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Homem sem agá

Conto de Marlene de Lima

O dia do analista é hoje, mas não sei se vou.

Lembro-me de mim, diante do espelho, em 3l de dezembro de 2003. Depois de percorrer toda a via crucis dos processos físicos, biológicos, psicológicos, sociais, jurídicos e de gastar quase todo o dinheiro que herdei de minha mãe, eu perdera, finalmente, a aparência dúbia que intrigava as pessoas, antes de concluída minha "machificação" (não sou uma mulher masculinizada, sou um macho). Este era meu sonho de menina, que finalmente conseguira realizar.

Clarisse Andrews Machado só na carteira de identidade, que legalmente ainda não consegui alterar. Meu novo nome é Charles Andrews Machado, a despeito dos cartões de crédito, plano de saúde e documentos oficiais, que me constrangem a ser Clarisse.

Quando morrer, em vez de "saudades", ou texto religioso, quero, em minha lápide, palavras de gratidão aos profissionais que me assistiram — urologista, psicólogo, cirurgião plástico — e, principalmente, minha ginecologista Fernanda, uma gauchona, amiga de fé que me apoiou quando tomei decisão tão difícil e radical.

Numa das primeiras saídas depois de recuperado, até que dei sorte. Em outubro de 2003 (meu aniversário), conheci a Salete no Dama da Noite, na Lapa. Recém-chegada do Piauí, escorraçada pelo pai e abandonada pelo namorado casado que a engravidou, estava hospedada na casa da Teca, sua prima e velha conhecida minha, promotora de eventos como eu.
Gostei da menina e forcei uma aproximação, passando a frequentar o apartamento da Rua Riachuelo. Convidava Salete para shows, cineminhas etc.

Desde os primeiros encontros, percebi que ela — morena bonitinha, 23 anos — sabia a verdade sobre mim. A discrição não era o forte da Teca. Naquela época, perto dos 30, eu não me iludia facilmente: Salete concordara em morarmos juntos, por necessidade. Sozinha na vida, três meses de grávida, sem trabalho nem escolaridade, o meu apê no Leblon caiu mesmo do céu.

A gente formava uma família legal. Eu, pai de uma garotinha, indo à praia, visitando amigos, frequentando festas de aniversário. E, com o tempo, acreditei, Salete se apaixonaria por mim.

Por que não? Impetuoso, romântico, um perfeito amante latino; sem modéstia, bom de cama. Tenho barba, pelos no peito, pernas cabeludas e, graças à genética (minha bisavó era irlandesa), sou alto e ruivo. Bem, um pênis poderoso é pedir demais. Os trans femininos têm sorte: é mais fácil o médico forjar uma vagina, dando ao operado a conformação física de mulher, ainda que o infeliz tenha que passar trinta dias com um rolo de isopor enfiado numa cavidade criada, também, pela mágica da cirurgia plástica. Agora, transformar um clitóris numa estrovenga — e funcionando — é outra história.

Ora, mas para essa mecânica do sexo, de que as mulheres fazem tanta questão, tenho apetrecho importado, da melhor qualidade, que nada fica a dever em textura e consistência aos que andam por aí. Melhor, até: não broxa nunca.
Tudo isso não impediu que eu fosse abandonado. Como no poema de Bandeira, minha mulherzinha, quando se apanhou de dentes tratados, roupas da moda, diploma do supletivo e emprego no shopping (que consegui com minhas amizades), optou pelo garotão da loja de artigos para surfistas, vizinha à sua. Foi embora levando Patrícia, a filhinha adotiva que aprendi a amar.

Quando não passo horas sem fim na internet, vou a espaços LGBTs em busca de companhia. Não gosto de guetos. Porém, mesmo querendo apenas contatos casuais, encontro cada vez mais dificuldades — para as lésbicas, não sou mulher; para os gays e as mulheres, não sou homem; para os homens, não sou mulher nem gay.

Bebo pouco e não me drogo. Odeio surubas, bacanais, libertinagem. Gostaria de me sentir socialmente aceitável, ter uma família careta, igualzinha à da minha casa; dia dos pais, dia das mães, dia da criança, vizinhos, cachorro. Ser marido e pai. Pensava que era simples, mas a Salete me ensinou que não é assim que a banda toca.

Por esse ideal de vida, mandei que me arrancassem os peitos, me extirpassem útero e ovários, estou ficando careca, graças à testosterona. O que não aceito é ser uma piada, um pastiche.

“O que acha que posso fazer, doutor?”

Eron Sveiter, psicanalista, autor do livro Problemas Existenciais nas Opções Sexuais Alternativas, olhou o relógio.

“Nós vamos descobrir juntos, Charles. Hoje, você me trouxe o que não pode fazer.”

Não gostei da ênfase que ele deu ao "não". Senti certa ironia proposital nas palavras dele. Esses caras se acham uns fodões. A maioria é de enrustidos que invejam a coragem dos que ousam, como eu.

“O senhor está insinuando que eu estou arrependido. É isso?”

“Isso quem está dizendo é você. Continuamos na sexta, à mesma hora, está bem assim?”

É. Talvez não vá. Ontem, no Bar do Arnaudo em Santa Teresa, conheci a Verinha, uma viúva de Macaé. Vende produtos de beleza e está morando na casa do irmão. Levamos um papo maneiro. Ela detesta a cunhada e não sai de lá porque não pode com o aluguel. Não é jovem como a Salete, porém me acha o sujeito mais interessante dos que já conheceu aqui no Rio.
Parece que está pintando um recomeço.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Marlene de Lima

Marlene Santos de Lima (Marlene de Lima), alagoana de Maceió, radicada no Rio. Pertence a uma família de marítimos. Filha de um prático do porto, que morreu em serviço. Cursou a Faculdade de Letras da UFRJ e, na UERJ, fez curso de especialização em Literatura Brasileira, em 2001. Frequentadora de oficinas literárias, em especial a Estação das Letras, no Rio, publicou o livro Homem sem agá e outras incertezas, em 2011, pela Editora Cais Pharoux. Foi premiada em 1909 pela Secretaria de Cultura de Araçatuba, SP, por seu conto Matinê (2º lugar). Teve contos publicados no jornal literário Rascunho, de Curitiba. Conhecendo os meandros do serviço público, foi secretária de audiências na Justiça do Trabalho, de onde também tirou elementos e matéria ficcional para construção de ambientes e personagens. Tanto quanto o cordel e as coisas do Nordeste. Escreve para Ideias em Revista, do Sindicato dos Servidores das Justiças Federais. É professora de Língua Portuguesa e Literatura.

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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