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Nenhum deles valia a pena de um poema e outros poemas

Coletânea de poemas de Isadora Xavier

#
Eu chorei como se você já estivesse morto.
Sempre chorei como se você já tivesse morrido
um pedaço de braço ou perna perdido que ainda se sente remexer
uma dor fantasma.

Eu não sei o que fazer com essas partes involuntárias
de mim
as partes de onde eu
involuntariamente
vim.

Tentei ajeitá-las todas numa pilha
e devolvê-las todas, porque não eram, não deviam
ser minhas. Devolver tudo isso que você me deu
mas que não é meu
–meus olhos turvos, meu dedos tortos, meu pulmão fraco.
Mas eu não tenho seu endereço
desde já faz muito tempo.
Sem remetê-las, ainda levo,
essas coisas todas,
por aí.

Nasci numa casa
Onde as pessoas eram muito, muito altas
e desajeitadas, as pessoas eram desajeitadas
onde eu nasci.
Como uma girafinha, dig-dig, um pulo, um susto,

um metro

até o chão: eu nasci.

Quando eu caio hoje
eu lembro que muito antes, muito cedo
eu já caí.
Isso me deu umas pernas muito elásticas
de ginasta ucraniana, de boxeador.
Nessa época eu não chorava
você ainda vivia, nessa época, quieto como um pedaço de papel
ou a fumaça de um cigarro.
Eu nunca te escrevi.
Você nunca foi pra mim,
um item novo
mas uma cesta velha
uma cesta muito pequena e puída
para as minhas mãos crescidas.
 

Assim eu choro, hoje, como se você já tivesse ido
e eu mesma tivesse te enterrado
num poema antigo.


* * *

#
Durante o minuto
em que o cheiro dela
- ela tem cheiro de seiva de árvore marroquina -
cujas propriedades cosméticas foram descobertas por uma equipe formada apenas por mulheres -

Durante esse minuto
em que o cheiro da planta magrebina monta seu ataque ensolarado
tirando da completa obscuridade todas, as mais nomádicas mais desnacionalizadas, minhas mais periféricas,
regiões,
eu tomo um susto de tão impossível que é
ser tomada
por esse cheiro, logo agora?
uma garrafa cheia até o talo
de argan, eu pergunto:
vocês todos não estão sentindo esse cheiro?

mas é ela! esse susto é tão assustador
é quase tão bom quanto ruim
ai que dorzinha que morte insuficientemente pequena
essas lembranças em déficit de tato.

Argania alucinógena,

ou então eu estou tendo um AVC.

não sabia que AVC era tão ruim
quanto bom
Não sabia que aneurisma
tinha gosto de orgasmo.

* * *

aparecer offline

O barulho dos carros na L2 norte -
alcança os ouvidos como moscas
alcançam os ouvidos, zunindo, como entomóveis, intrometendo-se
pelas portas entreabertas de um quase sono.
Como se não se saber mosca,
ou não se saber carro na avenida
perdoasse a impolidez
de não deixar alguém em paz -,

como a fronha e a escrivaninha
e as duas chamadas não atendidas
não entendem
que é impossível estar
perfeitamente só
quando estar só
é inevitável.

Fechou-se a janela sobre a noite fria
tarde demais. Estava já algo em mim quebrado,
irrestituível.
Como é terrível, terrível
a noite e todos os programas de TV que ela oferece.

Queria estar só,
mas não consigo.
Pensei se haveria, atrás da cortina,
algo que eu já não tenha visto.
Não poderia explicar o que seria
porque, é claro,
nunca vi, o que quer que seja,
parente de maravilhas e paralelepípedos.

Se alguém me chamasse em uma janela
do msn, agora,
não responderia. Nem abrirei a cortina.
Não há emotícone que represente o que eu sinto
nada para demonstrar o conforto imperfeito
da minha solidão.
Talvez
aquela carinha, a amarela,
com as lágrimas
que aparecem e somem,
e voltam a aparecer
e a sumir,
chegue perto de tudo isso, talvez essa carinha seja o
retrato exato de mim,
presa às possibilidades
de uma janela.
Uma janela para algo distante, distante.

Hoje eu não vou sair.
Estou pequena demais
para a noite lá fora.

* * *

de verão, quase não mais

Não te darei
nada
para acalmar teus braços agitados
nem presença, nem falta.

Nem coisa nenhuma
que trouxe comigo
para esse sofá. Brisa nos cabelos, noite nos olhos.

Nem esse cigarro, queimando
preso pelo v dos dedos
arrumados sobre o braço
e o braço, sobre o joelho

Não os darei, esse
ou qualquer um dos outros
quinze
da carteira.

Nem outras coisas que trago, junto ao cigarro,
apoiadas ao lábio
Não te darei.

Teus olhos e ouvidos,
não os possuirei,
nem em troca de nada.

Empurrei semanas inteiras
com o esforço dos meus braços
até me ver ao teu lado
Aqueles dias todos movidos para o esquecimento -
não esperavas mesmo que eu fosse guardá-los?
Para ti, nenhum dia recente,
nem uns tempos, muito antigos, que eu tenho comigo
não os vou te dar.

