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A peste ou estratégias arriscadas de marketing

Conto de Julia Raiz

Prontuário em síntese: febre alta; exames de sangue em andamento; alucinações noturnas de caráter zoofílico. Trata-se talvez de aguardada paciente zero da nova patologia que devastará o país nos próximos seis meses. Mulheres com hábitos sexuais duvidosos e filhotes até dois anos serão as vítimas mais frequentes, o que não precisará ser visto de todo mal. As nações afetadas no último verão olharão com inveja os funestos impactos da epidemia do momentum. Seus mortos, coleção passada, não protagonizarão manchetes, campanhas publicitárias ou charges espirituosas, serão antiquados como os tuberculosos. Voltam esses lugarejos para penúltimo ou antepenúltimo no ranking global de saúde pública, caso o censo novamente não alcance a Mauritânia.

No primeiro mês, A Peste de Camus será reeditada em língua local. Todos chorarão pelos personagens mortos como choram pelo menino que aparece na televisão porque perdeu a perna num acidente de ônibus. Poderia ter sido um de nossos filhos, murmurarão as velhas aguando o café. Chorarão ainda mais pelos ratos, os Gaëtan Dugas animais. Começará na cidade o inusitado hábito de adotar roedores como crias domésticas. Os ratos farão ninhos nos fogões, embaixo das geladeiras e nas sapateiras, ainda acostumados a se protegerem da claridade. No segundo ou terceiro mês, escalarão as mesas para compartilhar a hora da refeição em família e defecarão em cima do jornalzinho na varanda. O costume dividirá a opinião das autoridades, posto que a crescente proliferação de pulgas manterá os moradores reféns em suas casas, afetando negativamente o comércio não veterinário.

Ao final do quarto mês, a paciente 1.102 estará com 1,5 cm de dilatação e o feto encaixado. O bebê pesará 13 kg e será composto totalmente de tecido humano. Dará à luz a um pequeno tumor chamado não sei. A verdade é que, a essa altura, ainda não terão decidido o nome. Pensam em homenagear o laboratório responsável pela criação do vírus a partir de experiências transgênicas em mosquitos adultos. Especular-se-á que, mais velhas, as crianças-tumores conviverão em constante disputa com os ratos. Pensarão os adultos ser a contenda por atenção, já que estes não conseguem decidir-se entre a simpatia à própria espécie, por mais irreconhecível que esta se apresente, ou a dedicação dispensada a animaizinhos tão cruelmente dizimados logo nos primeiros capítulos. A questão é sobretudo vital.

As vítimas, impossibilitadas de sair, ligarão diariamente para seus vizinhos para reafirmar os médicos como únicos profissionais relevantes na história das profissões. Porque eles salvam vidas. Mas não todos os médicos. Apenas aqueles que salvam as vidas de outros médicos. Porque assim esses médicos salvos poderão salvar outras vidas médicas. Os vizinhos que serão pais, portanto, ensinarão às crianças-tumores a brincarem de médico com os ratos. Os ratos poderão manusear bisturis contanto que eles sejam de plásticos.

No início do quinto mês, o país ganhará projeção internacional e fundos intergalácticos para compensar a baixa do turismo aos tradicionais mausoléus. Além de inteiros vinte minutos na conferência anual do ITFHE (Internation Found For Health Emergencies) proferidos por uma oradora colegial, cuja origem dos avôs remontarão à pátria infectada. Imagens em sépia mostrarão corpos deformados pela moléstia nos grandes telões. À fala se seguirão os novos compromissos com a agenda ambiental, a serem colocados em prática nos próximos milênios por vir.

Passada euforia natural à fama 5 minutos, a existência voltará a correr em consuetudinário desespero, até que as badaladas de uma meia-noite temida anunciem a entrada do centésimo octogésimo dia. Enquanto as mães abraçam-se aos filhotes na cama, temendo a inevitável volta aos bueiros, os celulares vibrarão em uníssono a mensagem do fim dos tempos: DESCOBERTO O ANTÍDOTO™.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Julia Raiz

Julia Raiz é paulistana e mora há quatro anos em Curitiba, onde se formou mestre em estudos literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e atua como professora de português para estrangeiros. Criou o blog de escrita literária Totem & Pagu, projeto que já rendeu saraus, oficinas e exposição. Tem textos publicados em revistas como Mallarmargens, Germina e Zunái e também participa de projetos de incentivo à escrita e leitura como o Leia Mulheres e o coletivo Marianas.

Página da autora

totemepagu.wordpress.com

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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