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No açougue da avenida padre pereira e outros poemas

Coletânea de poemas de Pilar Bu

 

No açougue da avenida padre pereira

, dividi o corpo
em partes:
a cabeça, congelei
as pernas, enviei por correio
as mãos, guardei na cabeceira
o resto, joguei fora.

* * *

Duplicada

a tristeza é dessas coisas
que se avizinham
se avizinham
se agigantam
e tomam conta de tudo.

traz consigo o afago
despretensão
revistas velhas
e mais uma escova no banheiro

eu e minha tristeza
andamos de mãos dadas por aí
pegamos ônibus
fazemos feira
tomamos sorvete

e quando ela se vai
feito água de banho
resta o vazio.

* * *
 

Notas sobre a nebulosidade

existem dias líquidos
em que espero cartas
poemas e ligações
existem dias sólidos
fechados em concha
em posição fetal
existem dias vaporosos
desprendida do corpo
sem pertencer a mim
escrevo longos versos
curtos feito porrada
canto canções
em outras línguas
espero sua voz
do outro lado
conto até vinte
mas não esqueço
está impregnado
em cada veia
em cada poro
em cada terminação
os rostos nunca mais
serão os mesmos

e eu volto a dormir debaixo da cama

* * *

 

Entre o nariz e o queixo, abriu-se um buraco

sinto esse gosto amargo
de pasta branca na boca
que aos poucos endurece

como argamassa

gosto de dentista
às 15:30 da tarde
pra apertar o aparelho

e amolecer dentes

sinto que perdi
todos os dentes
e dentro dessa boca oca

estão as palavras

essas palavras
que não conseguem sair
amordaçadas em flúor e sal

e ninguém mais vê

cegos estão os outros
enquanto grito enlouquecida
ecos de mim

ferida aberta

boca aberta de flúor
amordaçada de pasta branca
argamassada em cal

* * *

 

Estrelas de Hydra

cinco furos
no braço
formam
constelação

por baixo
da carne
da terra
do verme
do verso

doía.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Pilar Bu

Pilar Bu nasceu no Rio de Janeiro (1983) e se considerapaulistana e goianiense de coração. É poeta e ponto. Beerlover, triplo-fogo do zodíaco, feminista e mãe felina de três gatos, mora atualmente em Goiânia, na Toca dos Vampiros, com seu companheiro. Mestranda em Literatura, é mediadora do clube Leia Mulheres de Goiânia, integra o projeto E-cêntrica, é uma das co-criadoras e ex-integrante do coletivo Minaescriba e faz parte da organização do festival literário [eu sou poeta]. Já publicou em revistas literárias como Mallarmargens, Escritoras Suicidas,Germina, Subversa e Parentêses, além de ter integrado coletâneas das editoras Patuá (Antologia Patuscada, 2016), Selo Demônio Negro (Maus Escritores, 2009) e Nega Lilu (Os olhos do Bilheteiro, 2016). Ultraviolenta, seu primeiro livro de poemas, sairá em breve. Acredita na força do superlativo e em versos como vidro: translúcidos, frios, duros e cortantes.

Blog da autora

ultrapilarbu.wordpress.com

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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