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D'Os beats ao encontro com As memórias de uma beatnik

Ensaio de Mariana Paim

Comprei a coletânea em quadrinhos Os beats[1] há anos atrás, movida ainda pela fagulha rebelde que havia sobrevivido a adolescência, muito inspirada na atmosfera que aquele universo literário tinha despertado em mim. O livro passou anos na estante, enquanto outras leituras mais urgentes iam se impondo, fazendo com o desejo de lê-lo ficasse sempre para depois.

Fato é que finda a leitura dele dias atrás, excetuando as ilustrações que são incríveis!, e algumas histórias das quais falarei mais adiante, o que sobreveio foi um total desencanto. Já que assim, descobri que os homens responsáveis por produzir uma literatura que marcou não só a minha, mas inúmeras outras gerações, se por um lado transgrediram uma série de normas e padrões de comportamento, por outro não conseguiram dar o salto de romper com a cultura patriarcal na qual estavam imersos... a verdade é que sinto que toda aquela áurea iluminada de que havia em torno deles e daquilo que escreveram se esvaiu por completo.

Mas no meio do livro havia um apêndice e lá, onde geralmente são inscritas as experiências femininas, infelizmente não somente nessa história, entre inúmeras narrativas[2], há uma dedicada a Diane di Prima e outra sobre algumas da demais artistas da cena, na qual se inscreve as histórias de várias outras mulheres que vivenciaram essa geração escrevendo, pintando e que participaram ativamente da cena beat, mas que ainda são quase que totalmente desconhecidas!

A partir dessa leitura tentei rememorar as narrativas que faziam tanto a minha cabeça, com algumas perguntas: Por que essas mulheres que conviveram tão de perto com esses autores não aparecem nos seus livros, quase sempre biográficos? Por que quase que não há outra representatividade feminina naqueles livros e poemas escritos por esses homens que não seja a figura da mulher por quem é nutrido um amor devoto, ou que é objeto do desejo sexual de alguém? Ou onde só aparece quando é chamada no meio de um diálogo entre homens para ser mandada servir um café[3]?  E mais questões iam surgindo: Como essas mulheres escreveram? Sobre o que? Como haviam sido suas experiências nesse contexto[4]?

Movida por essas interrogações me pus a pesquisar a respeito e me deparei com um dos únicos livros escrito por uma dessas mulheres traduzidos e publicados em português, a autobiografia de Diane di Prima intitulada Memorias de uma beatnik.

A leitura dessa autobiografia me tomou completamente, não só porque o fluxo narrativo é intenso e envolvente, mas também porque descortinou e quebrou com uma serie de noções que julgava a respeito da experiência feminina naquele contexto. O livro acompanha a trajetória de Diane pela Nova York e arredores, dos anos 1950/1960 e se volta mais para pensar sobre seus encontros afetivos, sexuais e as novas experiências que a cidade efervescente oferecia. Tocando em temas como família, virgindade, desejo hetero e homo orientado, métodos contraceptivos, maternidade e drogas, Diane dialoga com o movimento feminista do período[5], se colocando sobretudo enquanto dona de si e do próprio corpo. 

Diane di Prima é poeta e ficcionista, tendo mais de quarenta títulos publicados, mas sobre seu processo criativo as coisas são mais interditas do que rememoradas. O Memorias de uma beatnik foi publicado em 1969, a convite do editor Maurice Girondias, mas fica claro também que a ideia era vender o livro enquanto “romance erótico”, algo em que a autora já trabalhava para levantar uma grana, é interessante como ela brinca com isso no meio da narrativa, como na seção “conversa que se gostaria de ouvir sobre a lareira” e em seguida “o que realmente aconteceu”, onde põe em questão a própria narrativa memorialística e seu processo de re-invenção/ficcionalização, mas seu livro é sobretudo um libelo da coragem de uma mulher que viveu o seu tempo e explorou todas as possibilidades de autorealização e prazer guiada pelos desejos que sentia.

Dias atrás encontrei, quase que por acaso em uma estante, uma miniantologia chamada meninas que vestiam preto e comprei-a sem hesitar! É um pequeno livrinho que foi publicado esse ano pelo selo Demônio Negro e conta com uma minibiografia e dois poemas em inglês/português de quatro poetas beats, dentre elas: Diane di Prima, Anne Waldman, Elise Cowen e Marie Ponsot. Mas além delas há muitas outras, Joan Kerouac, Joyce Johnson, Hettie Jones, Carolyn Cassady, só para citar algumas. Elas estavam lá produzindo, subvertendo e vivenciando aqueles anos, mas essas são outras obras e histórias a descobrir e (re) contar... 

 

Referências

ALVES, Bianca Moreira, PITANGUY, Jacqueline. O que é feminismo. São Paulo: Brasiliense.

DI PRIMA, Diane. Memórias de uma beatnik. São Paulo: Editora Campos, 2013.

KEROUAC, Jack. Geração Beat. Porto Alegre: L&PM, 2011.

MENDONÇA, Vanderley (Org.). Meninas que vestiam preto. São Paulo: Selo Demônio Negro, 2016.

PEKAR. Harvey. Os beats: graphic novel. São Paulo: Saraiva, 2010.

Alguns poemas e leituras da Diane di Prima podem ser acessados aqui:

http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2008/02/diane-di-prima.html 

e aqui:

http://subcultura.mitotes.eco.br/sub/letras/beat_diprima.shtml


[1] Os Beats é uma graphic novel que transita pela atmosfera e os artistas do universo beat, roteirizada e ilustrada por diversos autores como Harvey Pekar, Nancy J. Peters, Penelope Rosemont, Joyce Brabner, Trina Robbins, Anne Timmons, Ed Piskor, dentro outros.

[2] O livro é dividido em duas partes, a primeira delas “Os beats: Kerouac, Ginsberg e Burroughs” e segunda “Os beats: perspectivas”, composta cada uma delas por diversas histórias curtas, no total são vinte e cinco delas, sobre a vida dos artistas. Nessa segunda parte se insere as duas únicas seções sobre as mulheres entre os beats, são elas “Diane di Prima” e “Garotas Beatnik”, esta última roteirizada por Joyce Brabner, que reflete sobre sua percepção das beatniks enquanto contemporânea e a redescoberta das suas obras e trajetórias anos depois.

[3] No roteiro de Geração Beat, peça escrita por Jack Kerouac, essa é uma das únicas cenas onde se insere a presença feminina.

[4] Os anos 1950 nos EUA são marcados pelo forte clima conservador e repressivo.

[5] Durante a década de 1960 se dá o início da segunda onda feminista, caracterizada pelos debates em torno de questões como: sexualidade, família, direitos reprodutivos, violência doméstica, mercado de trabalho, dentre outras.

 

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Mariana Paim

Mariana Paim nasceu no município de Tanquinho-BA no ano de 1986, sob o signo de capricórnio. É licenciada em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana e mestre em Estudos Literários pela mesma instituição. Atualmente dedica-se ao magistério, a pesquisa literária, principalmente sobre a temática do homoerotismo feminino presente na obra de Cassandra Rios e a escrita literária, mas flerta também com outras linguagens artísticas. Publicou poemas nas antologias Cidade (DiaboA4 Editora, 2013); Arcos de Mercúrio (DiaboA4 Editora, 2015) e Rosa Rubiginosa (Alpaca Press, 2016), esta trabalhando na produção de seu primeiro livro-objeto artesanal, Ausência (edição da autora) e publica ocasionalmente na página https://medium.com/@marianapaim.

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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