Início          Edição atual          Edições anteriores          Blog          Corpo editorial          Normas para publicação          Quem somos?          Contato         

 

Noturno no campo e outros poemas

Coletânea de poemas de Laís Araruna de Aquino

 

PALMEIRAS IMPERIAIS

Vejo-te acima dos campos
contra o céu recortada, em tua
ereção vegetal.
Sólida e austera, elevas-te,
verticalidade firme e simples.
Teus cabelos coroam-te
no fluxo do ar e dos sons,
indo e vindo numa resignação
orquestrada com o redor.
E, ao mesmo tempo, pairas sobre,
imperial.
Mas tuas raízes na terra estão
e daí te lanças e não te perdes.
Teu campo é o ar e abrigas
qualquer voo de pássaros.
Não obstante a chuva, o sol,
a alternância das estações, permaneces.
Vertical, permaneces, não obstante
tuas perdas, tuas trocas de folhas,
tuas parciais quedas, teus cachos
secos e mortos.
Mas são estes que doas ao tempo
em um contrato tácito e mútuo
de permanência e ressurgimento.
Pois tu te és, ainda que vária,
apesar de mesma.
E eu, contemplando-te
na tua retidão altiva, porém dócil,
desejo também estender-me
ao infinito, os pés na terra afundados,
e permanecer
à passagem dos dias,
sobre as desditas, sobre as florações
transitórias, sobre o desespero mudo
da mutabilidade de tudo, sobre as calmarias
do tempo, em que nada em aparência
acontece, não obstante a consciência
e o desejo de influir nas coisas
e em seu curso, não obstante o tempo
roendo tudo
até sobrar na garganta um último soluço

que vibrará um instante no ar
e desaparecerá completamente como se nunca
tivesse existido.

* * *

CARTOGRAFIA DO SILÊNCIO
(Para minha avó)

vovó já bem tarde na vida costumava contar
a qualquer que estivesse a seu lado
que a granja fora um presente
do meu avô. ela dizia numa voz feliz, ignorava
o que haveria de ganhar, mas fora ter com ele, neste campo
de silêncio e vento.
minutos depois repetia, repetia, a mesma voz,
feliz. até de repente surgir súbito algo
que remontava a seus quatro anos...
e se interrompia por um momento
como sísifo...
a granja fora o presente de meu avô a minha
avó. aqui onde eu preciso nada que os pés descalços
na grama verde e o balanço das palmeiras imperiais -
coroas de outro tempo. essa história
é o legado do antepassado que não conheci
e o fio do presente se entrelaça ao tempo de antes
como uma voz ao eco de outra voz
dentro da língua. na minha voz sopra a fala atávica
do sangue no tempo.
(e o meu jeito de ir ao meio do mato, entocada,
é o doce legado do sangue)

bem mais tarde minha avó que já perdera
muito não conhecia mais este lugar de refúgio
fora da cidade. aqui era como lá e ao quando se misturou
o presente de eternidades. no entanto
aqui é o lugar onde o deitar do sol traz
um brilho dourado às árvores que recortam o horizonte.

não se pode roubar este presente
mas chegará o momento em que tudo será apagado
pela sombra do nada, restando um monumento de ruínas
fora do tempo,
sepultado.

o exílio da memória é como um farol num oceano
profundo e escuro de águas impenetráveis.
resplandece em meio ao nada, quando se perdem

as pontas do tempo

* * *


OS NOMES E O HOMEM

os atos falhos não só os homens cometem
meu celular quando tento escrever freud
escreve freios e fico a pensar nos impulsos inibidos
na meta ou nas relações morfossemânticas
dos nomes freud freios frechas fechos foda felação
para dizer foda digo freud e acho que o homem
gostaria dessa suspeita relação e do pudor falso
de foda por freud
freud também é o nome que minha terapeuta
me fala quando diz que uma grande decisão
não é na razão mas em algum sentimento profundo
e irrefletido
outra vez freud é quando minha irmã tenta explicar
o rumo não aparente que sua vida tomou

freud morreu de um câncer na garganta
o homem que morreu logo depois de seu neto de quatro anos
por não suportar talvez um mundo
sem o objeto de seu amor como li nalgum lugar
esse homem era sigmund

* * *

VIDA DE CAMPO

quando chega ao campo, minha vó logo
se deixa ficar ao terraço, à cadeira de balanço,
os pensamentos para cá e para lá
como a gente descansa nessa paragem do tempo
verde, quando faz chuva, nos meses de junho a agosto
nos demais meses o mato fica seco
a gente descansa nessa paragem do tempo
e eu lhe digo que do pouco que faço
também descanso
um dia me deixarei ficar toda a semana
morarei aqui
com meus cachorros, o rumorejo das árvores
ao vento e toda a saparia
minha vó ri e diz é tão bom
nem precisa de gente
eu rio e repito nem precisa
de gente
ao longe, em uma estrada que meu olhar alcança,
um ruído de motor de carro
minha vó fala sobre o silêncio
e sua voz e o silêncio se confundem

no campo, o vento é o maestro de todas as coisas
de tudo que rege,
o ar, o balanço das palmeiras, o voo
dos pássaros e sua fala de canto,
de tudo isto, sobe o silêncio
e no corpo adentra - imenso

