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Vasculhando amor

Coletânea de poemas de Laura Vainer

 

você: já se perguntou o que é uma mulher?
quantas vozes . . . sabe quanto tempo demorou pra eu conseguir te olhar nos olhos? quantas vozes?
quando a gente tá forte, a gente se pergunta [dois pontos]
alguém, algum dia, vai conseguir encostar em mim?

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[zero]
pele e pelos atentos
ventre guloso
o olfato vê longe
os olhos ouvem dúvidas
(veem tanto quanto as pontas excitadas dos dedos)
corpo deshierarquizado,
a escuta ora à memória
a boca tateia o espaço tempo
as co s t a s . . . .. . .. .. . . . . . . .
corpo esburacado
orifício de edificar e sangrar
jardim de facas e orquídeas
um véu de neblina fina encobre a serpente,

dar asa a cobra é entrever o mistério

* * *

[um]
o b u r a c o d a m u l h e r é m u i t o f u n d o

(e vaza)

* * *

[treze]
eu posso explicar: pensei em flamingos que dizem sim, procurei as imagens no google. um flamingo naturalmente elegante de pé sobre uma perna só, e um outro surpreendentemente estabanado todo arreganhado depois de ter caído no lago.
ou: uma coleção de objetos metálicos encontrados na rua – pregos novos, tortos, enferrujados; porcas de todos os tamanhos, pedaços de relógio, parafusos aos montes e mais outros objetos-liga que não sabemos os nomes – uma coleção de objetos metálicos encontrados na rua se entornam para fora de uma pequena caixa de vidro sobre uma mesa também de vidro. a menina olha a cena por debaixo da mesa. descansa ali, deitada. a gata vem e pousa no peito da guria. elas respiram juntas. a menina se vira para levantar e a gata escorre pelo lado. determinado, o tempo acolhe a bunda da garota na cadeira em frente à mesa. ela enfia, um por um, os objetos de volta na caixa de onde eles vazaram.
(não é equilibrar. é outra coisa)

* * *

[quinze]
, começando pelos dedos da mão esquerda pra dentro do teu cu até que a mão toda estivesse por ali te percorrendo por dentro e abrindo caminho para o braço, se espalhando em longitude no desejo da mão de alcançar o tórax. não tem nenhuma pressa nisso… pressa nenhuma… que o terreno é selvagem . escuro . muscular . . . . meu braço não devastador, não desbravador, amante delicado . seu reto, a curva da tua bexiga – gasto segundos aqui . . . a confusão dos intestinos – nódulos mucosos, degraus lambuzados. um útero que flutua, . . . deslizo com o seu uréter entre os dedos indicador e mediano para me acomodar no teu rim. me inquieto e num alvoroço encosto o dorso da mão nos corpos das tuas vértebras e isso me excita: a materialidade óssea. teu pâncreas me estranha e não vim de invasora, no que lhe dou um afago com as pontas dos dedos . . . e parto. quando dei de cara com o tempo não o vi . era esse o labirinto . miolos e tripas cintilantes que serviam como travesseiros de camomila . sossego incendiário. nessa esquina abdominal deito sobre o teu estômago para lhe dizer: calma. é que os estômagos se assustam com facilidade, faz amor apaziguá-los sempre que possível. engraçado que não me interessei em entrar pela tua boca, ainda que o percurso até teu tórax, por ali, fosse mais curto… eu e meu gosto curvelíneo . . . corto o caminho para o lado direito pra me deparar inteira com o teu fígado: que grande coisa. e é pelas marcas digitais dos dedos que te cheiro… dali continuando para a direção da tua cabeça quem me orienta é a aorta: respiro fundo, diminuo o passo: tudo é tão delicado . . . micro-susto-suspensivo: de ante braço lhe toco o pulmão. e nessa linearidade expedicionária entendemos que era onde deveríamos chegar dados os passos que demos. encostada ali, me dou conta de que caso não decida partir tudo irá virar pulmão. vou-me embora antes que entorpecida até o fim. calçando o ritmo que me convoca, com o cuidado das maravilhas chego no teu coração. nos emocionamos nisso e tomamos algum tempo respirando próximos sem nos encostar. a única coisa que minha língua diz depois da mão esquerda estar bem agarradaelargada no teu motor cardíaco é: pode soltar o peso,
 

* * *

Vasculhando Amor é um exercício cartográfico em dança e escrita, e está disponível para o toque em www.vasculhandoamor.wordpress.com.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Laura Vainer

Escritora porque dançarina e graduanda em Licenciatura em Dança pela UFRJ. Pesquisa a relação entre produção de palavra e de corpo no âmbito dos discursos amorosos e dos afetos eróticos. Atua no Núcleo de Pesquisa, Estudos e Encontros em Dança/UFRJ onde desenvolve, junto a outras quatro artistas, uma pesquisa cartográfica que se interessa pelas relações entre dança e cidade. Produziu textos críticos em dança para os projetos Laboratório de Crítica, do Festival Panorama (2015) e Precisa-se de Público, da Bienal de Dança do SESC (2015). Eventualmente publica textos junto ao projeto Mulheres que escrevem, plataforma que investe na produção, reunião e divulgação de material literário produzido por mulheres. Escreve poemas, crônicas curtas, e é definitivamente obcecada pela escrita de cartas. Produz também textos acadêmicos e pensa modos possíveis para a partilha corporificada destes textos, estando atualmente envolvida com a elaboração de palestras-dançadas. exercícios para despoluir o amor é um trabalho composto por textos, danças, performances e imagens. Como pesquisa de conclusão de curso da graduação de Licenciatura em Dança, o trabalho acontece sob a orientação do artista e professor Felipe Ribeiro e está implicado em exercitar a escrita acadêmica de um outro modo. O material desenvolvido pela artista pode ser encontrado em vasculhandoamor.wordpress.com e  medium.com/lauravainer.

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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