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Seu fastio

Conto de Natália Zuccala

A mim abandonam-me. Está certo isso? Não sei. Não? Não sei. Sei que abandonam-me. Ligeiros. Sempre passam ligeiros por mim. Foi daí, deste sofrer abandonos sempre tão recentes e contínuos, que resolvi que os ia abandonar. Está certo isso? Os ia abandonar? Abandonei então. Sem que fosse possível estar ou não certo.

E os abandonei de forma que não me abandonasse a mim mesmo. Para isso, precisava encontrar meios de seguir podendo conviver com eles, sem, no entanto, continuar sendo abandonado. Assim está constituída minha vida, uma vida de sofrer dependências. Dependo da convivência com eles para continuar vivendo, numa espécie de parasitismo consciente e irresponsável. Desejo e necessito do estar junto a eles, tão clementes. Eles, porém, carecem, com ainda mais necessidade, deixar-me imediatamente após conhecerem-me. No engendramento desta conflituosa aflição, muito maior para eles do que para mim, acostumei-me a ser deixado, em desagrado compulsório e mútuo. Sorte minha haver tanta gente no mundo, de modo que de um abandono seguia outro, alimentando minha dependência ao ouvir suas palavras, observar como se comportam e contemplar sua forma de mexer as mãos e os olhos. Os mais expressivos davam-me ainda mais contento, logo, com esses tentava ser mais agradável, de modo que me suportassem por um tempo um pouco maior do que os outros.

Eu nunca senti o estar sendo abandonado por mero sentimento. Não. Fui sempre, de fato e ocorrido, deixado para trás. Os momentos em que eles resolviam deixar-me configuravam-se claros à minha percepção e à deles. Era ato consciente, percebido e impresso. Em verdade, amiúde declaravam, explícitos, que estavam prestes a me abandonar. Alguns, mais pacientes, se davam ao trabalho de explicar-me por que me deixavam. Pobres, prostravam-se ali horas, diante de mim, a explicar-me a mim mesmo. Confesso que essa parte do abandono até divertia-me. Não era simples explicar-me o quanto era insuportável, eles, com frequência, recorriam a exemplos para ilustrar o meu comportamento detestável. E eu, conhecedor de minha própria repugnância, abstraía o conteúdo de sua fala, mirando completamente minha atenção a sua expressividade.

Abominam-me, sempre abominaram. Percebi, depois de muito tentar encontrar quem me suportasse, que sempre me abominarão. Desta percepção aflituosa sobre a minha relação com eles, decidi mudar-me. Um pouco também por estarem se esgotando as minhas possibilidades de convivência com eles, em verdade, majoritariamente por isso. A mim foi aferida certa fama, ultimamente, de modo que alguns deles passaram até a me evitar. Por conta disto dei de estar junto de crianças. Sim, crianças, essas miúdas.  Acontece que, por excesso de desejo próprio, egoístas, elas logo se corriam de mim, a chorar para as mães, quando as interpelava nos shoppings centeres, espaço onde costumeiramente abordava as pessoas. Se enfastiava adultos, como não às crianças? Estas que são tão escravas das graças do mundo. Além do mais, demonstravam não me compreender completamente, tratam-se de seres profundamente incompletos, ainda não aprenderam o trato social.

Passada essa fase curta de aproximação das crianças, mudei-me definitivamente para esta minha forma de estar no mundo atual: tornei-me parede. Hoje, de modo menos interpelativo, habito o mundo dentro de suas paredes. Dizem que se pode ser o que se quer e está comprovado. Quis ser parede, tornei-me uma. Moro dentro da parede que quiser, pois desenvolvi uma técnica própria para adentrá-las. Particularmente, tenho preferência pelas penitenciárias e espaços de convívio e lazer (salões de festas, churrasqueiras, piscinas...), lugares em que eles se assoalham divertidamente e eu, ominoso, vivo do vetar-lhes, a eles limitando, sem nunca abandoná-los.

 

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Natália Zuccala

Natália Zuccala, como escritora, dedica-se ao teatro e ao conto. Também é professora de Língua Portuguesa e Literatura na Escola da Vila e graduanda do curso de Letras na USP. Suas peças A e Fenda foram montadas pelo coletivo de dramaturgos que integra, o ANTESSALA. Diversos de seus contos foram, e continuam sendo, publicados no blog Caos Descrito, outros saíram em revistas impressas (Jandique e Empena). Integra a antologia Alguma objeção?, do selo Demônio Negro e organização de Marcelino Freire, o seu conto Planta Baixa. Às arrisca-se vezes também a ser atriz, apesar de achar a coisa mais difícil do mundo, e foi assistente de direção de teatro em algumas ocasiões.

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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