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O gordo

Conto de Jessica W. Olivieri

 

Sempre fui gordo. O amigão de todos, o porpeta, o bola oito, o Faustão, o Buda, o boneco Michelin, o Jô Soares, o Fininho, o Bola... o Gordo. Daí o Faustão emagreceu, o Jô dividiu pela metade e, eu, gordo. Nunca me incomodou. Nunca, mesmo. Não entrava nas roupas que ganhava de presente, mas tudo bem. Não namorava, mas as meninas eram minhas amigas. Até a Júlia, por quem nutri uma paixão platônica. De verdade, nunca liguei, nem quando a Jú me pediu dicas para conquistar o Ricardo, meu melhor amigo. Bom para eles, sabe? Sempre pensei positivo. Todo mundo ria das minhas piadas, especialmente as de gordo. Eu era engraçado, bom filho, bom de papo, bom de garfo. Comer era mágico para mim. Não lembro onde foi que eu fiquei hospedado em Tiradentes, mas lembro daquele tutu de feijão como se fosse ontem. Casou meu irmão: zero recordações da festança e se falassem que a noiva usou um vestido roxo, eu acreditaria. Agora, pergunta se me lembro do salmão defumado de entrada? E o risoto de funghi que serviram? Viajei para Paris com a família, era o sonho da minha mãe conhecer o Louvre. Lembro do croissant que comprei antes de entrar no museu e, talvez, da Mona Lisa, pois o croissant tinha terminado, mas inesquecível mesmo foi o jantar depois. Escargots, foie gras, coq au vin com ratatouille, tarte tatin e profiteroles de sobremesa. Impecável. Vamos à festa do Pedro? Vai ter comida? Sempre fui assim. Nunca foi um problema ficar de camiseta na praia, de ser sempre o goleiro na pelada da turma do escritório, de ouvir que gostavam de mim como amigo... longe de mim! Minha identidade era essa, ser gordo. E minha gordice nada mais era que a soma de todos os jantares, todas as memórias, todos aqueles cheiros e gostos – todo aquele prazer. É isso, minha vida era um prazer, nunca pude me queixar. E daí que eu perdi a virgindade com uma puta? E daí que nenhuma mulher me olhava? E daí? Era tranquilo sendo gordo. Um dia fui caminhar num parque perto de casa. Parei para amarrar o tênis, esbaforido, e avistei uma mulher maravilhosa, que não corria, levitava. Saí correndo atrás dela. Subitamente me senti mal. Faltou-me o ar, minha visão se acinzentou, senti pontadas no peito e me joguei ao gramado de dor. O segurança do parque se alarmou, chamou alguém e, quando dei por mim, estava no hospital sendo atendido pelo médico que acabou com a minha vida. Dr. Alberto Shuschodolski. Aos 38 anos tive de ver meu pai chorar ao ouvir que, se eu não emagrecesse 67kg, morreria em um ano. Nestes termos, Dr. Alberto decretou minha morte se o Gordo continuasse ali. Fui internado num Spa e, ironicamente, foi nesse dia que minha vida terminou. Minha vida tornou-se insípida, tal como a sopa de couve-flor que me serviam duas vezes ao dia. Nada tinha sabor, nem a comida, nem os 42 dias que lá fiquei internado. Perdi 12kg, mas conforme consulta com o Dr. Alberto, ainda faltava muito para que eu saísse da chamada "zona de risco". Risco do quê? Ser feliz? Voltei ao trabalho e minha rotina se normalizou, mas fui forçado a fazer uma dieta praticamente líquida, composta essencialmente por algo que se assemelhava a um produto químico com gosto de pêssego mentolado. Era um shake de esgoto com essência de Rivotril, pena não ter o mesmo efeito do remédio. Os dias se passaram comigo tomando isso no lugar do estrogonofe de segunda-feira no Bar do Nonô e eu perdi bastante peso, perdi, também, todo meu senso de humor, meu otimismo, minha vontade de sair da cama. Fui mandado embora do trabalho: chegava tarde todo dia e não tinha energia para produzir mais nada. Melhor assim, minha mãe e o Dr. Alberto concluíram. Eu poderia focar nas minhas dieta e saúde e, depois de perder os 24kg que restavam, voltaria