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Sobre a confiança

Conto de Giovana Machado

Aos nove anos ela escrevia no caderno uma lista de suas melhores amigas. Aos doze ela achava que todas as pessoas que sorriam para ela eram boas. Aos dezessete jurava de pés juntos que jamais se deixaria enganar. Aos vinte e um perdeu um grande amigo para a morte. Aos vinte e três perdoava qualquer erro, aceitando qualquer desculpa, porque achava que amor e amizade era também saber perdoar. Aos vinte e nove chorava copiosamente maldizendo o universo. Aos trinta e três perdeu dois amigos para a vida. Aos trinta e cinco percebeu que amigo é quem divide momentos com você, em algum momento da sua vida. Aos quarenta tentava se convencer que estar só não é estar mal acompanhada, e afirmava que estar solteira não era opção, ao menos para ela. Aos quarenta e sete resolveu aumentar o número de amigos. Aos quarenta e oito percebeu que não, afinal ser seletivo é sinal de evolução. Mas, deixa eu te contar uma outra história que esta história me lembrou.

Uma aranha vivia debaixo da prateleira do meu banheiro, eu sei porque toda vez que sentava para fazer xixi, enxergava suas longas e finas patas descansando numa teia sem graça. Não era dessas aranhas que fazem teias espetaculares, nem daquelas que matam seus parceiros após um ritual de dança e cópula. Era apenas uma aranha que vivia debaixo da prateleira de um banheiro, com uma teia funcional, em um espaço apropriado aos seus anseios de aranha. Com o tempo percebi que outra aranha chegou e alojou-se ali bem perto dela, uns três palmos de distância e me perguntei se aquilo era longe ou perto demais no achismo de uma aranha. Essa outra também era bem comum, mas claramente de outra espécie, tinha uma coloração mais esfumaçada e era mais corpulenta, de patas mais curtas e grossas. Uma era esbelta e dava longas pernadas elegantes, a outra era robusta e bruta, quando se deslocava pela teia, parecia que o fazia em pulos exatos. Na parte inferior da minha prateleira, havia um micromundo de personagens com oito olhos.

Isso que conto para você é o relato de dias e dias a fio de observação de campo durante os meus xixis. E tive tempo suficiente para perceber o estilo de vida da aranha elegante e, mais tarde, da pequena bruta que chegou e lá se instalou. E posso afirmar que a aranha elegante não era boa com teias artísticas, mas tinha ali o que precisava. Já a aranha bruta tinha uma teia quase imperceptível, e ao chegar mais perto e focar bem a vista, pude ver que sua teia era mesmo um bom trabalho de alinhamentos e simetrias. Muito bem, pensei.

Com o tempo, e em pouco tempo, cerca de uns dois dias, a aranha recém-chegada construiu um puxadinho à sua teia. E fiquei pensando se dois dias no achismo de uma aranha é muito tempo ou quase nada. E, claro que isso importa, porque se dois dias fosse pouco tempo para uma aranha, claramente a aranha elegante poderia se incomodar com a maneira rude e precipitada da aranha bruta e ali acabaria qualquer chance de coexistência e quem sabe de uma amizade duradoura. Uma amizade onde pudessem cumprimentar-se no começo do dia e dizer boa noite em suas línguas de aranhas, poderiam caçar juntas, de repente um trabalho em equipe, uma nova forma de convivência no mundo dos artrópodes, um romance impossível.

A aranha não reagiu à aproximação, parecia não se importar e tocava a vida como mandavam seus instintos. No outro dia, vi que a aranha bruta não só tinha aumentado seus domínios, indo de encontro à outra, como já estava instalada no que antes era a teia da primeira aranha, agora era tudo uma coisa só, era uma só teia, uma só casa. Estrategicamente parada bem no meio da grande teia, parecia até ameaçadora de tão entumecida e petulante de orgulho de suas últimas conquistas. Já a aranha elegante estava onde sempre esteve, no canto da quina entre a prateleira e a parede, parada a observar com oito olhos e pensei sobre quais avisos seus instintos lhe enviavam nesse momento. Meu xixi acabou, a luz do banheiro se apagou, chega por hoje.

Mais um xixi matinal e aquela luz bonita e fresca da manhã iluminava com ênfase minha prateleira, montando quase um palco ou um cenário de final de espetáculo, onde há luz no único personagem que sobreviveu na história.  Analisando a cena do crime mais de perto, pude perceber que a aranha elegante jazia enrolada na teia de sua colega de oito olhos, já dura e sem seu suco vital, era um emaranhado de nada.

Não sei se era covarde demais para enfrentar a invasão da outra ou se era otimista em pensar que ali teria uma companhia, quiçá uma amiga para dividir suas ânsias e ambições de aranha. O que eu sei é que foi convencida, engolida e sugada até a alma e hoje, toda desfeita, é pozinho do/no universo. Que barra.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Giovana Machado

Nascida em São Paulo. Professora. Amante de literatura. Aprendiz de escritora e poeta.

Obras publicadas:

Antologia Mulheres e Meninas - Prosa e Verso da Alma Feminina; Poesia: Salto Alto; Editora Iluminare; Ano: 2015

Revista Subversa, Volume 5 nº1;  Conto: Conserva; Ano: 2016

http://canalsubversa.com/?p=4198

Revista Subversa, Volume 5 nº2; Conto: Bichos de Luz; Ano 2016

http://canalsubversa.com/?p=4269

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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