descalça. É fascinada por mapas, calendários, cartas celestes e café. No projeto Autômatos Poéticos, inventou a robô de conversação chamada Inventada. Tem publicações nas revistas Trasgo, Raimundo e Subversa.

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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