As tuas noites,
a tua casa,
tuas garrafas quase vazias
na geladeira
os teus olhos abertos
não pretendo levar, qualquer coisa, quando for.
As tuas costelas, os teus cabelos
o teu pôster do misfits
também vou deixar, satisfeita,
em troca de nada, quando eu for.
Te prometo
que não te entrego,
que tudo deixo, sem que nada ofereças,
e sem que me peças
para ficar.

Sem que percebas
as falhas fortuitas
que provocam
esses anti-saques
em nossas solidões.

* * *

1989

Anteontem me demoliram.

Agora estou há séculos
sem degradar.
Além de tudo,
me acumulo. Impeço como um muro.
Um dia vão me vender
aos pedaços
me pinchar
vão dizer
por que mesmo
e se entediar
e ir embora.

* * *

sonata de outono

Ela cospe fogo e fecha a porta
me deixa
chuva e trovões
filha que sou
de furacão.

* * *

telefone ainda é melhor do que o skype

Vai resolver sua vida,

minha mãe diz, e é assim que a gente se despede

desde sempre.
Agora eu tenho que ir resolver minha vida
minha mãe dizia
e me deixava em casa
resolvendo plantar figurinhas do álbum da Barbie nos vasos da sala, para ver se elas se multiplicavam.

Vim resolver minha vida
aqui nessa página de internet, e em tantas outras.
Minha vida toda, resolvendo-se,
toda vez que eu saio de casa,
ou mesmo apenas indo até a cozinha, pré-aquecendo o forno
a 350 graus.

Outro dia sentei no jardim, li o final de um livro tão triste.

voltei correndo pra casa pra que as babás e os adolescentes matando aula
não vissem que eu chorava.

Depois achei que vi uma amiga de infância no metrô.
Tenho certeza de que era ela.
Fiquei nervosa de tanto que eu sabia.

Quantas mulheres adultas ficam em pé no metrô,
sem segurar em alguma barra
nem se apoiar na porta,
com a postura decidida de uma amiga de infância?
Quantas mulheres adultas ficam em pé no metrô olhando a informação sobre a próxima parada com o olhar de uma amiga de infância?
Quantas mulheres adultas continuam a cortar o cabelo
como quando tinham 7 anos?

Ela me reconheceu também.

não sei como, ou o quanto ainda sou, da amiga de infância que fui
Naquele dia mesmo, precisamente, então.

Tentei fazer desenhos para explicar todas essas coisas,
porque tinha esquecido que poema se escreve.

E foi assim que ela me reconheceu, eu a reconheci, não dissemos nada.
A porta do metrô abriu e fechou, eu fui, ela ficou.
Uma coisa se resolve apenas para fazer com que outra
parte fique agora por resolver.
E algumas coisas ficam figurinhas da Barbie.

* * *

#
mijei por toda paris
todos tipos de banheiro
e até buracos no chão.
uma vez adolescente
escrevi uma ode ao rolo
de papel higiênico.

Rimbaudiana, mas limpinha.

De um verso, todos os poemas. J’ai pissé dans le tout paris.
Paris é uma ideia
que se acende

pelo lado de fora da porta.
Como seus banheiros, dablio-cês, toaletes.

não são qu’armários.
Paris é uma oportunidade

perdida. Bom dia, 20eme arrondissement.
O interruptor é do lado de fora da porta,

mas ninguém mija no escuro. Nenhuma pegadinha

em paris. Nenhuma surpresa.

* * *

#

você é uma lembrança distante
um lugar que nunca conheci
um lugar para onde planejei ir
olhando fotos na internet do lugar que você é
Traçando as rotas que me permitiriam
Mas o mapa era em língua estrangeira
E a escala enganosa
E o 3G buggou na hora de definir o trajeto eu-pontinho azul iridescente
Na falsa terra cor de terra rosa.

Esse era um poema sobre se perder
Mas eu
Escrava cardíaca dos satélites
Não preciso nada conquistar, nem sair de casa.
Esse poema era pra reclamar dos nossos pais e cortar tua carne a golpes de símile

Eu ia te expôr nesse poema

eu ia te expôr nesse poema graças ao emprego de

Símiles

E ao emprego da palavra pequeno burguês

Mas eu não gosto de me perder.
Eu prefiro a familiaridade e estar em casa
Estrangeira em nenhuma parte. é como aquele lugar de que tanto falam nossos pais

para onde eles irão quando estiverem velhos e cansados
não uma cidade de praia ou uma fazenda real
mas a cidade de praia ou a fazenda
do fim dos quarenta anos
quando já cansados mas ainda planejando
nossos pais planejam fugir. Como eu e você planejamos fugir.

essa fuga também uma símile de 3Gs que buggam e rotas não traçadas em pontinhos azuis (que são na verdade algum código secreto entre satélites)

esse poema era pra falar mal das fugas que planejam nossos pais,

mas eu não tenho pai.
Minha mãe não planeja fugas

eu eu só quero voltar pra casa.

BAM!

Espero que você esteja se sentindo totalmente exposto, agora.

 

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Isadora Xavier

Izadora Xavier do Monte já teve vários blogs de poemas. Atualmente faz doutorado em estudos de gênero.

Página da autora

twitter.com/bebelarcher

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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