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Cadernos berrinenses

Coletânea de nano-contos de Drielle Alarcon

cadernos berrinenses_

a berrini rasgou a cidade e silenciou uma várzea de rio para criar um novo pólo empresarial. com ele, vieram tipos, discursos e imaginários próprios do universo corporativo. e da vivência cotidiana na região, surgiram esses cadernos, dos quais separei algumas notas.

mendel_ enquanto esperava o brotar das ervilhas, mendel visitou sp e pode constatar a diversidade genética das pombas. foi assim que se soube que as pombas do centro têm um dna formado por 70% rato, 20% pomba, 8% varejeira e 2% psyduck, o que explica aquela faixa de brilho verde no pescoço e o andar atordoado; que as pombas de bairro, aquelas que ainda dão bom dia na rua, têm uma composição de 50% pomba, 30% rato, 18% galinha da angola e 2% cabrito, o que explica as pintinhas e a graciosidade dos saltos; e que na berrini, e demais áreas empresariais, elas são feitas de 50% pressa, 30% rato, 10% pomba e 10% de foco na meta, fazendo dessas as pombas com maior tendência a encarar migalhas de pão como o plano free de um serviço que ainda resta saber se é escalável. infelizmente, mendel perdeu suas notas na viagem de volta, ficando conhecido apenas pelo Aa mesmo. coitado.

mountaintop_ quando o empreendedor super motivado chegou ao topo da sua primeira montanha, precisou reafirmar o sentido da meta atingida (que nos salvemos da tal dissonância cognitiva) e decidiu trazer de lá um pedaço do signo em sua língua-mãe. foi assim, por meio de um ato heróico e não por uma ressaca da vila olímpia, que o top chegou à berrini. mas sendo a materialidade da metáfora uma informação privilegiada, o empreendedor foi punido e hoje está atado a um prédio espelhado da avenida, onde toda noite uma reunião de board vem devorar pedaços da sua língua, que volta a crescer durante o dia.

inverno_ na berrini os homens brincam com a macheza no frio, naquele lusco-fusco de contato íntimo e simulação de combate. casaco não é coisa de macho, macho dentre tantas insensibilidades também parece sofrer da térmica. e fico pensando se todas as cidades no círculo polar são viadas. que baladas incríveis devem ter sob aquelas auroras boreais todas.

prioridades_ aquele momento na reunião em que a pauta foi cumprida, os resultados analisados e podemos, finalmente, discutir a disponibilidade de pokémons na região.

lebre-do-ártico_ numa segunda você pode estar sofrendo em uma atividade tediosa e, acidentalmente, cair numa aba com uma lebre-do-ártico. e aí pode pensar nesses bichinhos da tundra que têm as patas traseiras altas, o que lhes empresta um certo ar de canguru ao salto, e as orelhas mais curtas para conservar o calor (todos sabem como um par de orelhas pode causar frio). e, com um pouco de dispersão e fuga das próprias responsabilidades, pode descobrir que as lebritas se vestem de branco no inverno, como se alguém dispusesse miniaturas de lhamas em um congelador, e que se despem num tom de chão-pedra no verão, ganhando um jeito de cervo, ao menos da cintura pra baixo. e talvez a segunda se torne mais agradável, talvez.

 

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Drielle Alarcon

Drielle Alarcon tem bacharelados em Filosofia e em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo. Se interessa pela produção literária e acadêmica de mulheres e da comunidade queer e por iniciativas que tornem as narrativas contra-hegemônicas mais visíveis. Folga em saber que há Telegram e Facebook para a escrita de nanocontos e, atualmente, prepara o seu primeiro livro.

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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