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Custódio, eu te vi

Conto de Maria Luiza Bueno Benevides

Naquele tempo as professoras eram as freiras e o colégio, exclusivo de meninas. Sem população masculina de qualquer idade, tirando o padre em suas visitas, nas eventuais festas os pais das alunas e o professor de matemática, prof. Custódio.

O professor Custódio era jovem adulto, alto, de ossos fortes, moreno de cabelo liso, penteado para trás. Parecia um gigante. Um gigante triste e mal vestido, com calças e camisas curtas, velhas, menores do que seu tamanho pedia. Sua única ascendência com as alunas era a matéria que dava – Matemática −, porque, fora isso, sua imagem e sua postura eram de subalterno.  E nunca em nenhuma solenidade ou festa do colégio era chamado o seu comparecimento.

Acontece que a matéria difícil provocou numa determinada sala do 5º ano − muitas alunas tiraram nota abaixo de 5 −  revolta contra o professor.

Primeiro riram dos seus modos truculentos, dos braços peludos, da camisa sempre abotoada até o pescoço como se para conter o gogó; depois, alguém, querendo realmente invalidar a prova, pensou numa calúnia brava para falar contra ele:

- Que ele...

A denúncia era feia e maldosa, poderia prejudicá-lo realmente; certamente o tirariam do colégio, seria execrado.

Entre as alunas, havia uma, Mª do Carmo, que secretamente nutria grandes sentimentos pelo professor Custódio. A fragilidade daquele homem grande, daquele corpo maior que suas pobres vestes, da sua cara ossuda, azulada onde era a barba.        Uma imensa compaixão acompanhava o seu trajeto de menina, até tinha imaginado que quando ficasse adulta e se tornasse uma mulher, poderia ajudá-lo, amá-lo, casar com ele.

O sentimento era grande, obscuro, como um peso que esmagasse a ela, criança ingênua, nova demais para o que não compreendia. Então, muitas vezes, para sobreviver, para continuar ser a criança que era e correr alegre para a vida, para um futuro sem dor, inventava uma raiva dele – touro contido, babá de meninas. Por isso odiara-o junto com as outras, por isso permitira como as outras que uma calúnia como aquela fosse feita contra ele.  

Quando a freira entrou, a sala em silêncio. A colega que liderava o levante pediu licença para falar, e falou as coisas combinadas. Falou tão bem mal do professor que até exemplificou e encenou uma atitude perversa dele. A sala em silêncio, concordando com ela.

 Mª do Carmo o resto da vida se lembrou daquele dia, da cara da freira, das costas da colega que se levantara para fazer a cena. Da vergonha que seguiria aquele silêncio. Como permitira... Que responsabilidade carregaria pela vida afora aquela turma de meninas...

A grande sorte é que, certamente aberto o inquérito, a sabedoria da experiência das freiras acostumadas com as perversidades de meninas manhosas e dissimuladas não permitiu que a calúnia fosse adiante.

As freiras não acreditaram no que foi dito na classe. Custódio continuou no colégio e continuou professor da sala, na qual acrescentou a sua postura humilde um ar distante e magoado.

Também a sala não falou mais nisso depois que algumas rezas e penitências foram exigidas pelas freiras, que − Graças a Deus – pensaram − não permitiram que fosse prejudicado o professor.

Quando ficou adulta Mª do Carmo se precaveu, com sucesso, dos homens pobres, tristes e desamparados, cujo olhar e gesto abrem a largo uma incômoda e perigosa piedade.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Maria Luiza Bueno Benevides

Maria Luiza Bueno Benevides é professora de literatura e artista plástica, nascida em Goiânia-Go e residente em Brasília-DF. Participou com um conto da antologia Escritor Profissional, Coletânea de Contos- Volume 1, da Editora Oito e Meio, em 2016. Também foi selecionada no 4º Concurso de Microcontos de Humor de Piracicaba-2014. Autora da série em quadrinhos Guardiães em Terra Monada, roteiro e ilustrações, destinada ao público infanto-juvenil, agraciada no Projeto Incentivo à Leitura, em Goiânia-Go, em 2000. Literatura sempre foi a grande devoção da sua vida.

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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