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Mão de goleiro

Conto de Natasha Centenaro

Uma coisa eu descobri: Os homens têm carne demais, demais!
Me acostumei com a ideia de um homem nu na minha frente,
oferecendo as vísceras. Cresci com essa vontade. Em decúbito,
agachado, separando cuidadosamente as polpas de suas
nádegas, amaciado, amanteigado, entorpecido,
pronto para uma viagem íntima.
Newton Moreno


No gol. Eu disse. Quando ele me perguntou em que posição eu jogava. O olho esquerdo mais próximo à pálpebra fitava-me quase em contra-plongèe, o castanho da íris não escondia o estrabismo, e as rugas acentuavam a reação que ele fazia ao ser provocado. Expressão que eu só conhecia pela televisão. Assisto futebol como assisto filmes de ação, por causa dos protagonistas. Não presto atenção no enredo. Repetição me deixa exausto. É como na partida, repete passe, repete cobrança de falta, repete cartão amarelo, repete pênalti, repete gol, repete goleiro pegando a bola. Duro de matar 22 e mais o arbitro. Ele também gostava de repetição. Treinava os movimentos até praticamente decorar a posição em que o pé tocava na bola, a direção e o ângulo que ela tomava ao vibrar no ar e entrar na goleira. Mas a rede não balança em todo chute ao gol. O Diego, dos roteiros de propaganda, me ensinou esse lance dos ângulos da câmera e me disse: na vez em que alguém me fascinasse os olhos, seria como se a minha câmera filmasse em close esse alguém e fixasse a imagem assim na memória, e sem edição. Gostei do Diego. Bonito. Inteligente. O Diego era mais passivo do que ele. O Diego não me pediu isso. Isso que ele me pediu desde o primeiro close. Tinha feito isso com outro cara, o enfermeiro da Samu, aquele que gostava de profundidades e agulhas e sangue e vísceras saindo. É que não tenho fetiche por isso. O Cléber tinha me dito que os caras do futebol e os atores de novelas gostavam disso. Desafiava-os. Não sei. Não me deixa excitado. Ele quis marcar no Vila Ventura. E quem te passou o meu contato? Pelo sotaque não o reconheci. Pelo nome, pensei, fosse médico, engenheiro ou trabalhasse como chef no restaurante do hotel, pouco importava. Carlos. Ou Cássio. Ou Caetano. Ou Cristiano. O Cléber me avisou: esse aí é grande, é peixe grande, daqueles que dão entrevista em programa de TV. Me apresentei como Fernando. Ele sabia que meu nome era Alexsandro. Ele tinha pesquisado as minhas especialidades. Mas não sabia que eu tinha sido goleiro no colégio, no time do campinho de chão batido do salão paroquial, e no futebol das quartas-feiras na firma. Fecho o gol. Nada passa pelas minhas mãos. Não gosto de ver jogo. É diferente. Prefiro olhar de dentro. Ele me disse: também. Também ele preferia estar dentro do campo. Segurou as minhas mãos, percebeu a vontade nelas de não deixar passar nada. Me serviu uma dose de Johnnie. Pedi sem gelo. Precisava ficar menos intimidado. Ele não bebia álcool – hábito das concentrações. De fato, ele era mais baixo do que na televisão. Não costumo ir a estádios. Posso fazer uma pergunta? No Japão. Lá, é normal. Todo mundo faz. As mãos dos japoneses são pequenas, mas eles sabem fazer. Têm técnica. Sabem onde fica a próstata. O fisioterapeuta recomendava. Eles diziam que era uma forma de relaxamento. Tu precisas ver que não sou gay. Não é que a gente não tenha, claro, também a gente, entre a gente, quem joga, tem gays, entende? Não sou. Eu não. Mas tem, sempre tem. Mas sem frescura. Sem essa coisa de se pegar o tempo todo. Nem com mulher. Jogador não pode ter essas, essas regalias. Disse que entendia, não estava ouvindo suas explicações, me lembrava do Samuel foguete, o capitão do time dele, o bravo e aguerrido capitão que levantou a taça, volante, marcador e líder implacável, com chute de direita que fazia tremer, me dizia o Samuel foguete. Dois Gauchãos em sequência. Quando voltou, evitou o rebaixamento do time. E o troféu do Rio Grande de novo treinando o time do Samuel foguete. O Samuel foguete colecionava times de botão e ninguém podia tocar no seu capitão. O capitão do Samuel foguete na minha frente, pagando para ser tocado. Comprovei minha especialidade: pego a bola na intermediária, deixo para trás o zagueiro, vou levando e dominando no meio-de-campo, enfrento o marcador, dou aquele chapéu estilo Ronaldinho, o adversário vem para cima, invado a grande área, olho o goleiro deles e meto a boca. Da punheta para o boquete em três lances, cinco passes e o gol. Chuto. Na trave. Ainda não. Não foi dessa vez que a bola balançou a rede. Ele queria. Me queria em outra posição. Me pedia para meter a mão, a mão de goleiro. Sentia na boca o pau dele explodindo. Mais um movimento, uma chupada no capricho e. Não. Ele disse que só gozava por trás. Pela mão do goleiro. Enfia, rapaz, enfia, vai. Com técnica. A técnica de fister aprendi com ele, o capitão do time do Samuel foguete me ensinou o momento de entrar, quando o esfíncter relaxa completamente, a zaga abre, o artilheiro dribla sem marcador, dentro, ele me disse, tem segredo nos movimentos, breves, compassados, não adianta dar chutões desesperados, tem que ir levando a bola na manha, girar um pouco o corpo, deixar sumir até o punho dentro, e com os dedos contraídos roçar a próstata, da maneira como os japoneses faziam, os japoneses do time dele nos anos 90, que tinham a melhor técnica. Ele sabia ser fistee e receber uma mão de goleiro. Dentro dele me senti confortável, como quando colocava uma luva, ajustava-a, fechava o velcro, segurava na boca a outra, forçava-a para encaixar nos dedos, fechava o outro velcro e batia uma palma das mão contra a outra, estou pronto. Pelas minhas mãos não passa nada. Ele gemeu. Do seu pau a ejaculação saiu sem direção certa. Não pude ver o ângulo que fazia em relação à parede. O capitão me pediu uma jogada especial. Não posso desobedecer o professor. Vou entrar em campo com minhas luvas novas. Ele não gostava da cama. Ficava de quatro no chão. Agachava-se de costas para mim e depois estendia os braços na frente. Encostava-os na parede ou se apoiava no piso laminado da suíte do hotel. Senti o pau endurecer. Não podia comê-lo. Ele não permitia. Pau dentro não. Só a mão de goleiro. No banheiro, bati punheta para me aliviar do tesão que o capitão me deixou. Gozei com uma voz entrecortada por imagens editadas na memória, aos gritos de é tetra, é tetra, é tetra!

 

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Natasha Centenaro

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Raimundo • Nova literatura brasileira

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