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Editorial: Inverno-Primavera 2016

de Raquel Parrine

 

Remedios Varo / La creación de las aves (1957)

 

Em 2015, a deusa musa Beyoncé lançou seu último disco, Lemonade, com uma performance matadora no superbowl, vestindo um collant que homenageava tanto a Michael Jackson quanto aos panteras negras. Era a primeira vez que a cantora americana se aprofundava nos temas do ativismo feminista negro a que fazia referência desde os seus tempos de Destiny’s Child. O disco é um belo de um soco no estômago. As letras podem ser entendidas em conjunto, enunciando uma filosofia feminista baseada na experiência formadora de meninas e mulheres negras, conectando uma infância violenta e marginalizada com o tema adulto do desprezo sofrido no casamento. Suas músicas descrevem, liricamente, experiências que minam a autoestima do sujeito desde as suas raízes e contaminam cada nível de relacionamento. Beyoncé, ainda que deusa, foi duramente criticada por estar lavando roupa suja em público, o que demonstra que, não importa o quão foda uma mulher seja na vida, vai ter sempre um homem com o dedo na cara dela. Também mostra o nível raso da discussão de gênero quando as pessoas não se dão ao trabalho de efetivamente ler o cânone feminista. Lá nos anos 60, elas já diziam “no âmbito da opressão contra a mulher, o pessoal é político”. Isso há mais de cinquenta anos. Não adianta. Aqui estamos, como num disco riscado, passando pelas mesmas coisas que as nossas mães. Estou lembrando de um texto do Levinas que diz que o fascismo não tem história, ele é sempre no seu eterno renascer, está num eterno presente. Levinas, um machista também.

Lemonade com certeza é um tapa na cara da sociedade. Mas também é um produto midiático de alto valor agregado. Eu acho que uma coisa não necessariamente contradiz a outra, mas a gente precisa enxergar em perspectiva. Enquanto Beyoncé orquestra magistralmente o tema da representatividade, existe uma dimensão que ela não toca. Assim, o disco termina com o single Formation, que dá o tom de conclusão desse arco formativo que as outras músicas desenharam. O clipe é um escândalo, denunciando a violência contra a população negra nos Estados Unidos e abordando outra questão mais sutil, as enchentes na Luisiana, que também impactaram principalmente este setor da população. A marginalização nos afroamericanos faz que eles sejam os maiores ocupantes de regiões das cidades que ficam expostas tanto a catástrofes naturais quanto ao mal planejamento (veja-se a crise de água potável em Flint). Formation, tanto a música e quanto a apresentação no superbowl, sugere que a resistência vem da integração de comunidades e da organização política. Até aí, incrível. E nada do que eu vou dizer em seguida vai mudar o fato de que o pop hoje nos Estados Unidos virou uma página desde Lemonade.

O problema de Formation é o refrão, em que ela repete “I slay” (eu ahazo). Ela diz: I see it, I want it, (...) I dream it, I work hard, I grind 'til I own it” Eu vejo e eu quero/ eu sonho com isso, eu trabalho duro, eu trampo até eu tê-lo”. Aí a bola baixa. Pô, Beyoncé. Então, a forma de superar a opressão de gênero e raça é trabalhar duro até ser rica? É poder aceder a camadas sociais em que seu poder aquisitivo cresce?

Este anti-clímax da música da Beyoncé demonstra o limite de um feminismo baseado na representação. Ou seja. É claro que é importante que uma mulher negra seja a maior estrela pop da atualidade e que os temas específicos da misoginoir estejam em primeiro plano. Da mesma forma que queremos revistas literárias que vão publicar só mulheres. É claro que eu quero ver pessoas reais na televisão, ao invés de bonecas photoshopadas. Tudo isso é importante. Mas, por outro lado, é só a ponta do iceberg. Na minha opinião, o feminismo precisa se entender também como um processo de superação de uma realidade baseada num sistema simbólico, político e econômico que está pautado na exploração das pessoas. Este sistema desenvolveu uma hierarquia de gente durante uns quinhentos anos, e dentro dessa hierarquia existe quem é de boa escravizar e quem não é, quem é de boa ganhar pouco e quem não é, quem é de boa ser traída publicamente mesmo sendo uma popstar e quem não é, quem é que ganha Nobel e quem não ganha etc. Desde os pequenos até os grandes méhs estão conectados nessa rede e essa rede faz um monte de gente ser muito rica. E essa rede também determina quem vive e quem morre, e quem vive como e quem morre como. Quem vira nome de ponte, quem é ensinado na aula de literatura no colégio, quem tem que andar com medo de noite na rua, quem é estuprado por 50 homens, quem mora em região de inundação, quem bebe água contaminada, quem morre de doença curável etc.

