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Uma a mais

Conto de Lena Luiz

Sai de casa tiritando. Melhor sentir um bocadinho de frio agora que ficar suando e carregando tralha mais tarde. Inverno brasileiro é osso.

Verão brasileiro é osso, sair cedo pra trabalhar é osso. Um esqueleto completo.

Melhor não pensar, ou seja, pensar em outra coisa, que não pensar em nada é coisa que monge budista tenta uma vida inteira e às vezes nem consegue.

No ponto do ônibus fica batendo com os pés no chão, para esquentar. Sorte que está vazio. Um saco quando tem gente, e você não sabe se cumprimenta ou ignora. Os habitués são os piores. Bom variar de horário. Ou de ponto.

Está se tornando uma ... caramba, como é mesmo a palavra? Bom, pensar em outra coisa está dando certo, ou será que o frio passou porque dentro do ônibus não venta? Claro, né? sua idiota! Misantropo! Será que misantropo tem feminino?

Bom dia para o porteiro, bater o ponto, bom dia para a cozinheira, pegar a garrafa térmica, sentar na cabine/guarita. Primeira parte do dia ticada. O portão vai abrir.

A maior parte dos alunos não a vê. Talvez nem saibam que exista. É só uma coisa que fica ali abrindo e fechando o portão e atendendo ao telefone, uma extensão do portão e do telefone. Um periférico. Mas não são todos.

- Oi, tia!

- Oi, Tuco! Oi, Nina! Oi, Piôco!

Há até os que sabem seu nome.

- Fala, Eni!

- Eni, esqueci minha tranca, posso entrar com a bike?

- Não depende de mim, vou ligar lá dentro. Dona Sônia? Bom dia, é Eni. Um aluno esqueceu a tranca, pode entrar com a bicicleta? Sim, senhora. Obrigada.

Depois que o portão fechar vai ter de começar a lidar com os retardatários, em seguida começam os telefonemas justificando as faltas e avisando quem esqueceu o quê.

Hoje ele vai chegar só para a terceira aula.

Sineta, terminou a primeira. Sineta, terminou a segunda. Ai.

Mesmo sabendo de onde ele vem e a que horas, mesmo estando esperando há milênios que chegue ao portão, vê-lo é sempre um susto, o coração dispara, aquela pedra de gelo cai no estômago.

- Bom dia, Eni.

- Bom dia.

E a brincadeira de sempre:

- Qual a previsão para hoje?

Porque ela sempre acerta como vai ficar o tempo.

- Hoje não pode chover.

- Ah, não vai, não, pode ficar tranqüilo.

- Que bom. Quero um céu bem limpo pra hoje. Vai ter eclipse. Você já tem programa?

Programa? P R O G R A M A ????? Jesusmariajosé, ele está perguntando se ela tem programa para hoje? Assim, na bucha? Desse jeito a mulher desmaia.

Todas as emoções já torturaram a pobre, desde o início do ano. Quando voltou das férias e viu que a escola tinha admitido aquele feio mais lindo do mundo, passou dias mal humorada, sem atinar com a razão. Andava como um zumbi, e tudo parecia estar terrivelmente distante. Não tinha fome, dormia dez horas por noite; por duas vezes chegou atrasada. Finalmente, entendeu, quando ele apertou sua mão e disse:

- Eu sou o professor Celso, vou ensinar Geografia para o Fundamental.

Estava apaixonada! Aquela coisa ridícula e estúpida dos romances estava acontecendo com ela! Depois de tanto tempo, tanta estrada, tanta maluquice, bares, porres, agora que pendurara as chuteiras, ia acontecer de se apaixonar? E por um professorzinho careta?

Com a descoberta, o mau humor se tornou angústia. Já não dormia. Comia demais. Se maldizia por não ter terminado nenhuma das quatro faculdades em que ingressara. Ficou com ódio da decisão de sossegar e arranjar aquele empregozinho medíocre, onde o destino agora vinha lhe pregar aquela peça de mau gosto.

Quase voltou a beber. Chegou a ligar para dois dos antigos amigos de cama. Desligou. 

No carnaval meio que surtou. Esfregou o quitinete inteiro, paredes, chão e teto, com escova e desinfetante, mudou os móveis de lugar duas vezes, limpou o forno por dentro e lavou todas as roupas de inverno. Subiu à cobertura do prédio para estender tudo ao sol e ... ao invés de pensar em pular, sentiu uma alegria absurda! Talvez tivesse atingido a normalidade, pensou.

Não tinha. Era só efeito da endorfina produzida por tanta atividade física, e talvez do cheiro do desinfetante. Quando acordou da soneca da tarde e subiu para recolher a roupa, não pulou porque dava trabalho, era chato, e não valia a pena.

Até a semana santa, verdadeira quaresma. Depressão profunda. Com muita banana, chocolate e meditação, estava se recuperando.

Não que acreditasse existir qualquer perspectiva em relação ao professor, e nem queria alimentar tal tipo de sonho, mas começara a cogitar voltar a estudar, talvez à distância. Com uma graduação poderia procurar outro emprego, e nunca mais vê-lo. Em todo caso, tinha novamente o domínio da razão, sabia que aquilo não tinha futuro, e que ia passar. O tempo é uma ilusão. Tudo é uma ilusão. Emoções são ilusões. Paixão é função cerebral, como qualquer outra coisa. Sinapses neurais.

Vamos lá, menina, é só colocar no automático. Fazer a obrigação e obedecer ao patrão. O patrão nosso de cada dia, dia após dia. Em frente, marche.

E agora vem o mardito! Perguntar se ela tem programa!

- Programa?

- É, para o eclipse. Já marcou alguma coisa para a hora do eclipse?

- Nãã ... não.

- Vou levar duas turmas de quinta série ao observatório. Não quer vir junto? Uma tia a mais para ajudar a controlar a moçada ia ser uma mão na roda.

Uma tia a mais.

 

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Lena Luiz

Nasci no Vale do Paraíba em 1955. Ao longo de 60 anos fui muitas, todas compostas por mais silêncios que sons, mais esquecimentos que lembranças, mais luz que sombras. Minha fórmula inclui pouca água, pouca modéstia, menos medos que indignações. Muitas indagações. Morei em São Paulo por doze anos e depois voltei para o Vale, onde moro, trabalho, tricoto, leio e escrevo. Escrevo, já fui premiada em alguns concursos, mas não me considero escritora. Sou, no máximo, uma inventadora de histórias. Inventadora. Isso, sim. Gosto de criar. Criar histórias, receitas de comidas, bonecos de tricô. Gostaria de participar da criação de um mundo socialista, libertário, mas os personagens – popularmente conhecidos como “humanos” – atrapalham.

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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