a trabalhar, disseram. Minhas tardes resumiam-se a assistir uma novela qualquer no Vale a Pena Ver de Novo e a beber aquele asco às 13h e depois às 20h novamente. Dormia cedo, logo depois do meu risível jantar. Já não sonhava mais, nem me sentia descansado de manhã. Acordava às 10h, comia uma pêra sem casca e voltava para cama – aprendi a odiar pêras. Deixei de sair com meus amigos, cansei de cancelar com o Ricardo e vivi dessa maneira por quatro longos meses. Se eu soubesse o que estava por vir, teria viajado e experimentado todas as culinárias do mundo; curioso que se eu tivesse feito isso, não teria me acontecido o que aconteceu. Eu não saía mais de casa e, se não fosse minha mãe me obrigar a ir ao Dr. Alberto naquele dia 23 de fevereiro, teria preferido ficar dormindo. A consulta foi um sucesso, exclamaram, tinha emagrecido 51kg! Queixei-me da exaustão que sentia, da apatia, do sono infinito e da infelicidade, e o Dr. Alberto nos tranquilizou dizendo que uma vez que reintroduzisse alimentos sólidos, todos os sintomas desapareceriam. E quando seria isso, indaguei, salivando de saudades de mastigar um bom prato de qualquer coisa. Assim que perdesse os 15kg que ainda me pertenciam. Ao sair da consulta vi meu reflexo no prédio espelhado e não me reconheci. Quem era aquele homem magro, com olheiras, de pele e aspecto acinzentado? Não poderia ser eu. Meus olhos, que um dia brilhavam, meus braços vigorosos que preenchiam a camisa, minha barriga redonda desapareceram e deram lugar a um infeliz, com cara de pêssego passado. Notando, naquele momento apenas, o aprisionamento da minha condição, disse à minha mãe que pararia a dieta: já estava suficiente. Ela, na melhor das intenções, garantindo – como muitos outros – seu lugar no inferno, dirigiu seu filho até sua morte. Fui internado no mesmo Spa onde perdi a vontade de existir alguns meses antes. Lá perdi 11 dos 15 kilos que faltavam para meu "peso ideal", ideal para o fim da vida de um gordo que viveu, um dia, uma vida completa. Saí do Spa de ambulância, com falta de ar, tontura, dores no peito, palpitação e a certeza – e no fundo, a única vontade que me restara – de que iria morrer. Cheguei ao hospital, onde encontrei meu pai, irmão, Ricardo e o Dr. Alberto. Todos diziam que eu estava com uma aparência ótima, enfim magro, e que me acometia, apenas, uma simples desidratação. Essa foi a primeira vez em meses e a última da minha vida que dei risada. Estou bonito assim? Gargalhei. Os resultados dos exames voltaram e era evidente, sofria de anemia aguda. Sorte que algo da minha existência era aguda, as demais já haviam se declarados insuficientes; como meu coração, que por conta da anemia, danificou-se. Minha mãe chegou, abraçou-me preocupada, e eu pude dizer que a amava e a agradeci por ter cuidado de mim. Hoje penso que ela pode ter interpretado isso como uma ironia – pobre mulher. Com todos no quarto, relembramos nossa viagem à Europa, todos os queijos que provamos, o jantar de noivado do Ricardo com a Jú, a massa feita em casa que meu irmão preparou no meu aniversário alguns anos atrás e, assim, na minha gordice, pude me despedir. A arritmia do meu coração se agravou, pude ouvir do monitor ligado ao meu corpo, aos poucos fui sentindo mais dor no peito e avisei o Dr. Alberto que era o fim. Peguei sua mão, quente, agradeci por seus esforços e disse que seu único erro fora querer que eu fosse alguém que eu não era: magro.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Jessica W. Olivieri

Jessica W. Olivieri (São Paulo, 1989) escreve nas poucas horas vagas, remoendo a culpa de sempre querer escrever mais e fazer menos dieta.

Página da autora

derkaffeeklatsch.wordpress.com

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

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