* * *

VIDA DE BAIRRO

A minha rua conta trezentos e alguns passos
guiados pelo meu cão. A volta na quadra,
com algumas paradas, cheiros e contemplações,
toma quase trinta minutos. A tarde sempre cai
no mesmo ritmo. Às cinco e um
ou outro quarto, saio à rua, para o passeio diário.
Se atraso, meu cão se aproxima e dá-me a pata.
Conheço todas as esquinas e os muros e os jardins
que anunciam as casas, ou os edifícios. O muro coberto
de heras da rua dona anunciada com
a esmeraldino bandeira impede-me a vista
de sua mansarda – resquício nesses tempos
de arranha-céus. Ali defronte, uma casa
de repouso permanece. Não há saída
na dona anunciada. E penso nos dias
da minha velhice. Inda hão de tardar. Um alívio
no peito permite-me levantar os olhos. O percurso
não muda. Mas as cores do céu e a forma
do vento no corpo não coincidem nunca
com o passado. Num mês de chuva, sinto frio,
em contraste com o calor úmido do verão;
e o ar mais pesado, o céu quase chumbo,
a água em gotas vibrando dão-me a impressão do novo,
como se, percorrendo sempre o mesmo caminho,
igual apenas estivesse o trajeto, mas, em volta
e no meu ser, espocassem surpresas; como se
o cansaço de estar não fosse chegar nunca, e
o tempo tivesse de preparar o corpo para o fim.
Alguma vez, penso que o hábito me fatiga.
É só um momento de dúvida. Se nada
acontecesse, haveria ainda a memória dos dias,
interminável fio onde o fiador se conduz noite adentro,
como um viajante solitário, no eco de sua voz,
uma fala amiga em terra estrangeira. Mas os dias
não são os mesmos. Há sempre uma geografia
fora da carta – como na interseção a todo momento
dos meus olhos com o céu

* * *

RUA DUVIVIER

Em um café de rua espero Gullar ou um sopro
de mar surgir como um substituto impossível
à presença dos homens. Não os conheço,
estou só à Rua Duvivier
mas a esta hora estaria só em qualquer
rua de outra cidade.
Aqui porém habitam Gullar e seu gato,
debruçados sobre os homens. Também
eu gostaria de estar no meio
deles com uma palavra fraterna ou me pesasse
sobre os ombros uma mão suavemente.
Entre essas aspirações, uma massa de ar
e fuga,
não encontro o gesto de convite
e as palavras estão muito ao fundo
para meu corpo inexperiente.
Entanto habituei-me ao esquivo
como a uma presença. Não fosse isto,
seríamos apenas eu e o mar sem absolvição ou
justificativa,
algo belo mas desolador - terra sem mundo.
Não posso, no gratuito, no aleatório,
no puro contingente, a liberdade desmedida
de estar como não estar.
Ensaio a construção do necessário
como no espelho esboço um abraço. Seguirei
o rito até o fim da tarde. A noite trará
o hálito do sono como um consolo.
Amanhã retorno.

* * *

HIPÓTESE CONTRA A DISSIPAÇÃO

vamos, desceu a chuva
estende as tuas pequenas mãos em concha
para reter um pouco de água
como a uma certeza

não levarás do mundo nada
este momento e outro em que um punhado
de qualquer coisa é tua maior e breve certeza
aconteceram porém

vamos, a manhã saiu
apesar da escuridão da véspera
deixa teu corpo contra o vento
para que te afague uma canção
materna

vês, vento e água escorrem pela terra
deixa-te ir também
teu primeiro luto foi a luz
mas teus olhos alguma vez
refletem o brilho de constelações

não obstante a consciência pulsando
no fundo sem fim da noite

* * *

DORES DOURADAS NA MADRUGADA

não tenho os motivos
não tenho as razões
não tenho as im-possibilidades
não sofri como dora barcelos
os músculos a carne e o terror
não fui perseguida como tsvetaeva
não desesperei como maiakóviski
não padeci como iessienin
e os outros sob a abstração totalitária
empurrada à sangue na vala comum
não sou como ana c. despindo-se dos ruídos da noite
não sou
existência entre existências ao rés do chão
me acontece alguma vez por nada
como uma ínfima falta
desejar

* * *

NOTURNO NO CAMPO

a lua no céu parece um crânio amarelo
e escalpelado como um ovo aberto
ao redor tudo em silêncio
e zunidos repousa
a noite desce no leito do dia
enquanto a lua parcamente
ilumina o campo
a sombra traga os contornos
do meu corpo e as coisas
vão caindo no escuro
se assumo sua realidade
sou um deus solitário e anônimo
dentro da noite
eu sou o grande maestro regente
que concede à cada coisa sua existência
e ouço estalarem como uma resposta
aos meus desígnios
vou deixar os olhos abertos
para que tudo permaneça na noite
sem fim
mas se o apelo ao impossível romper
como um desejo louco da lua ao lado
meu soluço inundará o corredor
da noite tirando à cada coisa
sua certeza
porque o mergulho no chamado do Eu
túnel sem fundo
é como o coração desnudo da noite absoluta
dentro de mim

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Laís Araruna de Aquino

Laís Araruna de Aquino tem 28 anos e é formada em Direito pela Faculdade de Direito do Recife – UFPE. É Procuradora do Município do Recife e poeta.

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

A revista

Edições anteriores

Blog

Corpo editorial

Nossos artistas

Autores (breve)

Colabore com a Raimundo

Normas para publicação

Contato