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Será que abri os olhos?

Conto de Marcella Mattar

Minha irmã dirige o carro numa velocidade desenfreada. Tonta, vejo a paisagem voar, tão rápido quanto estão agora os meus pensamentos. Algumas luzes vêm de fora e invadem o carro, mas mesmo com a iluminação precária os pequenos feixes que atravessam o vidro se encarregam de aumentar minha dor-de-cabeça. Pela janela, o verde escurecido de uma floresta. A velocidade do carro faz parecer com que as árvores estejam dançando. Que idéia engraçada, as árvores dançando, e logo rio por estar pensando bobagens. O tom borrado do verde se perde conforme a minha vista. O cenário foge, só o que permanece é essa angústia aqui dentro. Não consigo lembrar de onde viemos. Olho para minha irmã, no banco ao lado, concentrada no volante. Estaria bêbada também? Não sei dizer. Está escuro. Antes, acho que tinha uma festa. Alguma coisa com uma piscina. Ou seria uma banheira? Não sei de quem era. Mana, eu digo. Ela não responde. Da janela, as árvores dançam para mim como ninguém dançou essa noite. Por que teríamos ido embora? A escuridão aqui dentro é aflitiva. Tento enxergar o céu, minha visão não o alcança. Imagino as estrelas brilhando lá fora, e essa imagem inventada me conforta por um momento. Recordo ter ouvido várias vezes, quando criança, que as pessoas depois que morrem viram estrela. Acho que foi meu avô quem disse, numa noite estrelada há pelo menos duas décadas atrás. Não sei se cheguei a acreditar nessa teoria na época, mas, meses depois, quando meu avô morreu, a primeira coisa que fiz foi buscar as estrelas. E agora rio da inocência infantil, da tentativa dos adultos em fazer da vida menos cruel para as crianças. Como se fosse possível mascarar as verdades. Está bem, uma festa. Acho que era de uma amiga, talvez um casamento. Sei que dancei sozinha o tempo todo. Alguém me perguntou por que eu estava desacompanhada. Não sei o que respondi. Tive uma vontade imensa de fugir, assim como tenho agora, de escapar para um mundo em que houvesse algo maior do que as fragilidades humanas. Depois, deitei na grama e fiquei olhando o céu por horas. Não sei se estava com alguém, é provável que não. E então agora não posso ver mas consigo imaginar as estrelas reluzindo, enquanto minha irmã no volante faz silêncio. Deve estar bêbada. Visualizo a autopista sem curvas pelo vidro da frente, a linha reta e sem fim me traz um enorme incômodo. Raramente surge um ou outro carro. Faz-me lembrar daqueles jogos de vídeo-game em que você tem que dirigir e esperar que nada de ruim aconteça. Será que é mesmo minha irmã quem está dirigindo? Fecho os olhos para espantar o medo. A tontura aumenta, mas penso que talvez possa dormir. Se adormecer, já estarei em casa quando acordar, sem precisar me preocupar em saber de onde vim ou para onde estou indo. Agora, sem a agonia da visão, ouço o barulho do vento que bate forte nas janelas. Imagino o quão forte deve estar do lado de fora o vento soprando balançando as árvores que dançam junto com a velocidade do carro. Parece que estou caindo, a sensação é engraçada. Abro os olhos. Pelo vidro, a estrada infinita, uma ou outra luz, tudo permanece igual. No volante, meu namorado conduz o carro. Faz quatro anos que não o vejo. Todos os fins-de-semana, pegávamos a estrada. Sinto alívio, pois ele segura a minha mão. Não sei como, se precisa de uma mão no volante e uma para trocar as marchas, mas tenho certeza de que ele a segura nesse momento. Olho para ele, sóbrio, sem desviar os olhos da estrada.  Felipe mantém a mesma aparência de quatro anos atrás, e me lembro do quanto eu gostava de observá-lo quando se mostrava sério e concentrado em qualquer coisa. Desejo congelar essa imagem, por algum motivo ela me escapa. Ele aperta a mão com força, sinto o suor da sua na minha, a sensação do tato parece real demais para ser de uma lembrança. Com o calor na mão, esqueço das árvores dançando pela janela. Então rio, lembro que estou feliz, embora esteja escuro e não saiba bem dizer de onde viemos para onde estamos indo. Ele deve saber. Não trocamos olhares, mas minha mão quente me diz que ele está comigo. Devolvo as carícias à sua mão, mas agora a imagem de Felipe se desfigura. Estou tonta de novo. Só o que vejo é a estrada interminável à minha frente com o barulho do vento batendo contra os vidros e as árvores dançando pela janela. Será que abri os olhos? O movimento rápido do carro me faz sentir náuseas, me dou conta de que já venho sentindo náuseas há um bom tempo sem perceber. Seria essa a mesma estrada? O caminho me parece conhecido, tenho certeza que já estive aqui antes. Felipe me fazia sentir segura. Procuro por luzes. Não sinto mais o calor na mão. É difícil calcular há quanto tempo estamos nesse carro, minha irmã dirige tão rápido que me deixa confusa.  Se soubesse de onde viemos e para onde estamos indo talvez pudesse saber. Mana, eu digo, mas sinto que palavra alguma faz sentido nesse momento. Não está muito rápido? eu penso, não sei se consigo dizer. Estou muda, faz quatro anos que não consigo dizer nada, nada. Meus olhos estão abertos? Esse caminho não acaba nunca, o tempo não passa. Felipe, eu digo, sem saber se a voz saiu. Minha irmã me olha: Quê? À minha frente, a noite, a rua, o vento, o verde borrado e as árvores dançando. O calor na mão, cadê? Não consigo saber se estou bêbada ou se estou sonhando. Avisto um brilho intenso ao fundo da estrada, a distância da luzinha amarela diminuindo conforme o tempo. Alivio-me pois por fim não está mais tão escuro e na claridade a tontura acalma embora o frio na mão ainda incomode. A luz aproximando-se é tão rápida quanto é o vento, só então sinto a velocidade do carro quando, depois do baque, o barulho do grito tenta me fazer lúcida novamente. A cabeça sobre a janela despedaçada, noto que as árvores estáticas não dançam mais. Tenho medo de virar-me para ver o corpo de Felipe imóvel ao meu lado. O meu eu sei que respira. Será que abri os olhos, digo alto para a estrada, para ninguém. Pela janela sem vidro, o céu me cumprimenta com o farol das estrelas. Posso jurar que agora são elas que dançam para mim, uma dança mais bonita que a da festa e a das árvores.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Marcella Mattar

Marcella Mattar gosta de banhos gelados, viagens solo e Sylvia Plath. Acredita que o mundo seria um lugar melhor se fossem proibidas perguntas sobre o significado de suas tatuagens, seus escritos ou o vegetarianismo. Publicou o livro de contos “O movimento do oceano” pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul em 2012 e o romance “A ausência que preenche tudo”, disponível em ebook na Amazon (2016). Escreve em marcellamattar.com

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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