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Ao despertar já era outra

Não-ficção de Jéssica Menzel

Estava tão em êxtase que poucas lembranças restaram da viagem à Tailândia. Subiu às nove da manhã para o sexto andar e tomou café. Depois desse horário, nenhuma refeição pode ser feita. Já no quarto da clínica, sondas e aparelhos se integram ao corpo de Josi. Com os braços abertos, seus pulsos são amarrados. A enfermeira põe a máscara de oxigênio, e o anestesista pergunta “what’s your name?”. Não teve tempo de responder.

 

* * *

A cirurgia durou em torno de sete horas. “Quando acordei, não sentia nada embaixo, só na cabeça”, lembra. Josi acabava de realizar seu maior sonho: a redesignação sexual (popularmente conhecida como troca de sexo). As dores na cabeça vinham da operação de feminilização facial, que decidiu fazer de última hora quando o médico lhe mostrou algumas diferenças em crânios masculinos e femininos.

“Morfina, por favor. Acordava de madrugada e, please, morfina!”, relembra. Era difícil suportar a dor inicial de transformar o próprio corpo. O pós-operatório são seis dias na cama do hospital, imóvel, com as janelas fechadas para que a luz do sol não marque os pontos no rosto. As enfermeiras entram, trocam a sonda, dão comida, banho, e assim as horas passam. Seis dias com um corpo transformado, sem saber o que a imagem do espelho reflete.

No quarto dia já não aguenta, está em um país desconhecido, sem família e amigos. “Foi ali que eu comecei a pensar sobre diversas coisas. Muitas pessoas vão dizer que o que eu estou fazendo é errado. As pessoas precisam entender que para viver tem que ter diversidade, não só de sexo, mas de cores, de gosto, de tudo”, reconstrói.

É hora de descer. Os médicos fazem testes para ver se é possível retirar a sonda. E Josi está pronta para ir ao quinto andar e descansar em uma suíte. Os movimentos têm de ser calculados nesse estágio da recuperação- as caminhadas precisam ser lentas. Se andar demais, a uretra pode inchar, impossibilitando a saída da urina.

Quando se percebe, já não é mais a mesma. Tirar os curativos é tanto alívio quanto surpresa: “Fiquei bem, mas ao mesmo tempo chocada”. A neovagina – termo utilizado nos livros de Medicina - ainda está inchada e dói muito. Na vagina – o termo que Josi usa - os pontos são internos, não há nenhuma cicatriz.

Oito brasileiras estavam na Tailândia para realizar a mesma cirurgia. Uma delas, de 53 anos, é Paula, arquiteta em São Paulo, riquíssima. Assumiu-se transexual e resolveu fazer a operação. “Por isso que eu digo: nunca é tarde para ser feliz”, compartilha Josi. Outra fazia parte de um casal de transexuais. Sua companheira, que já havia feito antes a operação, viajou junto. As duas realizariam aquilo que entendem ser necessário para completar-se, e assim, ficarem juntas amorosamente. Apesar da tirania dos discursos moralizantes, Josi afirma outro dos aprendizados da jornada: “Esse mundo é um lugar de diversidade”.

No Brasil, a rotina de trabalho no salão de beleza não muda, mas Josi dá sequência aos procedimentos de recuperação. Limpezas diárias com cotonetes molhados no soro fazem parte do processo de cicatrização da vagina. Um mês e meio depois da operação, as percepções já são outras: “Eu acho que teria vergonha de mostrar se tivesse dado errado, se tivesse ficado feio. Mas é uma vagina 100%, já tenho sensação e vontades. Nunca tive sonhos eróticos antes. Depois da cirurgia comecei a ter. Eu sinto que eu estou transando, eu sinto que estou tendo orgasmo, tudo”.

A cirurgia redesenha, estabelece outras possibilidades do corpo para que as vontades do que se deseja possam ser cumpridas. O processo vai para além das mesas de cirurgia, dilatadores de cerâmica fazem parte dos exercícios pós-cirúrgicos. Atos cuidadosos são necessários para que a vagina transformada possa ser bem utilizada. Tanto para o prazer sexual quanto para o funcionamento dos canais urinários. É necessário pôr os objetos dentro do órgão, ajeitá-los; uma atividade fisioterapêutica.

“Eles te dão vários vibradores de cerâmica, e tem que ser desse material para entrar e ficar parado na mesma posição. Tu começa usando o zero, depois o um, o dois, o três, o quatro. Não aumenta o comprimento, mas aumenta a espessura, porque tu tem que ir trabalhando o músculo pra não fechar o canal. É a parte mais cruel. Mas também não é uma coisa para o resto da vida, é temporária. Até três meses”, conta.

Mesmo com as dores e dificuldades, a vontade de Josi foi completamente suprida. “Eles são perfeitos”, afirma. “Seria mais fácil se eu tivesse ido com alguém daqui, amigos, amigas. Teria passado mais rápido. Parece que os dias não passam, mas ao mesmo tempo em que não passam, servem para alguma coisa: reflexão”. Muito mais do que um órgão genital, para ela, parece que todo um futuro é redesenhado. “A coisa mais estranha é que, desde que eu cheguei, parece que as pessoas me olham diferente. Parece que já sabem. E eu me sinto mais confiante, por que vão falar o quê? Qualquer coisa, eu fico pelada e mostro. A confiança que eu tô é 100%. Essa é a diferença”, conta.

O processo ainda não terminou, mas falta pouco para Josi finalmente realizar seus desejos. Se antes se sabia mulher em um corpo que não sentia como seu, agora, a sensação é mais do que se sentir fisicamente, é ter e dar prazer como sempre quis, é ficar nua como sempre quis: “Eu sempre falava que era realizada em tudo, menos no plano sexual. Então não adiantava eu continuar do jeito que tava”.

Antes de embarcar, não sentia medo algum. Lembrava que estava de frente com o que sonhou uma vida inteira. Pensava na maioria das pessoas, felizes do nascimento à morte, dentro da moral e dos bons costumes, e se perguntava: “Imagina tu começar realmente a ser feliz na metade da vida?”

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Jéssica Menzel

Traçar algumas palavras sobre mim é tarefa tão penosa que não é à toa que renego o uso da primeira pessoa sempre que posso. Mas aos 24 anos, tenho sido aprendiz de jornalismo lúdico. Onde o outro é mais interessante do que fórmulas textuais. Não existe texto imparcial e a vida é de quem se expõe.

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Se não podes ver, repara. Reportagem publicada no Jornal da Universidade em 2015 e vencedora do Prêmio Rui Bianchi na categoria Impresso.

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Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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