É preciso entender que o sucesso do feminismo não é só que a Miss Brasil seja uma mulher negra. [Mas que massa que é isso também!]. É preciso entender que, se o feminismo é levado às últimas consequências, ele quebra o sistema. Representatividade é um grande passo nessa direção – um passo imenso, parece, para a nossa sociedade neanderthal – mas ela é só um passo. Feminismo beyonceano de louvação da meritocracia é uma contradição em termos. Porque se a beyoncé diz “I slay”, ela tem que “slay” alguém, o que significa que a opressão não termina. E eu não quero conquistar o meu empoderamento ao oprimir outra pessoa, não é verdade? E o objetivo do feminismo é.... é... (é...?) a equidade entre os gêneros. Se eu vou conseguir isso oprimindo outra pessoa, cadê a equidade? Em outras palavras, o feminismo quer o final do heteropatriarcado. E o heteropatriarcado moderno se apoia no capitalismo. Portanto, a mulher só vai ganhar a mesma coisa que um homem quando o sistema que lucra com essa disparidade acabar. A mulher só vai deixar de ser humilhada e colocada no seu lugar quando o sistema que lucra com essa humilhação acabar. A travesti só vai ter uma expectativa de vida acima dos 30 anos quando o sistema que lucra com o assassinato em massa de travestis acabar. A mulher negra só vai ser valorizada igualmente quanto uma mulher branca quando o sistema que lucra com a sua desvalorização, criando um contingente imenso de mão de obra barata, acabar. (Não fui eu quem inventou esse argumento. Para ler sobre a criação do heteropatriarcado moderno, ler Silvia Federici, recentemente traduzida pelo coletivo sycorax, e para a contestação do trabalho feminino como meramente “reprodutivo”, ler Gayle Rubin e Christine Delphy).

Mas vamos continuar falando de representatividade, que não é um assunto que eu quero gongar completamente, mas colocar em nuance. Pois bem, recebemos um email muito interessante de uma pessoa que mandou um texto fora do prazo. Eu respondi ao email dela dizendo “querida fulana, muito obrigada pela participação, mas se a gente continuar recebendo texto, a gente nunca vai conseguir terminar de ler”, ao que ela respondeu “mas vocês vão fazer outra revista Raimunda? Porque eu me sinto mais confortável publicando nesse tipo de espaço”. Eu e o Lasevitz pensamos a mesma coisa: mas a gente sempre publica muita mulher na Raimundo! Por que uma mulher se sentiria desconfortável de mandar seus textos para a gente?

Acho que isso se conecta com uma segunda observação. A gente fez uma chamada de textos de mulheres, não exatamente textos sobre mulheres, não é verdade? (Uma distinção que a crítica chilena Nelly Richard faz entre poesia feminina – escrita por mulheres – e escrita feminista – de teor combativo ao patriarcado). Mas, a maioria absoluta dos textos que recebemos foram de mulheres sobre mulheres, o que não é nada óbvio. O que faz uma coisa levar a outra? Um espaço feminino leva diretamente a um espaço feminista?

Daí eu lembrei de um trecho da Introdução do Segundo Sexo. (Aliás, porra, que introdução! Fico pensando se até hoje a gente realmente superou a Beauvoir de verdade. Que mulher foda). Uma das passagens célebres deste texto é que, por muitos séculos, o anônimo era mulher. Ela está falando das escritoras que escrevem com pseudônimos, mas logo vem essa discussão super interessante de que, na filosofia em geral, o “eu” o “ser”, na verdade tem gênero e esse gênero é o masculino. A mulher é o outro, a quem a filosofia nunca se referia. Fiquei pensando o quanto isso ainda é verdade, no caso específico da revista. Quando a gente faz uma chamada pra revista, aceitando todos, estamos nos endereçando a esse ser teoricamente genérico, mas que na história do mundo sempre foi um homem. E, por isso, nossa leitora sente que só tem vontade de participar de uma chamada em que o AAAA está bem claro, marcando o feminino (o que quer que ele seja) em todo o seu esplendor.

Só para terminar ainda com a Beauvoir, a grande lição que ainda estamos aprendendo com O Segundo Sexo é que não existe nada inerente no feminino. A gente não nasce mulher, torna-se. Se, por um lado, isso se refere ao fato de o duplo cromossomo X não nos liga a um destino inescapável de exímias donas de casa, por outro lado, também aponta para um autodescobrimento eterno, uma abertura do feminino às suas possibilidades. O movimento feminista foi culpado muitas vezes, durante a história, de ter excluído certas mulheres do seu ativismo. Mulheres negras e lésbicas lutaram pelo seu espaço nos anos 60, produzindo os melhores, mais cortantes textos, que hoje são fundamentais para a compreensão do que é ser uma mulher – pense no que seria de nós sem bell hooks, Angela Davis e Judith Butler. Mas o feminismo ainda tem uma dívida gigantesca com as mulheres trans. Assistir a uma pessoa como Sylvia Rivera, grande ativista dos direitos queer e pioneira de Stonewall, ter negado o seu espaço de fala, sua contribuição enorme para a história do feminismo, é vergonhoso.

Para concluir, acho importante deixar bem clara a posição dessa revista. Abraçamos a necessidade de representatividade, mas uma representatividade crítica que se apoie numa discussão profunda dos processos que levam à exclusão de mulheres e à violência de gênero. Uma representatividade crítica é capaz de colocar em questão o ativismo que se apoia numa autoestima capitalista, que serve para alçar a si mesma (“I slay”) sem parar para pensar às custas de quem. Este alçamento meritocrático esteve, historicamente, pisando em populações historicamente vulnerabilizadas como mulheres negras, lésbicas butch, bissexuais, pessoas de gênero fluido, transexuais, muçulmanas e travestis. Espero que não mais. Não existe feminismo sem uma crítica radical do que é gênero.

Hoje, vamos celebrar todas nós, as Beyoncés, as Angelas Davis, as Mc Carols, as Judith Butlers, as Sylvia Riveras, as Conceições Evaristos, as Sofias Faveros, as Hilda Hilsts. Beauvoir escreveu O Segundo Sexo se perguntando uma só pergunta: “O que é ser mulher?”. Obrigada a todes por essa jornada que ainda mantém essa pergunta aberta.

Boa leitura!  

 

 

 

Inverno-Primavera 2016

RaimundA

 

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Anael Santalucia

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Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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