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Quando você me perguntava sobre o rio grande como o mar

Coletânea de poemas de Mariana Ruggieri

oris
p/ débora

da sua boca cascataratas
& bolhinhas de gude
& crustáceos
a sua boca um bicho imortal dos arenais
exoesqueleto que sorri
como os cemitérios de beira de estrada
onde tombaram inomináveis guerreiras
carbonizadas
de cabelos longos mas também carecas
& tatuagens com gosto de aço e bambu
na sua boca uma cidade antiga
guardada por répteis
engolida por uma flor carnívora
em uma manhã de novembro
primeiro o incêndio aí a onda
por último só o farol
em sua boca giros
redemoinhos
(que alguns também dizem torvelinhos)
um caleidoscópio de peixes
& crianças com guelras
em cardume contra uma baleia
Ship ahoy! Have ye seen the white whale?
ela é planeta
e também mãe
dos silêncios embrulhados em jornais

* * *

prefácio

se fosse para entender tudo

seria uma cartilha

e não um encanto

o feitiço como política

o improvável sussurro de joana d’arc

diante da lei;

não tornar-se lei;

a lei é epitáfio;

a forma itálica contra o ângulo reto da lei

o sussurro contra os gritos dos palanques

a poesia é:

um bilhete esquecido

em algum bolso afogado

estraçalhado

na máquina de lavar

a poesia é:

dizer FICO

em uma carta de suicídio

a poesia é:

não precisar do suicídio

sem nunca duvidar do suicídio

a poesia é:

encontrar um cílio xerocado

sobre uma página de tédio

a poesia é não mais saber

se o seu nome – poesia – serve;

se algum nome serve;

se há quem sirva;

e se já não caiu

aquele a quem se imaginava servir

 

* * *

beautiful losers

você me liga i’m coming home
com esse seu inglês arrastado
das estradas de minas sem acostamento
mas sim – isso sim –
a ternura da pele
com marcas da cadeira de sisal
e explica que o sisal
é um tipo de agave; que a cadeira
é um tipo de tequila;
que o agave é azul blue
e lá não existem cercas
lá sendo o mojave
lá sendo sonora
e a sua voz se retrai
para o fundo de um aquário
escuto os peixes
nadando pelo deserto –
alguém esqueceu um navio
na cidade de Indio, CA.

4:20 e as flores de cannabis,
no centro a madrugada é seca
caminha (sufoca) pelo elevado 3.5:
leonard cohen teria pintado
tudo isso de vermelho
i was never drunk enough;
never poor enough;
never rich enough;
mas alguma coisa ele escondia
embaixo do chapéu.

* * *

hong kong, 2016
to my friends who cannot read this language

uma folha de seda gruda na outra
a tv no metrô informa é a umidade relativa do ar
cada folha na anterior / sanfona /
toda folha a anterior / pétala /
mas é o suor do delírio dos séculos
o olho da caçadora de pérolas
e seus mamilos chineses descobertos
espelhando nesse fundo de mar nosso
os arranha céus do distrito financeiro
ela diz sua saliva aqui é inútil / nada aqui é seu
só posso fumar graças a ela
e seu sorriso em apneia
se eu fumo é porque por muito tempo
não foi preciso escrever livros / costurar papel
ou confundir tabaco com pólvora / inalar a guerra
canhões para um lado
cânhamo para um outro
o cessar-fogo para subir as costas do dragão
a cidade lá em baixo, o silêncio
depois do tufão, intactos os andaimes de bambu
intactas as mulheres de bambu / seus peixes secos
/ suas fazendas de sal, intactas as mulheres
sob os letreiros neon, invictas as trabalhadoras filipinas
no domingo de descanso, estendidas sobre os lençóis
que normalmente estendem
essa é a cidade do tiger balm, do bálsamo de tigre
dos tigres cósmicos, das balsas de estrela
star ferry, 1963, HongKong & Whampoa Dock Co Ltda
varrendo o mar entre a ilha e o continente
entre os aterros e os montes
se eu pudesse resistir sentada como os 10.000 buddhas adornados
das encostas dos morros
se eu pudesses florir estéril como a Bauhinia × blakeana
talvez não me espantasse que de todas as línguas eu fale justamente
a língua de minha mãe

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Mariana Ruggieri

mariana ruggieri. 1988. mari alter. mare nostrum. são paulo. osaka. chicago. hong kong. atlântida. fez graduação em estudos literários na universidade estadual de campinas. doutoranda em teoria literária e literatura comparada na universidade de são paulo – escreve sobre literatura, drones, polvos miméticos. alguns outros poemas podem ser encontrados em: biosgrafias.wordpress.com

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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